Houve um período de paz entre Colin e Amisterium, não foi um período longo, mas ele existiu de qualquer forma, uma paz firme o suficiente para que, em um gesto de boa fé, o rei Janus Colin apresentasse seu filho mais velho, que era apenas uma criança, ao filho caçula de Dominic Amisterium.
Os dois meninos tinham a mesma idade, Arnold ainda era o mais velho, por poucos meses, e mais quieto entre os dois, e estava decididamente apreensivo sobre o encontro.
A realidade era que, entre seu título e os guardas que o seguiam por todo lado, Arnold não tinha experiência interagindo com outras crianças além de seu irmão mais velho, Eric, e estava, em medidas iguais, preocupado e ansioso com a possibilidade de conhecer alguém novo.
O convite chamava o rei e seus dois filhos para um almoço em Colin, para conhecerem seus dois filhos: o herdeiro que completou dez anos pouco tempo atrás, e o caçula que, aos cinco anos de idade, era tão recluso que se sabia pouquíssimo dele.
Colin não era o que Arnold esperava, com tantas histórias sobre guerreiros cruéis e sem piedade, o garoto esperava rios de sangue, pessoas com olhares cruéis, segurando tochas em sua direção, mas o povo de Colin era... normal. Eram homens e mulheres normais.
O castelo, que o garoto imaginava ser uma masmorra escura e perturbadora, tinha belos muros de pedra negra no exterior, e paredes brancas com dourado no interior, decorados com tapeçarias roxas, estandartes e móveis luxuosos, como em qualquer outro reino, mas com as particularidades culturais daquela região – como as várias estátuas de lobo em pedra preta.
Arnold não conseguiria se lembrar do rosto do velho rei Janus mesmo se tentasse com muito esforço – ele já era idoso quando sua rainha engravidou do primeiro filho, e os dois foram orientados a abandonar a tentativa de um segundo filho, pois era perigoso para a saúde da mulher, mesmo assim eles tentaram, não era incomum que um rei tentasse ter mais de um filho homem, nunca se sabe o que pode acontecer e a Família Real não deve ser deixada sem herdeiros –, mas se lembrava de que ele tinha um sorriso acolhedor e uma voz gentil.
A maior parte daquele dia era um borrão, Arnold se lembrava de um almoço, de um garoto mais novo que ele à mesa, mas o mais velho, o herdeiro, não estava em lugar algum.
O rei não parecia preocupado, não se desesperou ou perguntou aos guardas o paradeiro de seu filho, não ordenou uma busca por ele, continuou o almoço e riu com os visitantes, apenas depois da sobremesa, quando todos estavam satisfeitos, empanturrados de comida, o rei cochichou para Arnold, como se contasse um segredo.
— Meu filho não quis participar do almoço, ele não gosta muito de ocasiões sociais, mas eu não queria que fosse brincar de estômago vazio. Há um pomar seguindo por ali, você vai encontrar pelo cheiro. Ele te espera lá.
Arnold olhou para o pai em confusão, esperando que Dominic tivesse alguma objeção sobre seu filho mais jovem sair sozinho por um castelo desconhecido, mas Dominic era um homem muito aberto, Arnold podia ver em seus olhos que o pai entendia tanto daquela loucura quanto ele.
— Me chame se precisar de ajuda — o rei de Amisterium avisou de forma calma, oferecendo ao filho uma saída que não ofendesse o anfitrião.
— Voltarei logo — Arnold respondeu com um sorriso, sem saber que estava contando uma mentira.
O rei de Colin não tinha exagerado, era fácil achar o pomar sentindo o cheiro de frutas cítricas e umidade, Arnold ficou tão encantado com as altas e fortes árvores cheias de frutas coloridas, tão empolgado com o cheiro que delicioso e bem mais forte que o das flores de seu jardim em Amisterium, que por um momento se esqueceu completamente do motivo inicial de sua jornada, e, enquanto se enfiava entre árvores e mais árvores, sem se importar se encontraria o caminho de volta, quase trombou com um garoto um pouco mais alto que ele que olhava para cima distraidamente.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Amisterium: O Herdeiro Legítimo
Romance"Essa história aconteceu há muitos e muitos anos, em uma época de reis e rainhas, príncipes e princesas, uma época que inspirou lendas, canções de amor e contos de fadas sobre romances eternos. Mas esse não é um conto de fadas, tampouco é uma canção...