Arnold estava quase finalizando a leitura de registro populacional do último ano – que começara por conta própria, queria uma estimativa da porcentagem de óbitos por região no último ano e da última vez que perguntou aos conselheiros não obteve uma resposta satisfatória – quando o livro grosso de capa de couro foi fechado quase esmagando seus dedos, se Arnold não tivesse sido mais rápido em tirá-los das páginas ásperas.
Um momento mais tarde percebeu que cometeu um erro terrível , já que seus dedos marcavam a página que estava e agora Arnold não tinha ideia de por onde deveria recomeçar.
Furioso, o príncipe ergueu os olhos para o irmão que o encarava com um sorriso travesso.
— Você me fez perder a página! — exclamou Arnold com o tom mais ameaçador que um menino de catorze anos poderia demonstrar e Eric apenas riu, sem parecer amedrontado ou arrependido, colocando sua mão esquerda no ombro de Arnold, o anel prateado brilhando em seu dedo indicador.
— Estou te fazendo um favor, se escondeu aqui desde o amanhecer. É uma tarde linda — Eric disse, gesticulando enfaticamente — Por um momento tive medo que estivesse se misturado ao mofo deste lugar e não conseguia sair. Estou aqui para resgatá-lo.
— Estou estudando. — Arnold justificou, como um olhar que dizia "não é óbvio?" e o mais velho apenas revirou os olhos, arrastando-o pelo braço para fora da biblioteca.
— Vá respirar um pouco, não precisa estudar tanto, papai nem está aqui.
Eric era apenas dois anos mais velho, mas Arnold ainda estava começando a crescer, ainda era desajeitado, tudo em seu corpo parecia grande demais, desengonçado demais, então Eric ainda era mais forte, e, por mais que lutasse muito, já estavam no meio do corredor quando o mais jovem conseguiu se libertar dos dedos de aço do irmão.
— Não estou estudando pelo papai, estou estudando por você! — disse esfregando a marca vermelha que a mão de Eric deixou em sua pele.
O mais velho, que antes sorria abertamente, ficou repentinamente sério, era um rapaz não muito alto – uma raridade entre os Amisterium – então Arnold não precisava sequer erguer o rosto para encará-lo.
— O que quer dizer com isso, Arnold?
— Quero ser seu principal conselheiro, seu primeiro comandante. — Arnold murmurou — Preciso estar pronto para te ajudar em tudo, é meu trabalho.
— Ei, você será meu principal conselheiro e primeiro comandante, já é. Mas não precisa estudar tanto sozinho.
— Bem, eu não precisaria se você levasse seu trabalho mais a sério.
— Você fala como papai — Eric riu — Eu levo meu trabalho a sério, só tenho muita responsabilidade sobre meus ombros para ficar enfurnado em uma biblioteca por horas fazendo algo que outras pessoas poderiam fazer por nós. Nosso trabalho está lá fora, Arnold. Como povo, nas ruas, nas províncias. Não dentro de livros.
Arnold cruzou os braços, estava tentando muito não parecer uma criança emburrada, mas parecia quase impossível perto de Eric.
— Quando você for rei, se algo acontecer com você, vai ser minha responsabilidade.
— Quando eu for rei, se algo acontecer comigo, vai ser responsabilidade de várias pessoas— Eric balançou a cabeça — Você se cobra demais. Vamos fazer um acordo, então, você entende de acordos.
Era verdade, naquele momento mesmo o pai dos garotos, o rei Dominic, estava em Collin negociando um frágil acordo comercial, Arnold implorou para ir com ele, adorava observar acordos se formando, alianças sendo forjadas, perceber em um gesto ou uma expressão qual aliança seria duradoura e qual deveria ser discutida novamente em breve – o pai, como sempre, não o deixou ir; em partes porque era um homem solitário e sentia-se mais seguro resolvendo um acordo com um aliado instável sozinho, sem colocar ninguém além dele mesmo em risco, e em partes porque, por mais que Arnold adorasse acordos, também adorava ajudar Ethan pegar peças no irmão caçula e tudo que Dominic menos precisava era de um de seus filhos correndo por todo lado.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Amisterium: O Herdeiro Legítimo
Romansa"Essa história aconteceu há muitos e muitos anos, em uma época de reis e rainhas, príncipes e princesas, uma época que inspirou lendas, canções de amor e contos de fadas sobre romances eternos. Mas esse não é um conto de fadas, tampouco é uma canção...