2. Convite

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Já eram sete e meia da noite. Eu estava sentado em minha cama sozinho, escutando Hope Not do Blackpink nos fones de ouvido. Odiava encontrar eles enleados dentro da gaveta. Talvez esses breves momentos parecessem deprimentes — até para mim —, mas eram neles que eu tinha tempo para pensar, respirar e me distanciar dos piores problemas que envolviam o mundo lá fora. Um dos únicos momentos que Andrew e meu pai não batucavam em minha porta para verificar se eu ainda estava vivo. Mas não os julgaria se fizessem, até um certo ponto eu também acreditava em minha inexistência, mesmo que figurada. Foi assim que imaginei o que colocaria nas cartas amáveis, imaginei quais as palavras que seriam certas para estampar minhas sensações corretamente: o ardor em meu peito, a falta de ar trucida e o pudor escarlate súbito em minhas bochechas.

Depois, pulei da cama e me agachei, olhando embaixo dela. Joguei uma parte do lençol grosso para cima e puxei a caixa vermelha bem no meio. Era inacreditável como ela transmitia duvidança e um pequeno sentimento ansioso, mal poderia imaginar se alguma outra pessoa a achasse e tivesse os mesmos sentimentos que eu — com mais intensidade —, de longe um desejo descartável. Retirei a tampa retangular e a deixei pertinho de minha perna. O perfume escapou como um ciclone, o aroma de lavanda e musgo se colidiram no ar formando uma densa nuvem perene e impermeável ao meu redor. O traço lilás de lavanda vindo da carta de Blake, a única no topo, se alongou até minhas narinas como uma ponte celestial. Relaxei num aspiro profundo.

Automaticamente, um sorriso melancólico desenhou meus lábios. Desde que comecei a escrevê-las soube claramente o objetivo delas, simples e direto, externar minhas emoções. A carta de Lucas foi escrita quando eu tinha apenas doze anos, certamente eu não era tão inteligente quanto Andrew naquela idade, mas, não existia nenhuma necessidade em atualizá-la. Não poderia negar que elas remetiam uma forma existente de meu desespero — um dos sintomas da minha fobia social. Enfiei minha mão lá dentro e retirei a carta nova e macia de Blake, o azul bebê ardia nas bordas encubando minha caligrafia perfeita. o nome Blake Williams escrito a caneta de cor amaranto.

De repente eu ouvi o ranger da porta a minha esquerda. Desesperadamente, arremessei a carta lá dentro e recolhi a tampa retangular, colocando-a sobre a caixa, e depois a empurrei de supetão para baixo da cama.

— Benjamin? Tá fazendo o que? — Andrew estava na porta e perguntou-me curiosamente, empinando seu queixo para tentar enxergar do outro lado da cama.

— Nada — me esforcei para mentir de uma forma convincente. Levantei-me. — Por quê não bateu na porta?

— Não sabia que você estava aqui — ele resmungou. Eu o conhecia o bastante para saber que estava mentindo. Seus olhos cheio de desejo ainda estavam fixados no espaço abaixo de mim. — Na verdade eu vim te chamar para o jantar — ele concluiu de maneira agitada, era um de seus costumes mais transparentes.

Dei de ombros e desci as escadas num átimo.

O cheiro atemperado envolvia a cozinha, reconheci o aroma irresistível de frango assado; a única receita que meu pai realizava o passo a passo de forma correta. Observei que tinha adquirido experiência após quebrar duas travessas de vidro ao colocá-las sobre o mármore negro do balcão, agora a pondo em uma superfície adequada já na mesa feita a madeira branca.

— Parece que deu certo, papai — eu disse enquanto aspirava o aroma fragrante, a pele que agora estava assada era semelhante a ouro rugoso.

— Aprendemos com o tempo, Benjamin — comentou meu pai. — Pelo cheiro parece que está ótimo.

— Argh — Andrew grunhiu enquanto examinava a geladeira, logo a fechando raivosamente. — Nós esquecemos do refrigerante — ele resmungou e sentou-se na cadeira, os braços cruzados.

As Cartas de BenjaminHistórias para pegar e não largar. Descubra agora