4ºcapitulo

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Huambo/1996
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O camião que nos transportaria para cidade chegou, dona cassova deu-me umas raizes para mastigar afim de Cortar os enjoos,a caravana era tanta que parecíamos animais a serem transportados. Minha mãe parecia distante com suas vestes pretas simbolizando o luto que vivia,seu semblante era de cortar o coração . Eu estava igualmente triste e decepcionada por ter agido como uma rapariga tola.

A viagem durou quatro terríveis dias,percorremos estradas de terra e vários atalhos. Os tropas eixaram-nos no Bengo, alegando que não podiam ir além devido os inimigos que cercavam as matas. Desejaram-nos sorte mas quem tem sorte em plena mata em tempo de guerra?

__Daqui podem ir a capital por vossa conta mas cuidado porque a guerra ainda não acabou e as matas ainda estão minadas. Boa sorte!__Disse o tropa que comandava

___E agora o que vamos fazer?__disse desesperada

___Nos refugiarmos em algum lugar enquanto esperamos a guerra passar e depois quando tudo se acalmar voltaremos para o moxico lá ainda temos a nossa casa __disse minha mãe apreensiva

___Se é que ainda existe ___Disse com a voz fraca

Dona cassova convidou-nos para uma aldeia próxima onde viviam alguns parentes e quando chegamos o cenário não era diferente de muitas aldeias por onde passamos,um silêncio ensurdecedor tomava conta do lugar,cubatas algumas queimadas e poucos jovens.

___Olha só o que a guerra fez,perdemos plantações,cubatas e parentes ___Dona cassova Disse em lamentação

___Tudo culpa do inimigo,levaram-nos tudo até o coitado do meu Ufuko se foi __Disse minha mãe

___São todos inimigos,todos têm armas e todos matam uns dizem que é para o nosso bem mas eu não vejo benefício algum de toda esta confusão, pelo contrário só nos afunda ___Protestei

Fomos recebidos por uma senhora já idosa,devia ter uns 60 anos, deu-nos bancos de madeira para nos sentarmos,ofereceu kissangua e batata doce. enquanto comíamos para matar a fome que invadia nossos estômagos ela contava as notícias com muita dor.

___Eles vieram e levaram todos os jovens da aldeia para a guerra,levaram kiluange,meu único filho homem, uma semana depois apareceu um outro grupo e violentaram a minha Nasoma até a morte pegaram na Owiki e a levaram com eles alegando que lhes serviria de cozinheira, eles levaram todos os meus filhos,meu marido não aguentou,eu o encontrei com uma corda amarrada ao pescoço lá nas mangueiras __Disse com lágrimas caindo lentamente

Minha mãe e dona cassova levaram suas mãos entre as bochechas como a imagem do samanhonga (pensador)

___Dizem que na capital está tudo mais calmo e que estão a tentar negociar a paz mas do que nos valerá essa tal paz se levaram tudo que tínhamos __Disse ainda em lamentações

___Passamos nas matas de quase 18 províncias,tiraram-nos da nossa casa no moxico e depois de estarmos no Huambo mandaram o meu marido de volta,ele nem se quer teve tempo de regressar ao acampamento para se despedir.1 mês depois disseram que foram invadidos e ele morreu não tivemos contacto com o corpo deve ter sido enterrado como um animal __Disse minha mãe.

[...]
Bengo/1996
5 meses depois
Paula (voz off)

5 meses se passaram e eu já estava no sexto mês de gestação,a barriga estava enorme e a vida aparentemente menos turbulenta,ocupamos uma cubata que estava desabrigada e começamos a trabalhar na lavra da Dona kanjala tia de Cassova,tínhamos o que comer e onde dormir mas não era só isso que precisávamos,a paz não se resume nisso...

___Estás a pensar em que?__Perguntou minha mãe pousando a enxada

___Eu sei que errei e que o espírito do meu pai continua vagando por aí decepcionado por eu ter falhado,mas para este erro já não há concerto...

___Nunca vais dizer quem é o pai desta criança que carregas ?___Perguntou trocando de assunto

___O pai é o chefe,ele prometeu que faria o alambamento mas era tudo mentira ___Disse com lágrimas nos olhos

___Oh zambe. Ninguém vai na guerra procurar uma esposa você é ingênua de mais.

___Um dos tropas disse-me a mesma coisa quando voltei ao quartel e ele já tinha ido embora, mas eu vou para cidade assim que a criança nascer,ele terá de assumir.

___A capital é grande.

___Eu sei,mas o meu filho não terá a mesma vida que a minha,ele vai estudar,vai trabalhar....

A Procura de MirandaOnde histórias criam vida. Descubra agora