LILLY DARLING
Ouvir Winnie gritar era uma das poucas coisas capazes de trazer meus demônios de volta.
Por isso odiava minha mãe mais profundamente a cada vez que aqueles charlatões patéticos a torturavam daquela forma, por uma mentira obtusa que aquela tola acreditava.
Minha mae era muito além de patética. Talvez eu nunca encontre uma palavra que a descreva como ela merece.
Eles rastejam sob minha pele, arrancando de mim toda a vontade de adormecer. Mas não posso viver em claro, com medo de meus pesadelos.
Então me acomodei na cama, me preparando para os sonhos que viriam.
"Levantei da cama, logo me dando conta de que estava muito perto do chão. Acho que devo ter quatro ou cinco anos.
Tem alguém berrando na sala.
Sei que não é papai. Ele não grita. Assusta a vovó. E papai jamais faria algo para prejudicar a vovó, ele a ama.
Também não é o vovô, a essa hora ele está na feira, comprando frutas gostosas e muitos legumes, para cozinharmos juntos. E vovô não permitia que ninguém sequer falasse alto. A ninguém era dado o direito de assustar minha avó. Ela era o amor da vida dele.
Desci as escadas, vou ver se vovó está bem, ou se precisa que eu a ajude a se esconder do que ela não entende. Quando vovô voltasse, ele me ajudaria a resolver as coisas com a vovó.
Quando fui passar pela sala, eu vi o namorado da minha mãe.
Aliás, ela havia voltado da Terra do Nunca há pouco mais de um mês, com minha irmãzinha na barriga. O papai me disse que Winnie era filha do namorado da mamãe, e não de Peter Pan.
Eu odiava o namorado dela mais do que tudo.
Ele era um nojento.
Foi por culpa dele que meu pai teve que desistir da vida dele para voltar cuidar de mim.
Para manter aquele monstro longe de mim.
Ele era doente, histérico, desagradável...
E, em no ultimo ataque de loucura daquele monstro, ele arrancou meu grande amor de mim.
Ele matou meu pai a marretadas.
Dezessete marretadas.
A família do meu pai teve de enterrá-lo de caixão fechado. Minha avó paterna não teve o direito de dar um ultimo beijo em seu único filho. E minha mãe me tirou dela um ano depois. Ela morreu de tristeza pouco depois. Assim como meu avô e minha avó maternos. E eu só descobrir isso mais de uma década depois.
E aquele monstro morreu na cadeia. Exatamente como ele merecia. Da pior forma possível."
O som do cranio do meu pai esmigalhando a cada marretada soava nos meus ouvidos. Quase fazia meus ouvidos sangrarem.
Coloquei uma roupa confortável, e minhas mãos não pararam de tremer um minuto. A sensação de que não conseguia respirar direito ia me matar. Preciso ir lá fora. Preciso de ar.
Estava sentada na areia, apoiada em alguma pedra, quano senti mãos gentis em meus braços. Vane estava ali. A sobrancelha franzida, confuso. Acho que devo estar chorando. Mas ainda não consigo respirar. Não consigo dizer a ele que está tudo bem, que foi só um pesadelo, e que ele não precisava se incomodar.
-Lilly, você precisa respirar, tudo bem?-Ele pegou uma das mãos, ainda trêmula, e colocou em seu peito, onde seu coração batia tranquilo.-Você consegue me ouvir, certo?-Acenei positivamente.-Ótimo. Vem, tenta acompanhar a minha respiração. Um... Dois... Trê...
Treze... Quatorze... Quinze... Dezesseis...
-Para...-Pedi baixinho.-Por favor... Para... Não... Conta... Por favor...
Ele arregalou os olhos por um momento, parando a contagem.
-Desculpe... Eu não sabia... Tudo bem... Então, inspira. Devagar e profundo... Vamos, sei que consegue... Muito bem. Agora expira. Devagar... Isso, com rítmo. Não, não corta a respiração, calma.
•~☠️~•
VANE
Que assustador.
Ver Lilly naquele estado foi assustador.
Porque ela estava em silêncio.
Ela tremia, os olhos abertos e fixos, débeis. Até seu lábio tremia. Suas mãos então... Elas quase vibravam, de tão tensas e trêmulas.
Quando comecei a contar e ela pediu daquele jeito pra parar...
Eu quase me senti culpado. Tinha tanta dor na voz dela.
E o tempo se arrastou até que ela conseguisse respirar de novo.
Eu a peguei no colo, para acomodá-la no loft. Fui fazer um café, de olho nela.
Havia parado de chorar, diminuído a tremedeira... E agora respirava. Ela tentava manter o ritmo que estabelecemos juntos. Iriamos atrás da sombra de Peter naquela noite.
Winnie já esta ótima do encontro com Tilly. Tinha fodido com Pan e os gêmeos a noite inteira. Mas Lilly, simplesmente, quebrou. Em algum momento em que quase todos dormiam, ela quebrou sozinha, e saiu para não incomodar ninguém. Chorou em silêncio para não incomodar ninguém. Sufucou quieta, para não incomodar ninguém.
Terminei de preparar o café, servi duas xícaras e fui me sentar no sofá, ao lado dela. Ainda tinha os olhos fixos no horizonte, mas pareceu voltar ao mundo real, me agradeceu pelo café, e bebeu lentamente uma porção dele, antes de suspirar.
-Me desculpe... Eu...
-Se vai pedir desculpas por me incomodar porque estava chorando, fique quieta. Não vai me pedir desculpas, porque não me deve desculpas. Beba seu café. Você precisa acordar do pesadelo que a está engolindo dessa forma.
Ela me deu um sorriso pequeno, acenou positivamente com a cabeça, e logo eu estava repondo o café em nossas xícaras. E isso se repetiu até o bule acabar, e ela levantar para fazer mais café e fazer um pão salgado.
Pegamos livros na biblioteca e ficamos lendo, comendo, bebendo café ou chá, até os gêmeos acordarem. Nada foi dito sobre o episódio de mais cedo. E quando a noite caiu, fomos para o mundo humano.
O brownie de Tilly estava lá, mas era obvio que ele os guardas não estavam lá. Enquanto Winnie e Merry gritavam, eu vi Lilly ir para o baú, e conseguir abrir o compartimento secreto. Matamos o Brownie e seus capangas. Winnie e Lilly voltaram conosco para a Terra do Nunca.
Percebi que Lilly estava exausta, provavelmente em função da péssima noite que teve. Ela pediu licensa, e disse que iria e deitar, afinal ela não teria utilidade nenhuma para Peter reivindicar a sombra, afinal, Winnie sabia como abrir aquela caixinha preciosa.
Em fim, chegou o momento de abrir aquela pequena caixa de madeira.
E para a surpresa de ninguém, as sombras fugiram. As duas. E a de Peter fez o grande favor de se embrenhar no Território do Gancho. Como estava amanhecendo, deixariamos para pensar num plano na noite seguinte.
Todos fomos descansar. Tinha sido agitação demais para uma única noite.
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Como na Terra do Nunca
FanfictionPeter realmente achava que não seria mais surpreendido por uma Darling. Havia jurado isso a si mesmo. Mas ele nunca levou duas Darling. Muito menos uma que já tivesse passado de seus dezoito anos. Winnie Darling era diferente de todas as que ele hav...
