9 - O dono do meu coração

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Alguns dias haviam se passado e logo era segunda-feira novamente. A semana recomeçava, mas os dias ainda eram difíceis.

Fiz questão de passar todo o meu tempo livre com Guilherme, inventando as mais variadas atividades para mantê-lo com a mente ocupada. Cozinhamos, fizemos um dia de beleza, brincamos com Miguelzinho, assistimos doramas e filmes juntos.

Há dias que o meu menino acordava chorando, perdia o sono nas madrugadas e chorava sozinho pelos cantos da casa. Vê-lo mal me cortava o coração e eu prometi para mim mesmo que o ajudaria a superar aquele trauma e secaria cada lágrima que escorresse pelo seu rostinho.

Ainda não nos casamos, mas eu já prometi para mim mesmo que estaria com o meu moreninho na alegria e na tristeza.

Tudo bem, tudo bem, talvez eu esteja sendo um pouquinho apressado. Nós dois ainda nem éramos maiores de idade e eu sequer havia o pedido em namoro oficialmente. Mas eu ainda vou me casar com Guilherme Min e isso é uma promessa!

O sinal para a primeira aula tocou e segurei a mão de Guilherme, entrelaçando nossos dedos e subindo os infinitos degraus que levavam para a quadra.

Mesmo com atestado e a minha insistência para que Gui ficasse em casa descansando, ele quis vir à escola. Segundo ele mesmo, era melhor sair para espairecer, afinal já estava ficando maluco de passar os dias trancado em casa. Tudo bem que escola não era o lugar que eu preferia sair para espairecer, mas não iria julgar o meu pãozinho.

Sentados em um dos bancos de concreto do pátio, todos pintados de um amarelo que era a cor de praticamente toda a parte externa da escola, nosso grupo e o restante das duas turmas esperavam que o professor chegasse para abrir o portão da quadra.

- Esse professor bem que podia faltar hoje. - Felipe chegou com um salgado de queijo e presunto que parecia ter tamanho para alimentar a sala inteira. - Porcaria de educação física. Quem é que gosta disso?

Como já havia virado costume, eu tinha os braços ao redor da cintura de Guilherme, aproveitando para abraçá-lo e sentir seu perfume gostoso.

- Eu nem tomei café da manhã e essa bichona me aparece com uma padaria inteira nas mãos. Nossa, que fome. - Rafael reclamou, ajeitando a postura depois de ficar totalmente largado no banco.

- Acho que o refeitório está aberto, Rafa. - Gui respondeu com sua doçura de sempre na voz, esticando-se um pouco para ver a porta do refeitório entreaberta, este que ficava há poucos metros do pátio.

Guilherme tocou o bottom solitário com uma sequência das cores preto, cinza, branco e roxo, na mochila de Felipe, parecendo mais um gatinho curioso.

- Gostou, Gui? - Felipe o questionou e foi até difícil entender, já que estava com a boca ocupada com o salgado.

Min assentiu. - É bonito. O que significa?

- Não conhece a bandeira ace, pãozinho? - Beijei a bochecha de Guilherme, o abraçando como se fosse escapar de mim a qualquer momento e ele negou com a cabeça.

- É da comunidade LGBT? Eu não sou o maior conhecedor das bandeiras ou das siglas. O que significa ace?

- Assexual. - Felipe respondeu após um gole do guaraná que tinha em mãos.

- Assexual? - Gui franziu o cenho. - Tipo... Que não gosta de sexo? - Os olhos de Guilherme se arregalaram.

- "Assexualidade ou espectro assexual é a falta total, parcial ou condicional de atração sexual a qualquer pessoa, independente do sexo biológico ou gênero." - Mateus explicou enquanto lia a informação no celular, o que fez Felipe rir.

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