Eu me sentia segura ali em seus braços, como se todo o caos da minha vida ficasse para trás no instante em que nossas peles se tocavam.
Ele afagou meu rosto e sorriu de canto.
— Hoje eu quero te levar num lugar especial — disse, ligando o carro e saindo pelas ruas do Rio.
Observei a cidade pela janela enquanto a noite começava a cair, pintando o céu com tons alaranjados e lilases. Passamos por avenidas movimentadas, bairros iluminados por letreiros vibrantes, até que começamos a subir ruas mais estreitas, com casas empilhadas umas sobre as outras. Eu reconhecia aquele cenário.
— A gente tá indo pra uma comunidade? — perguntei, olhando para ele.
— Pro lugar onde eu cresci — ele respondeu, com um brilho nostálgico no olhar. — Você dividiu tanta coisa comigo sobre sua vida... agora é minha vez. Quero te mostrar um pedaço de mim, Liz.
Meu coração acelerou um pouco. Não por medo, mas por saber que esse tipo de coisa significava muito para ele. Daddy não era do tipo que compartilhava seu passado facilmente. Se estava me levando até lá, era porque queria me incluir nesse lado da sua vida.
O carro seguiu por vielas apertadas até um ponto onde não dava mais para continuar de veículo. Descemos, e Daddy segurou minha mão firme, guiando-me por becos e escadarias grafitadas com arte de rua vibrante. As crianças brincavam descalças, senhoras conversavam nas portas de casa, muitas pessoas o cumprimentavam e o som de um baile ao longe ecoava pela comunidade.
— Eu passava por aqui todo dia quando era moleque. Minha casa era ali em cima — ele apontou para uma construção de tijolos expostos, com um portão azul descascado.
— Você sente falta daqui? — perguntei, observando seu olhar distante.
— Sempre. Mas, ao mesmo tempo, sabia que precisava sair. Queria mais do que isso aqui podia me dar.
Depois de subir mais algumas escadas, chegamos a um mirante improvisado no topo do morro. A cidade se abria diante de nós em um espetáculo de luzes cintilantes. Era como se o Rio estivesse aos nossos pés.
— Caramba... — sussurrei, maravilhada. — Isso é incrível.
— Eu costumava vir aqui quando queria fugir um pouco da realidade — ele disse, encostando-se no parapeito improvisado de concreto. — Era aqui que eu sonhava cantar, planejava tudo. Esse lugar me lembrava que o mundo era maior do que os problemas que eu tinha lá embaixo.
Eu me aproximei, sentindo a brisa quente da noite bagunçar meus cabelos. Daddy passou um braço ao redor da minha cintura e me puxou contra ele.
— Eu sei que sua vida não tem sido fácil, Liz. Sei o que você sente com seus pais te pressionando, tentando controlar cada passo seu — ele disse, sua voz carregada de sinceridade. — Mas você não tá sozinha. Sempre que precisar de um refúgio, de alguém pra te ouvir, ou de um lugar pra respirar... me chama. Eu tô aqui.
O encarei, surpresa com a intensidade do momento.
— Obrigada por me trazer aqui. E por isso — deslizei os dedos por sua nuca. — Eu confio em você.
Ele sorriu de leve, mas, antes de falar qualquer coisa, desviou o olhar para a cidade lá embaixo. Ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse tomando coragem.
— Liz, já te contei tanta coisa sobre mim, mas tem uma coisa que quase ninguém que me conhece hoje chama pelo nome ou sabe meu nome.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ele respirou fundo e virou o rosto para mim.
— Meu nome verdadeiro é Alexsandro. Mas faz tempo que ninguém me chama assim...e eu até prefiro.
Pisquei algumas vezes, absorvendo aquela nova informação. Alexsandro. Soava diferente, mais íntimo.
— E por que não usa mais?
— Porque a pessoa que eu fui aqui, crescendo nesse morro, não é a mesma que sou hoje. Mas, com você... parece que não preciso esconder nada...e também rola um mistério pra galera.
Meu peito apertou com aquelas palavras. Sorri de leve.
— Alexsandro — testei seu nome nos lábios, vendo ele arquear uma sobrancelha. — Gosto do som.
Ele riu baixinho, antes de abaixar a cabeça e selar nossos lábios em um beijo lento, profundo. O mundo inteiro parecia desaparecer ali, entre as luzes do Rio e o calor do nosso corpo.
Por alguns minutos, ficamos apenas abraçados, aproveitando o silêncio confortável e a sensação de pertencimento. Eu não sabia o que o futuro nos reservava, mas, ali, no topo do morro, sob o céu estrelado, tudo parecia exatamente como deveria ser.
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Heaven | NGC Daddy
Fiksi PenggemarEles dizem: Todos os garotos bons vão para o céu Mas os garotos maus trazem o céu até você... ( Heaven - Julia Michaels ) PLÁGIO É CRIME.
