No dia seguinte, Emily desistiu de ir com a prima para a escola. Não se agitou quando a viu passar pela porta da sala como um furacão, com aqueles fones de ouvido enormes. Sentou-se à mesa tranquilamente e decidiu comer em paz. Serviu-se de uma xícara de chá vermelho com algumas fatias de pão integral, que a tia comprara há alguns dias numa tentativa de fazê-la se sentir mais confortável em sua casa. Passou o requeijão tranquilamente no pão e deu mordidas suaves, sem borrar um centímetro de seu batom nude, mastigando devagar, simulando um equilíbrio que adoraria ter em sua vida.
Ainda estava abalada pelos eventos de ontem e não estava disposta a conversar muito com ninguém. Sabia que o que fez foi grave. Desobedeceu a Deus e agora mal tinha coragem de orar. Fizera uma oração antes de dormir que não durara nem dois minutos. Ao amanhecer, foi do mesmo jeito. Envergonhava-se por seu pecado.
Queria voltar no tempo e desfazer tudo.
Nunca agira de forma tão leviana. Sentiu-se péssima por ser tão ingênua. Por que tudo em São Paulo tinha que ser tão diferente de sua cidade? Devia ficar em estado de alerta o tempo todo? Não parecia certo. Talvez, São Paulo não fosse mesmo um lugar muito agradável de viver. Mas a menina não conseguia parar de pensar que Eric parecia legal.
Então, lembrou-se da conversa que teve com a mãe. Disse que não focaria em garotos, por mais que nem fosse sua intenção ter alguma coisa com Eric. Devia esquecer essa história. O garoto devia ter se entediado e resolveu lhe pregar uma peça. Uma brincadeira de péssimo gosto. O que teria sido se Deus não tivesse enviado Davi para socorrê-la na rua? Por mais que ele não fosse de sua religião, ela acreditava nisso.
Após o delicioso desjejum, Emily ainda organizou a cozinha e só saiu da casa quando se certificou de que tudo estava na mais perfeita ordem. Oh, céus! Como gostaria que ao menos sua vida também estivesse! Vez ou outra se pegava pensando no segredo de sua família e chegava a sentir calafrios. O maldito segredo que fizera seus pais tomarem a decisão de ir para bem longe de seus tios. Planejara como contaria tudo para Victória durante toda a viagem até São Paulo. Tudo para no fim resolver esperar ao perceber que não foi recebida do jeito que esperava.
O ar estava fresco e um vento leve gelado atravessava seu corpo quando saiu de casa. A garota se encolheu um pouco em seu casaco preto fino e apertou os passos. Quanto antes chegasse na escola melhor. O portão já estava aberto e boa parte dos alunos já entraram, porém havia aquela pequena porção do lado de fora, apenas esperando um guarda ameaçar fechar o portão ou algum coordenador furioso sair de dentro da escola para colocar todos para dentro.
Ao lado do portão, Eric a esperava mais uma vez. Empertigou-se ao vê-la. Emily apertou as alças de sua mochila e tentou fingir que não viu o rapaz. Porém, foi impossível quando ele a alcançou e parou na sua frente.
— Bom dia, Emily! — disse, de um jeito animado. — Estava pensando que podíamos remarcar a temakeria pra sábado. Que tal?
Ela estreitou as sobrancelhas.
— Eu não gosto dessas brincadeiras.
— Que brincadeiras?
— Você falando pra gente se encontrar em um lugar que não existe e ainda me fazer correr o risco de ser assaltada. O que aconteceu ontem não foi nada legal.
— Do que você tá falando, Emily? Te mandei mensagem avisando que não deu pra ir. E a temakeria existe, sim!
Ela franziu as sobrancelhas.
— Que mensagem? Não recebi nada.
Ele olhou para o movimento por um segundo e tocou seu braço, levando-a para um lugar mais afastado, no jardim dos fundos. Chegando lá, ambos se sentaram no banco de concreto, atrás das paredes e janelas da biblioteca.
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A Vilã [Editando]
Novela JuvenilVictória tinha tudo o que uma garota sempre quis: uma péssima relação com a mãe, uma péssima reputação na escola, um amor platônico por alguém que nunca olharia para ela, uma melhor amiga que sempre a colocava para baixo e um monte de traumas. Tudo...
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