Brincadeira de criança

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Victória fez uma careta de nojo e desejou ardentemente afastar a mão das glândulas mamárias daquela vaca gorda. A cada puxãozinho que dava para tirar o leite, repensava sua decisão de morar com os avós. Um dos tios já lhe explicara trezentas vezes para não apertar demais e não se distrair durante as tarefas da fazenda, porque isso poderia prejudicar algum animal, mas era inevitável. A menina buscava sempre por algum escape mental, algo que a tirasse do novo inferno no qual se metera. 

— Pode me levar na cidade hoje? — perguntou ao tio Cássio, depois de pegar o balde cheio de leite e ficar de pé.

— Pra quê?

— Preciso visitar umas pessoas. — A menina decidiu que finalmente estava pronta para ver os pais de Isabela. Não sabia o que esperar deles, tinha o coração cheio de medo, mas sentia que lhes devia alguma satisfação, nem que fosse um pedido de desculpas. Não teria paz enquanto não fizesse isso. Além do mais, naquele dia, Cássio já pensava em ir na cidade mesmo, para buscar alguns suprimentos para a fazenda. 

— Tá bão. Me fala o endereço e eu te levo lá. 

Após o café-da-manhã, no qual Victória se esforçou para não vomitar porque ainda estava se acostumando com o leite forte tirado diretamente da vaca, a menina partiu com o tio para a cidade. A caminho de seu destino, viu um salão de beleza e, por impulso, quis que o homem parasse lá. Conseguiu agendar um dia e horário para cortar os cabelos e remover toda a tinta marrom-esverdeada. Concluiu que não valia mais a pena manter o cabelo assim. Não tinha mais uma personagem para manter.

Victória foi deixada na frente de um portão branco desgastado e começou a bater palmas. O coração só faltava sair pela boca e ela tentava pensar em várias formas de se defender, caso os pais de Isabela a atacassem de novo. 

Ela perdeu o fôlego quando uma porta se abriu e um homem alto e de óculos, meio grisalho, apareceu. Reconheceu-o na mesma hora. Ele se aproximou devagar, estreitando as sobrancelhas, como se tentasse puxar na memória de onde a conhecia. 

— Pois não? — disse. 

— Oi, talvez você não lembre de mim, mas… 

— Eu lembro, sim. Tudo bão? — Ele estava muito sério. — Ocê não mudou nada, só o cabelo. 

— Ah… — Ela apertou um pouco a franja com os dedos. — Eu posso entrar? Não quero tomar muito do seu tempo, vai ser rápido. 

— Tá bão. 

Ele abriu o portão e ela entrou, pisando em ovos. Kleber nunca fora um homem muito risonho mesmo, mas a olhava com tanta desconfiança, como se nem entendesse sua visita. 

Ele saiu andando em sua frente e ela começou a ouvir alguns latidos. 

— Paula, adivinha quem tá aqui — disse o homem, já dentro de casa. 

Victória parou na entrada da sala. Não achava que devia entrar de repente na casa deles. Mas sentiu um nó na garganta ao ver que tudo era exatamente igual na infância, exceto pela presença de um quadro enorme na parede, com o sorriso de Isabela estampado nele. 

— Num acredito — disse a mulher, aparecendo na sala. 

Victória a encarou. Concluiu que o tempo lhe dera muitas rugas e cabelos grisalhos antes da hora. Ou talvez, estivesse desse jeito por causa do sofrimento em relação à Isabela. 

— Oi — disse Victória. — Desculpa aparecer assim, sem avisar. É que… eu vim morar aqui agora e… — Seus lábios silenciaram quando a mulher se jogou em seus braços e lhe deu um abraço apertado. 

— Mas… isso é mesmo um milagre! — dizia ela, os olhos ardendo em lágrimas. Tocava os cabelos da menina de uma forma quase alucinada. — Kleber, Deus ouviu minhas preces. 

A Vilã [Editando]Onde histórias criam vida. Descubra agora