Victória se agarrou a um livro de ciências no ônibus, a caminho do restaurante da mãe. Monique fora antes e a menina teve de pegar um transporte público para chegar lá. Porém, toda hora ela precisava reler o mesmo parágrafo do livro. Seus pensamentos iam longe. Ficou repassando o debate com Eric na mente. Não entendia como ele podia ser tão fraco e, ao mesmo tempo, recusava-se a crer que o rapaz a deixou ganhar, de propósito.
E que história foi aquela de ele ser repetente? Não fazia sentido. Eric era o garoto dos HQs e livros de fantasia, falava tão bem quanto um palestrante, raramente usava gírias, era excelente em matemática. Victória sabia que era necessário se esforçar muito para repetir de ano em sua escola. Muitos alunos faltavam o ano inteiro e ainda passavam. Então, o que houve com Eric?
Qual o problema dele? Já que o rapaz andava grudado em Emily, será que lhe contara sobre seus deslizes na escola? E será que a prima sabia que ele gostava de jogar sujo e era um tanto vingativo? Emily não parecia o tipo de garota que se envolvia com um cara assim. Ela era tão flores, doces e marshmallows, tão açucarada que Victória se sentia enjoada.
Quando desceu do ônibus, guardou o livro em sua mochila e caminhou até o restaurante.
— Ou, ou, ou! — Rafael praticamente resmungou quando ela entrou no local. — Por que não olha onde pisa? Acabei de passar pano aí, tá molhado.
Ela encarou o chão úmido por alguns segundos e sorriu para o rapaz.
— Boa tarde pra você também, colega. Parece que vai ter que fazer tudo de novo — disse, andando na direção do banheiro, deixando um rastro dos seus tênis. Ouviu os xingamentos baixinhos de Rafael e deu risada. Em pouco tempo, vestiu o uniforme e saiu do banheiro. Encontrou os ventiladores ligados para que o chão secasse mais rápido.
Rafael limpava o balcão, com uma ruga enorme entre as sobrancelhas. Especialmente naquele dia, parecia mais estressado que o normal. Porém, Victória não comentou nada. Viu alguns colegas e fregueses chegando e logo se encarregou de atender as mesas. Parou de andar próxima à mesa de Nicolau e olhou em volta, perguntando-se se outro funcionário não estava disposto a atendê-lo. Para seu azar, as colegas estavam ocupadas com outras mesas.
— O que vai querer? — perguntou ao senhor, como de costume.
— Olá, jovenzinha. Como está seu humor hoje?
Jovenzinha? Era só o que faltava!
— Como as nuvens das tempestades de verão e as próprias chuvas que caem sem piedade e alagam tudo. Satisfeito?
— Falando nisso, você viu a previsão do tempo hoje? Parece que o sol vai fritar nossas cabeças.
Ela ergueu uma das sobrancelhas.
— Acho que já começou o trabalho, visto que algumas pessoas já não apresentam mais neurônios.
Ele deu risada.
— Muito bom.
— Tá, fala logo o que vai querer.
— Ah, sim. — Nicolau passou os olhos pelo cardápio. — Sabe se esse bifé a rolê é bom?
— Não.
— Deveria, já que é filha da chef.
— Como sabe?
— Conversando com o pessoal daqui. Todos são tão simpáticos e fazem de tudo pra me agradar, exceto você. Talvez, por isso eu goste mais da senhorita, mas não conte a ninguém, viu? — Ele deu uma piscadela.
Ela riu.
— Não pode gostar de mim, eu sou péssima. Se o senhor gosta de mim, significa que tem algum problema mental. — Revirou os olhos. — Isso só pode ser uma piada. Enfim, vai querer o bife à rolê ou não?
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A Vilã [Editando]
Dla nastolatkówVictória tinha tudo o que uma garota sempre quis: uma péssima relação com a mãe, uma péssima reputação na escola, um amor platônico por alguém que nunca olharia para ela, uma melhor amiga que sempre a colocava para baixo e um monte de traumas. Tudo...
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