Não havia nada mais diabético do que o namoro de Eric e Emily. Eles andavam sempre juntos pela escola, de mãos dadas. Ela o levava para a casa de Monique sempre que podia e ambos passavam horas no sofá, vendo filmes e comentando sobre eles, ou pela cozinha, entre conversinhas, risos bobos e alguns beijos.
Victória tentou evitar o garoto de todas as formas possíveis. Na maioria das vezes que ele estava lá, ela ficava no quarto (Eric não subia até lá). Quando não podia evitar, passava por eles na sala bem rápido, pegava algo para comer na cozinha e voltava correndo para as escadas, olhando para baixo, desejando passar despercebida. Em nenhum momento, Emily falava com ela. Talvez, entendesse que a menina não queria ser incomodada.
Numa dessas ocasiões, Victória pegou uma macia no armário e começou a enchê-la de salgadinhos, um pacote de bolacha recheada e uma latinha de refrigerante. Usava um short preto antigo e uma camiseta de manga longa branca e estava descalça (devo mencionar que esse era um hábito da menina). Deu início ao ritual de passar voando pela sala, de cabeça baixa. Porém, não contava que Eric apareceria na porta da cozinha e o corpo dela, convertido em mini furacão, colidiria com o dele.
O garoto segurou em seus braços para ajudá-la a se equilibrar e isto lhe serviu como um gatilho do fatídico dia no Jardim Botânico. Olhou em seus olhos escuros por alguns segundos, mas tudo o que viu foi aquele beijo. Sentiu os pêlos dos braços se arrepiarem e recuou um passo, restabelecendo o equilíbrio. Agarrou firme na bacia que segurava, desviou-se de Eric e foi para o quarto, com o coração disparado.
Nenhum dos dois disse nada.
A partir desse dia, Victória nunca mais ousou ir na cozinha quando o rapaz estava lá.
Em todas as ocasiões que podia, ela evitava o casal. Quase sempre que entrava no refeitório da escola, percebia os dois ali e se perguntava o que aconteceu com a fabulosa amizade entre Davi e Emily ou Mikaela. Será que sua prima deixou-os de lado para ter um namorado? Ela não sabia a resposta, mas pensou que esse comportamento era a cara da garota. Em um dia qualquer, Victória não se aguentou de curiosidade. Ao ver Davi escorado na árvore do jardim dos fundos, sozinho e fumando, na hora do intervalo, resolveu se aproximar. Devia ter imagino que aquele esconderijo não era apenas seu.
— Tem lugar pra mais uma pessoa aí? — perguntou.
Ele soltou a fumaça pela boca.
— Maligna, você por aqui?
Ela quase sorriu. Àquela altura, o rapaz era um dos poucos que ainda a chamava pelo apelido. De algum jeito, sentiu-se grata.
— Que eu saiba, sou uma pessoa livre. Posso andar por onde quiser.
— Até um inspetor pegar você. Mas beleza, senta aí. Não é muito comum as pessoas não fumantes ficarem perto de mim quando tô fumando. O cheiro do baseado incomoda elas.
Ela sentou ao seu lado.
— Não tô incomodada. Só acho estranho você estar sozinho aqui, em pleno intervalo. Não vai grudar na sua amiguinha não? Ou vocês brigaram?
— Não. Tá tudo bem entre mim e a Emily.
— Então, por que você tá aqui?
— Não fico desfilando com a Emily pela escola. A gente andava mais junto por causa do grêmeo, mas os intervalos mesmo eu raramente passei com ela sem ser por esse motivo.
— Por quê?
Ele riu um pouco, o cigarro entre os dentes.
— O que tem a ver um nóia andando com uma crente? Me diz aí. As pessoas ficam comentando, não tô afim de me meter em problemas e nem quero meter Emily em problemas. Era justificável estarmos sempre juntos por causa do grêmeo. Mas agora não dá. Mantemos nossa amizade em sigilo, se é o que quer saber. E mesmo que eu não estivesse na noia, jamais andaria com ela se Eric estivesse junto.
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A Vilã [Editando]
Teen FictionVictória tinha tudo o que uma garota sempre quis: uma péssima relação com a mãe, uma péssima reputação na escola, um amor platônico por alguém que nunca olharia para ela, uma melhor amiga que sempre a colocava para baixo e um monte de traumas. Tudo...
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