Redenção

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Dois meses se passaram e Emily lutou com unhas e dentes para restabelecer sua fé. No começo, foi difícil voltar com as leituras bíblicas. Sentia como se algo a prendesse na cama todo dia e tentasse impedir suas orações. Com o tempo, o cenário foi mudando. Em questão de semanas, a menina já estava fazendo devocional todo dia e orando sempre, mas ainda sentia aquelas rajadas de culpa pelas coisas terríveis que fez em São Paulo. De vez em quando, pegava-se lembrando de Victória e de Davi. Duas almas perdidas que ela poderia ter ganhado, se não tivesse se afastado tanto de Deus. Essa era uma das maiores culpas que a menina carregava. O peso das almas que ela, infelizmente, não ganhou. 

Apesar de tudo, às vezes, orava em pensamento por eles. Torcia tanto para que seus corações encontrassem Deus que se via agitada e ansiosa. A situação era complicada, pois desde que voltara para Santos, não trocou mais nenhuma mensagem com Davi. Não sabia nem o que dizer ao garoto. Quanto à Victória, era um assunto sensível demais em sua vida. Sequer manteve contato com a tia, para evitar saber da prima. 

Os dias foram passando e Emily tentou seguir com a vida. Tornou-se uma frequentadora assídua na biblioteca de sua cidade. Pegava romances para ler toda semana e os devorava em dois dias. Uma vez, o pai a vira lendo na sala e exibiu um sorriso fraco, como se estivesse orgulhoso dela. O gesto foi tão pequeno, mas para Emily foi tudo. 

No entanto, a menina começou a sentir cansaço na visão, por causa do excesso de leitura. Foi ao oftalmologista e acabou tendo que usar óculos. Escolheu uma armação branca, cheia de pedrinhas nas perninhas e em formato de gatinho. 

Com o tempo, a menina também removeu a tinta preta do cabelo e fez um corte bem radical, o que lhe deu um ar autêntico.

Emily retomou sua vida. Voltou para a igreja com força, participava de tudo e acabou prestando vestibular para algumas universidades. Tudo era muito parecido com sua vida antes de ir a São Paulo, exceto pelo fato de que agora ela sabia que não era perfeita. Sabia que cometeria erros e se esforçava para lidar com eles.

A garota até voltou a correr na praia. Numa dessas ocasiões, decidiu parar perto do mar para respirar um pouco. As costas pingavam de suor e ela se jogou na areia, encarando aquela imensidão azul. Era fim de tarde e o evento mais lindo da natureza acabou de começar. O sol alaranjado tocava a linha do horizonte e dava cores bem vivas ao céu.  

Emily agradeceu a Deus mentalmente por tamanho privilégio. Encontrava-se genuinamente feliz por estar recuperando toda a fé que perdeu. 

Seu olhar se perdeu na imensidão do mar. Por isso, a garota se assustou quando alguém sentou ao seu lado abruptamente. Virou a cabeça depressa e pensou ser uma miragem.

— Davi! — exclamou, meio incrédula, meio sorrindo. O garoto parecia ter ganhado peso e seus cabelos estavam um pouco maiores.

— Gostei do cabelo, chata. E esses óculos? Você é oficialmente uma jovem senhora. 

Ela riu, deu-lhe um tapa no ombro e o abraçou. 

— Nossa, que saudade! Você… o que faz aqui?

— Pedi seu endereço pra sua tia. Aí passei na sua casa, conheci sua mãe e ela falou que você saiu pra correr e me disse por onde você ia geralmente. Então, fiz todo o caminho da pista até te ver sentada nessa praia, com cara de paisagem. — Ele encarou o mar. — Caraca, é assim mesmo? Todo esse lance de praia e pôr do sol… é muito louco, fico até com falta de ar.

— Bem-vindo ao meu mundo. — Ela balançou a cabeça. — Ainda não acredito que você tá aqui.

— Quis fazer uma surpresa.

— E conseguiu! Mas quero saber da sua vida, amigo. Você não me mandou mais mensagem. Pensei que tivessse esquecido de mim. 

— É impossível esquecer você, Emily.

— Então, fala. Não me deixa curiosa. O que tem feito? E seu tio? 

Ele assumiu um ar melancólico, ainda olhando para o mar.

— Ele faleceu. Faz quase dois meses. Na real, aconteceu poucos dias depois que você foi embora.

Emily colocou a mão na boca.

— Meus pêsames! Meu Deus, você passou por isso sozinho? Por que não me contou? 

— Na real, a Brenda e a família dela me ajudaram. 

Emily franziu as sobrancelhas.

— A Brenda? Que Brenda? A mesma que…?

— Ela mesmo. 

A garota piscou.

— Peraí, vocês tão juntos?

Ele riu.

— Não, besta. A gente andava muito sozinho na escola, aí resolvemos andar juntos e ficamos amigos. Mas não tô afim dela. A menina é um feto. 

— Só dois anos mais nova, para.

— Já é muito pra mim. Mas enfim, eu acabei frequentando a casa dela, conheci a mãe e a irmã mais nova, tive que suportar o Eric. Na real, ele e Brenda brigaram horrores por minha causa. Eric pensou que ela estava andando comigo só pra provocá-lo e etc. 

— Não entendo toda a birra que ele sempre teve contra você.

— Ah, eu entendo muito bem. Eu quebrei a cara dele no soco, roubei o relógio de estimação dele, abriguei a menina que gostava na minha casa…

— Ah.

Davi a encarou.

— Você ainda pensa nele?

— Um pouco. Acho que vai levar um tempo até eu esquecê-lo. Talvez, meu sentimento por ele seja mais forte do que o que eu tinha com Theo.

— Entendo.

— De qualquer forma, quero que ele seja feliz, que encontre tudo o que procura numa garota, sem precisar escolher entre a razão e a paixão. 

— Aham. Bom, você fez as pazes com Jesus? 

Ela abriu um sorriso fraco.

— Sim, ele tá curando a minha alma. É um processo pelo qual preciso passar. Aos poucos minha vida está voltando ao normal, Davi.

Ele assentiu. Encarava o mar, todo reflexivo. Emily olhou para ele e notou que suas bochechas tinham mais cor e os olhos já não eram tão fundos. Olhos estes, aliás, que agora eram bem expressivos e carregavam um brilho diferente, algo que ela nunca viu antes no rapaz. Percebeu também que ele mascava um chiclete, talvez para controlar o fumo. 

— Que foi, Emily? Tá me encarando demais. 

— Não, é que… você tá diferente. Tô tentando descobrir o que é. 

Ele apertou os lábios num sorriso fraco e meio envergonhado, ficou cutucando a areia com o dedo, olhando para baixo. 

 — Eu aceitei Jesus, Emily.

A declaração fez seu queixo cair. Pensou ter entendido errado.

— Quê? 

Ele sorriu, sem olhar para ela. 

— É sério, pô. 

— Tá — ela disse, a voz não passando de um sussurro, perdendo-se no barulho das ondas do mar.

O garoto a encarou com intensidade, parecendo vivo pela primeira vez.

— Cê quer ouvir a história de como tudo aconteceu? 

Ela apenas assentiu, incapaz de pronunciar qualquer palavra, com um nó na garganta, tentando conter toda a emoção que sentia. E é agora, neste exato momento, que eu preciso voltar no tempo e contar como foi que Davi acabou se convertendo. 

A Vilã [Editando]Onde histórias criam vida. Descubra agora