— Então, minha prima foi grossa com você? — Emily perguntou, enquanto trancava o portão da casa de Monique.
— Mais ou menos. Fiquei pensando naquilo que você disse, sobre ela passar por uma fase difícil. Aí, eu tentei ser legal, sabe?
— Isso é ótimo! Nossa, eu agradeço muito, de verdade. A gente raramente conversa e quando trocamos alguma palavra, ela acaba me tratando mal. — Eles caminharam por um tempo até chegarem em um ponto de ônibus vazio. — Nem acredito que vou andar pela Avenida Paulista hoje. Pelo que vi na internet, tanta coisa acontece lá.
— Nossa, você precisa ir no fim do ano. Quando é natal, eles decoram tudo. Fica muito bonito. Eu gosto de lá por causa do museu, mas também é bom pra andar. Aos domingos, eles fecham a rua só pros artistas ficarem lá e as pessoas passearem.
— Imagino.
Quando o ônibus chegou, eles sentaram nos fundos e Emily ficou olhando as ruas pela janela por um tempo, em vez de interagir. Quis decorar cada lugar com os olhos, mas sabia ser impossível. As ruas eram estreitas, às vezes cheias de buracos e ladeiras. Várias casas se amontoavam umas sobre as outras, até o ônibus chegar numa avenida super movimentada e larga, com pontos de comércio e postos de gasolina ao lado.
— Eu sempre quis vir para São Paulo — confessou, voltando os olhos pro rapaz. — Mas por muito tempo minha mãe não deixou.
— Sério? Por quê?
Emily deu de ombros.
— Briga de família. — Resolveu não entrar em detalhes, embora soubesse exatamente o que aconteceu. — Mas minha mãe ainda ficou super preocupada quando vim pra cá. A gente faz chamada de vídeo quase todo dia e sempre recebo as mesmas perguntas, se estou me alimentando direito, se estou indo à igreja e etc.
— Alguma vez já cometeu algum crime, tipo comer um pedaço de bolo de chocolate? — ele questionou, em tom brincalhão.
— Ai, óbvio, né? Não sou tão saudável assim.
— Nossa, acho que tô decepcionado agora.
Ela riu.
— Continue rindo de mim, garoto sedentário.
— A boa notícia é que temos muitos lugares pra ir na Avenida Paulista. Acho que vou aproveitar pra fazer exercício físico. Ah, você tá conseguindo fazer suas corridas aqui em São Paulo?
Ele lembrava das corridas? Engraçado, não era algo que ela pensou que o rapaz lembraria, pois fora um assunto tão ligeiro.
— Não. Confesso que eu tô meio relaxada desde que cheguei.
— Hum, cuidado, hein? Pode acabar igual aquele cara do filme Taxidermia.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Nunca ouvi falar.
— Graças a Deus.
— Por quê?
— Ah, é um filme muito pesado. Não devia ser recomendado pra ninguém. E na história, um cara fica tão obeso que não consegue levantar do sofá. E adivinha o que acontece? Ele é devorado pelos próprios gatos de estimação.
— Que horror. É esse o tipo de filme que você assiste? Suas preferências parecem tão terríveis quanto as da minha prima. Outro dia cheguei em casa e a vi assistindo uma cena tão sangrenta enquanto comia um prato de macarrão. Não sei como conseguia.
— Algumas pessoas têm estômago de ferro.
— Agora eu sei. Mas não quero estragar meus olhos vendo esse tipo de filme, eu prefiro…
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A Vilã [Editando]
JugendliteraturVictória tinha tudo o que uma garota sempre quis: uma péssima relação com a mãe, uma péssima reputação na escola, um amor platônico por alguém que nunca olharia para ela, uma melhor amiga que sempre a colocava para baixo e um monte de traumas. Tudo...
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