Alguns dias depois de visitar a prima, Victória voltou para Minas Gerais. Aproveitara o tempo no litoral para fazer amizade com Emily e seus amigos. Mas também tivera uma conversa franca com Jonas. Dissera que jamais conseguiria vê-lo como um pai e que nada havia mudado. Este permaneceria como o tio que lhe ensinara a ter amor pelos livros. Ao mesmo tempo, o homem fizera questão de lhe recomendar umas leituras edificantes para jovens que estavam conhecendo a Deus havia pouco tempo.
De certa forma, Victória voltou para Minas Gerais diferente, infinitamente mais leve do que jamais esteve. Seu coração ainda doia por causa de Eric, é claro. Afinal, é necessário muito mais que alguns dias para se curar de uma grande paixão. Mas ela tentava seguir com a vida, focando no que importava, como sua rotina na fazenda, os estudos e seus contos, os quais nunca deixou de escrever. Falando nisso, tais histórias foram modificadas e aperfeiçoadas ao longo do tempo.
Alguns dias antes da colação de grau do ensino médio, Victória voltou para São Paulo (só por causa da ocasião, não para morar). Passou longas horas conversando com a mãe sobre muitas coisas e revelou que até fora escolhida para ser oradora de classe na colação de grau. Ela também avisou a Brenda que estava na cidade e a convidou para sua casa. Disse-lhe que não queria saber nada sobre Eric e a menina respeitou sua decião. Sendo assim, ambas conversavam sobre qualquer assunto, exceto sobre ele.
No dia da colação de grau, Victória e sua família chegaram na escola por volta de seis da tarde. A menina convidou Emily e seus pais para participar da cerimônia e todos estavam muito empolgados. Apesar da relação entre Mônica e Monique não ser das melhores, elas se uniram em prol da ocasião.
Toda a escola estava decorada para o evento. Balões coloridos decoravam as paredes do saguão. Uma fachada cobria a entrada do colégio, com as palavras "Bem-vindos, formandos 2024" grafadas em dourado. Victória sentiu um aperto no peito ao saber que aquele seria seu último dia naquela escola. Vivera tanta coisa ali que nem poderia contar. Construíra uma trajetória inesquecível e precisava fazer da colação de grau um dia memorável.
Victória e sua família logo chegaram ao pátio interno. Monique queria tirar umas fotos a cada cinco minutos, em lugares diferentes da escola. Enquanto isso, Emily se dispersava para conversar com alguns colegas. Ela ainda tinha aquela fama e todo mundo parecia gostar muito da menina.
— Oi — disse Eric, aproximando-se dela também.
Emily se virou e o viu. Seu pobre coração levou um choque. Achou-o ainda mais bonito do que já era, mas agora trajando um terno preto com gravata azul.
— Oi, como vai? — perguntou ela, com um sorriso afetado.
Ele colocou uma das mãos no bolso da calça.
— Bem. Não sabia que você viria hoje.
— Ah, a Vic me convidou.
O rapaz ergueu as sobrancelhas.
— Fico feliz que tenham feito as pazes.
— É, eu também...
— Falando nisso, sei que as coisas não acabaram muito bem entre a gente, mas... eu me arrependi mesmo pelo que fiz com você. Espero que um dia consiga me perdoar e que a gente possa ser amigos.
— Ah, tudo bem. Eu já perdoei. Só... vamos esquecer tudo, tá? Te desejo uma vida incrível. Você é muito inteligente e eu sei que seu futuro será brilhante.
— É, na verdade, eu fiz vestibular e começo a estudar psicologia ano que vem.
Emily sorriu.
— Fico feliz! Parabéns! Eu vou entrar em pedagogia.
Ele estreitou as sobrancelhas.
— Ué, mas você não queria fazer nutrição?
— É, mas... eu descobri que tenho um dom pra ensinar e também amo fazer isso.
— Caramba, isso é muito legal. Na verdade, combina mesmo com você. — Eric olhou em volta. — Então, sabe onde tá a Victória?
— Serve aquela? — Emily apontou para uma parede decorada do outro lado do pátio, onde Monique tirava fotos da filha.
Emily percebeu que Eric ainda olhava para a menina daquele mesmo jeito abobalhado, com um brilho intenso nos olhos.
Momentos depois, o garoto se despediu dela e foi até Victória. A menina se empertigou toda quando o viu se aproximando. Monique estranhou a mudança em sua postura até ver o menino e entender tudo. Então, arrumou uma desculpa qualquer e saiu de cena.
Victória se viu em apuros quando Eric parou na sua frente. O coração perdeu uma batida com o lampejo que vislumbrou em seus olhos escuros. Levou alguns segundos para algum deles falar alguma coisa. Era como se a história conturbada deles passasse no vão entre seus corpos, como um filme que ambos precisavam assistir em silêncio.
Até que, por fim, Eric coçou a nuca e disse:
— É tão estranho te ver de vestido, Vic. Acho que nunca vou me acostumar com isso. — Seu olhar percorria o tecido delicado e cheio de pedrinhas pretas no corpo da menina.
— Fazer o quê, né? Ainda não permitem que as garotas se formem de tênis e calça de boca larga. É uma lástima.
Um riso meio afetado escapou dos lábios dele.
— Então, quais os planos depois da escola?
— Vou ver se consigo contrato com alguma editora de livros. Sei lá, vai que dá certo. — Ela olhou em volta. — Onde tá sua família?
— Brenda e Letícia devem estar por aí. A gente meio que se perdeu.
— E sua mãe?
Os ombros dele encolheram um pouco e toda sua expressão se alterou.
— Ela não vem.
— Por quê? Ela sabe que tem elevador na escola, né? Nunca fui até lá e nem sei se funciona, mas sei que tem.
— É, mas... sabe, as coisas não andam muito bem entre a gente.
Vaca miserável, vai perder a colação de grau do próprio filho, a menina pensou. Mas logo depois, repreendeu-se. Precisava parar de xingar as pessoas por pensamento, ainda mais agora que tinha uma relação um pouco mais estreita com Jesus, algo que antes nunca imaginara ser possível.
— Lamento.
— Relaxa, não vou deixar isso estragar meu grande dia. Em breve vou pra faculdade e as coisas vão melhorar, Vic. Aliás, tô feliz em te ver. Não sabe como tem sido difícil esquecer você. Parece que meu coração congelou no seu rosto.
— Eric...
— Não, tudo bem. Eu sei. A gente não pode ficar junto. É proibido de várias formas possíveis, já até me conformei. Só tô sendo sincero. — Ele apertou os lábios. — Ainda acredito que seu futuro está incrível, Vic. Torço muito pelo seu sucesso.
— Também torço pelo seu.
Ele olhou em volta e sentiu um nó na garganta. Se passasse um pouco mais de tempo com aquela garota, seria capaz de desmoronar e implorar para que Victória lhe desse uma nova chance para ficarem juntos, por mais errado que fosse. Por ela, seria capaz de todo tipo de humilhação.
— Então, acho que já vou. Preciso... circular.
Essa foi a desculpa que Eric deu, porém assim que lhe deu as costas, desceu as escadas e foi para o jardim dos fundos. Sentou-se no banco de concreto e afundou a cabeça nas mãos. Sofreu em silêncio por alguns minutos. Mas quando ficou de pé, determinou-se a esquecer aquela dor e todo sentimento que tinha por Victória. Ainda não via como isso seria possível, até dobrar um dos corredores da escola e perceber que algumas garotas o observavam com um brilho nos olhos.
Então, ele respirou fundo, aproximou-se de uma delas e começou a paquerá-la descaradamente. Não sabia ao certo se isso funcionaria, nunca fora esse tipo de cara. Mas bastou uma cantada para a menina se derreter por ele. Foi assim que Eric percebeu todo o poder que tinha sobre as garotas.
Agora ninguém vai me segurar, pensou, eu serei de quem me quiser.
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A Vilã [Editando]
Teen FictionVictória tinha tudo o que uma garota sempre quis: uma péssima relação com a mãe, uma péssima reputação na escola, um amor platônico por alguém que nunca olharia para ela, uma melhor amiga que sempre a colocava para baixo e um monte de traumas. Tudo...
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