3 |entre taças e segredos.

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Os passos ecoam na madeira da cozinha. Sei que é Billie. Ela surge, com o mesmo ar confiante de sempre, caminhando até a geladeira. Retira uma bandeja de morangos, abre o plástico filme e pega um deles, observando-me enquanto o leva à boca.

— Está preparando algo para comer? — ela pergunta, com a voz despreocupada, mas os olhos atentos.

— Não. Estou terminando de lavar a louça para ajudar Ester com as tarefas. Já que... — deixo a última frase escapar num murmúrio quase inaudível.

Billie franze o cenho, mastigando o morango lentamente, como se saboreasse tanto a fruta quanto a oportunidade de questionar minhas palavras.

— Já que o quê? — insiste, a voz levemente carregada de curiosidade.

— Já que não posso fazer mais nada — confesso, enxugando as mãos.

Ela apoia o cotovelo na ilha da cozinha, os dedos brincando com um morango.

— Não deveria estar fazendo isso. Ester é paga para cuidar da casa. Eu a pago — enfatiza, como se isso resolvesse tudo. — Deixe isso agora e vá procurar algo mais útil para fazer.

Minha paciência vacila. Viro-me para ela, tentando manter a calma.

— Você não entende, Billie. — Respiro fundo antes de continuar. — Eu não tenho nada para fazer. Você me sufoca tanto que lavar louça virou o único passatempo que me resta.

Billie sorri de canto, aquele sorriso calculado que me deixa em alerta.

— Bom, se está sem opções... — Ela limpa as mãos no guardanapo, lança o morango na bandeja e dispara, como quem solta uma bomba: — Que tal começar escolhendo o seu vestido de noiva?

Sinto o chão sumir. Viro-me bruscamente, o olhar incrédulo.

— Vestido de noiva? — minha voz sai alta, carregada de incredulidade. — Você só pode estar brincando, Billie. Eu não vou casar! — Cruzo os braços, o corpo inteiro tenso. — E você sabe muito bem que não pode me obrigar a isso.

Ela dá de ombros, como se minhas palavras fossem irrelevantes.

— Não posso? — responde, a voz perigosamente calma. — Morana, você sabe que posso fazer coisas muito piores. Mil atrocidades, se for preciso.

O tom dela é frio, controlado, como se falasse sobre algo trivial. Isso só aumenta minha raiva.

— Billie, isso é insano! — grito, deixando a dor transparecer em minha voz. — Como pode querer casar com alguém que não te ama? Por quê? Há tantas mulheres... Por que eu?

Ela dá um passo à frente, o olhar intenso como se perfurasse a minha alma.

— Porque, de todas as mulheres, eu quero você. — Ela para, deixando a frase pairar no ar como uma sentença. — E você vai me ter.

— Eu não sou uma posse! — bato a mão com força na ilha, minha voz tremendo de raiva. — Você pode me prender, mas nunca terá meu amor!

Billie inspira fundo, virando-se para a pia. Vejo seus ombros tensos, as mãos segurando a borda com tanta força que as veias saltam.

— Eu não entendo — continuo, a voz embargada pelas lágrimas. — Como alguém como você, uma mulher com tudo, tão poderosa, pode ser tão cruel?

Ela permanece em silêncio por alguns segundos antes de desligar a torneira. Quando se vira para mim, seus olhos estão mais sombrios do que nunca.

— Você acha que me importa se você me ama ou não? — Sua voz é baixa, quase um sussurro, mas cheia de ameaça. — Eu vou te transformar em uma mulher à altura de mim. Não importa o que custe.

𝐑𝐚𝐢𝐧𝐲 𝐍𝐢𝐠𝐡𝐭 | 𝙶!𝙿 Onde histórias criam vida. Descubra agora