A competição

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Aurora Adams


Os instantes de ensaio antes de entrarmos no rinque para o aquecimento final que antecede a primeira etapa da competição parecem voar.

Em um segundo eu estou repassando a coreografia do Rhythm Dance com Aaron e no segundo seguinte me vejo no vestiário feminino, amarrando bem meus patins nos pés e ajeitando meu figurino no corpo.

— Sabe, eu espero que a gente tenha sorte com os jurados hoje – ouço uma patinadora dizer suficientemente alto para outra, que ajeita seu cabelo em frente ao espelho sem parecer prestar muito atenção – As coisas não andam nada justas ultimamente.

— Do que você está falando?

— Olhe só quem está competindo com nós – Elisa Murdok comenta, me lançando um olhar maléfico de pura inveja – Tem gente aqui que deve estar dormindo com o pessoal da Federação, se quer saber minha opinião, para mal ter mudado de dupla e já estar com uma vaga quase garantida nas Olimpíadas.

A outra patinadora olha rápido na minha direção e volta-se para Elisa, parecendo enjoada.

— Que bobagem.

Eu me levanto, caminhando para a saída do vestiário feminino o mais rápido que posso com os dois patins já enfiados em meus pés.

— É tão difícil assim aceitar que algumas pessoas conquistam seus objetivos por pura dedicação e talento? – ouço Madison Baker, que treina com meu antigo técnico, Ivan Petrov, me defender – Comentário desnecessário, Murdok.

A porta do vestiário bate atrás de mim enquanto eu sigo em frente, sem rumo, vagando pelos corredores da arena onde vamos competir.

A patinação artística já foi um esporte muito competitivo antigamente, com uma relação quase nada saudável entre os atletas – principalmente do sexo feminino – chegando até a extremos, estilo Tonya Harding.

Com o tempo, nós fomos conseguindo construir um ambiente mais amigável na patinação. Geralmente, nossas próprias amigas também são patinadoras. O que acontece é que uma ou outra ainda acha que tudo é uma competição, como é o caso de Elisa Murdok.

Na frente dos outros, ela age como uma princesa. Nos bastidores, a história é outra. Para minha infelicidade, Elisa também patina pelo Canadá – e ela sempre esteve perto dos pódios até as duplas Adams/Fisher e Parker/Parker começarem a competir na categoria Senior e ocuparem os lugares de destaque.

— Aurora? – ouço Aaron me chamar, em algum lugar à minha direita.

Levanto a cabeça e percebo que vim parar às margens do rinque, onde alguns competidores já estão esperando para aquecer no gelo.

— Eu preciso de dois segundos sozinha, Aaron – resmungo, passando reto por ele e encontrando com um funcionário da imprensa com uma câmera à minha frente.

Sorrio contra a minha vontade para ele, plenamente ciente de que eu estou sendo filmada e dou meia volta, dando novamente de cara com meu parceiro.

— O que aconteceu? – ele pergunta em voz baixa, num tom preocupado.

— Nada. Só me abrace para que o pessoal não ache que nós estamos brigando.

Aaron franze a testa, confuso.

— Mas nós não estamos – diz ele, me envolvendo entre seus braços e descansando sua cabeça sobre a minha.

— Eu sei, mas é que provavelmente eu estava com uma cara de bunda quando entrei aqui.

Aurora & AaronOnde histórias criam vida. Descubra agora