O acerto de contas

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Aaron Parker


Tentar ignorar Aurora e vê-la indo embora, provavelmente magoada comigo, foi uma das coisas mais dolorosas que eu já fiz. Eu me arrependi no mesmo instante, é óbvio.

Mas ignorá-la é, infelizmente, a melhor atitude que eu poderia tomar. Por mim. E por ela.

Desde o meu aniversário, quando fomos à casa do lago, minha cabeça está em um turbilhão de pensamentos desorganizados. A impressão que eu tenho é que Aurora conseguiu tirar meu mundo do eixo e fez ele girar apenas em torno dela, como se ela fosse o sol – o que é irônico pra cacete, considerando seu nome.

De todas as vezes que eu me envolvi com alguém, nunca senti nada minimamente similar ao que Aurora consegue fazer comigo. Ela está me enlouquecendo aos poucos.

Todos os dias que eu a encontro são bons dias. Mesmo que tudo esteja uma merda, dando errado ou que a responsabilidade sobre a nossa cabeça na patinação esteja esmagadora, apenas o fato de olhar para ela já alivia tudo.

Fazer Aurora sorrir, conversar sobre literalmente qualquer assunto, rir com ela, lembrar de como ela esteve à vontade com a minha família, vê-la fazendo waffles com a vovó, segurá-la nos meus braços ou simplesmente reparar em como ela fica ainda mais fofa quando está irritada são alguns dos pensamentos que andam atormentando minha mente.

Além do fato de eu querer muito beijá-la. É preciso toda a minha força de vontade para me controlar, porque eu não posso.

É por causa disso que eu tento, mesmo me odiando por isso, ignorá-la quando estamos sozinhos.

Não seria certo eu despejar sobre ela a verdade, dizer que eu não consigo parar de pensar nela. Aurora está aqui para ser minha parceira de trabalho, não de vida. Além de que, um dia ela me disse no bar que eu saberia se ela estivesse interessada, algo que até agora ela nunca sinalizou.

Se tem alguém que misturou demais as coisas e seguiu um rumo que não deveria, esse alguém sou eu.

O que também não justifica o fato de eu ter sido um otário com ela. Ela não merece ser tratada de qualquer jeito só porque eu não sei lidar com meus próprios sentimentos.

No nosso primeiro encontro, durante minha primeira competição como Junior, eu fiz exatamente isso – a tratei com desrespeito por ser alguém que não conseguia lidar com si mesmo. Era de se esperar que eu não fosse cometer o mesmo erro, com a mesma pessoa.

Saio do meu apartamento e desço até o andar de Aurora, apertando três vezes a campainha.

— Ah, é você – diz ela sem nenhuma emoção assim que abre a porta e dá de cara comigo – Achei que quisesse ficar sozinho.

Touché.

— Será que a gente pode conversar? – eu peço.

— Agora você está afim?

— Por favor, Aurora.

Tenho quase certeza de que ela gostaria de revirar os olhos, mas acaba se controlando e dá um passo para trás, abrindo mais a porta.

— Entre.

Eu a acompanho até a sala. Hermes está dormindo no braço do sofá, completamente alheio à minha presença.

— O que você queria tanto conversar, Parker? – ela me pergunta, sentando ao lado de Hermes e fazendo carinho em sua cabeça.

Eu continuo em pé no meio da sala. Não pretendo demorar, já que só vim me desculpar por ser um idiota.

Aurora & AaronOnde histórias criam vida. Descubra agora