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Após um tempo dividindo aquele lugar com aqueles que eram meus parceiros de todo tipo de perrengue na pista, já éramos conhecidos ali.

O Ari nos apresentou a velha guarda do lugar, todos com rolo de crime nas costas e que, assim como nós, tinham se refugiado no personagem de segurança de puteiro.

Já éramos mais que antes, convivendo no mesmo ambiente que bicheiros, ex policiais, ex bandidos.

Eu não me misturava com ninguém, mas era respeitado por todos.

Nosso jogo era pesado, era claro que, uma hora íriamos estourar; essa era nossa idéia, nossa expectativa!

Com respeito dos mais antigos,formei um roteiro foda, conseguimos alguns contatos e alugamos armas para realizar o maior esquema de todos.

Um ex segurança de carro forte; ele tinha passado por uma demissão injusta, em massa para "corte de custos" - vai procurar seus direitos na justiça , disseram! - Justiça pra quem, se as grandes empresas tem os melhores advogados?

A empresa alegou falência, porém sabiam bem que era jogada apenas pra não pagar funcionários.

Resultado: Várias famílias sem ter como pagar o aluguel, taxas e compras do mês.

Era a brecha que precisávamos.

Nos reunimos no bar da Beth: eu , Tesoura, Motoboy e mais 3 caras ex- vigilantes, agindo na força do ódio.

Eles passaram o passo a passo, detalhadamente.

O papo era não matar ninguém, a sigla era " o dinheiro é do patrão, não bota a cara, nada aqui é com vocês"

O Ari articulou o contato de quem alugaria as armas.

Uma coisa que quase ninguém sabe: Sempre tem traficante que patrocina o 157.

E foi aí que conheci o Batalha; Chefe do tráfico no Santa Marta.

Cheio de recomendações, brotei no morro de cabelo pintado de castanho e camisa polo, pronto pra ter um desenrole com ele, meu primeiro contato com chefe de tráfico.

Muita lábia depois, plano minunciosamente contado, valor acordado, ele disponibilizou 4 longas e 4 pistolas.

Tudo no conceito do Ari e do Manel. Nunca mais esquecerei deles dois.

A grana era pesada, era usar e pagar a comissão.

Qualquer erro, era vala pra mim, e pra geral.

Nesse dia, vi o quanto eles acreditavam na minha responsa.

Não vou negar, minha cara de playboy, sempre me fortaleceu pra andar na pista.

O Batalha tinha um case (caixa especial de guardar instrumentos musicais) de instrumento enorme e colocou lá dentro as armas. O morro do Galo fica em Copacabana,na Zona sul e logo acima do pé, existe um instituto de música pra menores carentes.

Desci com aquela case pesadona , peguei um táxi; nem havia carro de polícia, mas mesmo se tivesse, tenho certeza que passaria batido.

Estava tudo armado.

A Vila Mimosa fica numa área próxima ao Centro da cidade e a poucos quilômetros dali, existem vários prédios comerciais, postos de gasolina , todos cercados de banco 24 horas.

Se você pretende ficar multimilionário, você vai atrás de um carro forte que alimenta bancos; mas aí parceiro, vão te caçar tipo piolho.

A gente queria começar com algo, digamos, mais humilde!

E assim fizemos...

O maluco, ex funcionário, que passou a visão, explicou o trajeto do primeiro abastecimento. E, claro, nós estávamos lá.

Essa operação foi a primeira que usamos uma mulher.

A partir daí, eu vi como faz diferença a utilização do sexo feminino no esquema.

Não entro em detalhes, porque não sou professor...O que importa aqui, é que tivemos sucesso.

Pagamos as armas, devolvemos os 2 carros que pegamos na pista, e cada um levou sua parte, de boa.

Meu nome cresceu, o respeito aumentou, e a parceria com os malucos ficou mais sólida ainda.

Eu era , oficialmente, o mentor da tropa. Eu desenhava cada movimento, e dava certo.

Eu identificava os possíveis erros, e eles atendiam a tudo que eu falava.

Tudo ia muito bem!

Sò existe um problema : Você vicia!

E tem uma hora que dá errado, irmão...

E quando dá errado, te fode muito!

Eu já estava num nível de contexto com os caras que era só ligar, as armas chegavam onde eu estava.

Nessa época, eu já podia me mudar da Vila Mimosa, mas como lá era o nosso QG, ficamos.

Tem sempre a parada também de achar que o que tem é pouco - afinal, o valor do ganho não tinha sido fenomenal; haviam muitas pessoas para pagar - decidi que mais um, pelo menos mais um, seria necessário para dar uma levantada.

Mais um

mais outro...

Eu nunca fui de ostentar e minha ordem sempre foi essa...sigilo e zero ostentação.

Ostentação atrai mais curioso do que mosca na merda.

Mas eles queriam se mostrar pra mulher, queriam gastar como nunca.

Foi nessa que fodeu tudo!

O próximo roubo, teve um confronto muito violento, um parceiro do Ari foi baleado e eu matei um policial a paisana que fazia uma escolta por fora.

Conseguimos pegar uma parte do dinheiro, mas já era.

Estava em todos os jornais que havia um bonde estourando carro forte de abastecimento.

Como não havia foto , decidi ir pro galo, onde o Batalha me recebeu de bom grado, deixando eu marcar um dez lá.

Lá conheci a Bianca em um bar, toda fodida porque tinha sido sofrido um abuso pelo chefe.

Acabei me comovendo com aquela história , tive pena dela, ficamos juntos.

Até que o Batalha me deu prazo pra sair fora.

Ele não queria os vermes sufocando e eu entendi, mesmo tendo sido muito eficiente pra ele enquanto estava lá, organizei muito bagulho pra ele, a comunidade era uma bagunça, qualquer vapor se achava no direito de dar tiro pro alto...a matemática era um lixo...eu fiz ele tornar aquela empresa de garagem numa firma organizada, e ele reconheceu isso.

Meu estilo de cobrança sem dó pra quem vacilava foi importante pra ele, que era um chefe fanfarrão...Com a polícia na cola dos assaltantes de carro forte, eu precisava de um novo lugar.

Mas a nossa parceria nunca morreu.

Ainda marquei um tempo no quartinho que a Bianca alugava, não tinha pra onde ir e nem sabia o que fazer.

Até que um belo dia, percebi que ela tava envolvida demais e que o meu tempo tava correndo...a polícia ia chegar em mim , eu já tava dando hora extra.

Odeio despedida, não tenho saco pra sentimentalismo, então apenas meti o pé, sem avisar. Ganhei a pista!

Um ano depois de bater muita cabeça por aí, decidi que tinha chegado a hora.

Eu ia dar início a uma nova trajetória, que não saía da minha cabeça desde o dia em que aquela janela emperrada chamou a nossa atenção no quartinho fétido na Mimosa!

Contrariando meu orgulho de macho, de moleque que tinha vivido abandonado sem pai, fui atrás do improvável.

Eu ia começar do zero.

E então, subi o morro do Vidigal.

O NOVO DONOHistórias para pegar e não largar. Descubra agora