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20 de Dezembro de 2010

14:13

O aquecedor da sala de detenção e meu casaco não parecem ser suficientes para o clima frio de inverno.

Enquanto todos os moradores da minha rua arrumam seus preparativos para a competição de Natal; eu estou preso, encurralado em uma sala que só consiste Luke, uma garota de cabelo poodle e Sr. Joseph.

- Precisamos sair daqui. – Sussurro por cima do ombro de Luke. – O menino Jesus está a nossa espera.

- E como você pretende fazer isso?

- Está frio! – Grito.

Sr. Joseph abaixa seu livro de autoajuda para emagrecimento e pergunta:

- E o que você quer que eu faça?

- Chame o zelador para ajeitar o aquecedor porque é claro que ele não está funcionando bem. – Sr. Joseph não tem um coração muito gentil, mas ele também é um covarde. – E o colégio deve preservar o bem estar do aluno... Sempre! – Completo.

Sr. Joseph sai da sala e agora a coisa toda depende da garota de cabelo poodle que só está aqui porque tirou 9,28 em biologia. Ela teve um surto e começou a xingar o professor de várias palavras horríveis.

- Se você manter isso em silêncio, eu prometo que sexta à noite o Ashton lhe chama para sair.
Ela suspira e me encara sem expressão:

- O que devo usar?

- Algo bem curto e justo.

Em vez de tentar sair graciosamente pela porta principal da escola, saio pelos fundos e me vejo obrigado a pular o muro. O que não é uma tarefa tão complicada graças aos alunos drogados que costumam deixar uma escada de madeira para sua fuga em estado de LSD.

Luke vai primeiro e em menos de dois segundos ele já está gritando do lado de fora da escola.

- Vamos logo Michael! Aposto como a casa do Sr. Rubens já deve está quase toda ok.

Checo os cadarços dos meus tênis e então subo o muro tão depressa que me sinto como o homem aranha. Mas, quando olho para o chão meu estômago revira e de alguma forma Luke percebe isso.

- Você está com medo? – Pergunta.

- Um pouco, talvez.

- Você não tem coragem de pular um muro?

- Tenho, mas eu guardo para não gastar. – respondo.

- Venha logo, seu idiota! – Ele grita.

- Tudo bem, abra os braços que você vai me segurar.

- Eu não acho que isso seja uma boa ideia. – No "boa" eu já havia pulado.

Eu caio exatamente por cima dos braços de Luke, mas por alguma razão de física ou sobrenaturalismo é como se meu corpo tivesse atravessado o seu, fazendo com que eu me chocasse com o chão e esmagasse de um jeito totalmente doloroso meu braço esquerdo.

20 de Dezembro de 2010

18:52

Estou em uma cama alta, branca e nada confortável, tanto quanto as dos hospitais costumam ser.

Acordava e dormia.

Até que desperto de fato. Sento na cama. Viro a cabeça devagar observando o quarto e é então que vejo ao lado da minha cama, sentado em uma cadeira acolchoada, Luke. Quando o olho, ele sorri agradavelmente.

Ajeito-me entre os lençóis com cheiro de remédio, encaro meu braço engessado e me encaro. Estou vestido com meu pijama azul de malha. Arregalo os olhos e então grito:

- Quem me viu pelado?!

- Calma, foi apenas sua mãe. – Luke me diz.

- Ah

- Como se sente? - pergunta.

- Bem...

Acredito que me deram algum tipo de remédio que deixa a pessoa meio grog porque não consigo raciocinar nada por muito tempo. Tudo parece voar pela minha mente e quanto mais eu tento agarrar as coisas que voam, mais elas criam velocidade para fugir de mim.

- Por que eu estou aqui?! Não foi apenas uma fratura no meu braço? Quer dizer, eu já deveria estar em casa e não dopado em uma cama de hospital, certo?

Luke não me responde e seu olhar tranquilo me da dor nos nervos! O observo detalhadamente. Cabelos bem penteados, olhos azuis, boca fina e um sorriso atrapalhado.

- Eu estou no céu? – Antes que Luke fale algo, eu continuo. – Digo, é que você ta ai parado na minha frente e parece um Deus grego. Você faz com que eu irritantemente me sinta totalmente gay e acho que estou começando a acreditar que eu de fato seja gay ou sei lá, eu talvez, se isso existir, seja gay apenas por você.

Em toda minha vida, acho que nunca falei tanto a palavra "gay" ou me abri de maneira tão direta para alguém como fiz agora. Luke se levanta e caminha até mim. Ele estica sua mão em direção ao meu rosto e me toca:

- Está sentindo? – Pergunta. O que eu gostaria de dizer que "sim".

Gostaria de responder "Sim, eu estou sentindo junto com o a ereção do meu pau", mas em vez disso:

- Não. Por que eu não consigo lhe sentir? Que remédio eles me deram?

Luke me encara de maneira penetrante e eu consigo ver a íris de seus olhos perfurarem minha alma. Ele pousa sua mão em meu pescoço e pergunta:

- E agora?

- Eu não estou conseguindo sentir, Luke. – respondo.

A única coisa que sinto é um medo me reprimindo e as lágrimas fazendo cócegas em meu rosto. Cócegas não deveriam ser algo divertido? Essas são dolorosas.

- Se esforce um pouco mais. – Ele me pede e antes que possa pensar em qualquer coisa, Luke me beija. Eu mantenho meus olhos abertos o encarando para ter certeza de que ele está aqui. E ele está, mas porque eu não consigo simplesmente senti-lo?

IMAGINARY [muke]Onde histórias criam vida. Descubra agora