Retsu Kaioh em uma noite calma com sua esposa.
A chuva começou tímida, como quem pede licença para entrar. Primeiro, um tamborilar suave contra o telhado, quase como uma melodia distante. Depois, o estrondo de trovões abafados, como um murmúrio dos deuses, acariciando a noite com sua presença inconfundível.
Retsu Kaioh fechou o livro lentamente, como se tivesse acabado de concluir uma oração silenciosa. Seus dedos descansaram sobre a capa, um gesto de quem ainda buscava absorver as palavras lidas, mas seus olhos logo se voltaram para ela.
Ela estava ali, deitada sobre o futon, envolta em uma manta macia, com um livro aberto no colo e os olhos meio fechados, lutando contra o cansaço. O cabelo, solto e com fios rebeldes, caía suavemente sobre os ombros, e a luz suave da luminária envolvia seu rosto de uma forma quase etérea. Parecia que ela, de alguma forma, fazia o próprio ambiente brilhar.
— Está chovendo — ele falou baixinho, como se esse simples constatar de fato trouxesse algo novo ao cenário, algo que merecia ser compartilhado.
Ela sorriu sem abrir os olhos, um sorriso que ele podia sentir mais do que ver.
— Eu sei. Tá bonito, né? A chuva sempre me faz sentir que o tempo desacelera.
Retsu assentiu, mas não podia mais desviar os olhos dela. Cada movimento dela, por mais simples que fosse, o envolvia de um jeito tão profundo que ele mal podia acreditar na tranquilidade que sentia. Caminhou até a janela, abriu-a suavemente para que o ar fresco e o cheiro da terra molhada entrassem. Era como se a própria chuva, que lavava o mundo lá fora, também tivesse o poder de purificar seus pensamentos e alma.
— Gosto desse som. Ele traz uma paz que me parece ancestral.
Ela se mexeu um pouco, inclinando a cabeça para ele, ainda com os olhos cerrados, mas agora com um sorriso nos lábios.
— Vem deitar comigo. A chuva pode continuar lavando o mundo, mas eu… prefiro ficar aqui com você, em silêncio.
Retsu tirou a parte de cima do traje com a mesma calma meticulosa com que treinava, dobrando-a cuidadosamente. Ele não estava apressado. Ele não queria nada mais além daquele momento. Deitou-se ao lado dela com uma leveza rara, como se temesse quebrar a serenidade que os envolvia. E, ao se acomodar, a puxou para mais perto, sentindo o calor dela abraçando seu corpo de uma forma que nenhuma técnica de luta jamais poderia compará-lo.
Ela o envolveu com os braços, os dedos deslizando pelo seu braço, em um toque suave, quase como se ele fosse uma extensão dela mesma.
— Sabia que eu ficava imaginando como seriam noites assim com você? — ela disse, a voz morna e sonolenta, com o rosto aninhado contra o peito dele.
— E como imaginava? — Retsu perguntou, a curiosidade tomando conta dele, como se a simples ideia de ela ter imaginado algo sobre eles dois fosse uma revelação importante.
Ela suspirou, um som suave e cheio de ternura.
— Achava que você seria todo rígido, imbatível, com um coração que só sabia lutar. Achei que as noites seriam frias, solitárias, com você distante demais para me tocar. Mas errei. — ela riu suavemente, como se fosse uma confissão doce. — Você é tudo isso, mas ao mesmo tempo, você tem um jeito de me abraçar, de me fazer sentir segura, sem palavras, sem pressa. E, no fundo, é exatamente isso que eu sempre quis.
Retsu soltou uma risada baixa, mas cheia de significado. Seu peito estava aquecido, um calor estranho, mas acolhedor, que só ela era capaz de trazer. Ele sabia, sem dúvida alguma, que seu coração, por mais endurecido que fosse pela vida que levara, nunca encontraria paz como naquele instante.
— E você... — Retsu disse, a voz baixa, como se cada palavra fosse um juramento. — Você é o único lugar onde eu posso descansar sem precisar estar em guarda. Eu passei a vida inteira buscando um propósito, uma missão... Mas, agora, você é a minha missão, o meu lugar de repouso. Nunca pensei que encontraria um refúgio fora de um templo, mas você... você se tornou meu templo, minha casa.
Ela se encolheu um pouco mais, afundando o rosto no peito dele e apertando os braços ao redor dele, como se tivesse medo de que ele desaparecesse se soltasse algum pouco de força.
— A chuva vai durar a noite inteira — ela disse baixinho.
— Que dure... — ele sussurrou, e a sensação de suas palavras ecoando na escuridão foi o suficiente para dar a ele uma paz indescritível. — Eu também. Eu também durarei, sempre, aqui com você.
Ficaram assim, imóveis, os corações batendo como se estivessem em sintonia, não mais com o mundo lá fora, mas com o que haviam construído juntos ali dentro. O tempo parecia desacelerar ainda mais. Lá fora, a chuva continuava a cair, pesada e constante, mas dentro deles, o mundo estava quieto. Silencioso. E, acima de tudo, seguro.
Ela adormeceu aos poucos, com a respiração suavizando, e, por mais que a noite fosse longa, Retsu sabia que ele também estava vivendo o tipo de sonho que só se podia ter quando se estava completamente presente com alguém.
Ele ficou ali, observando-a dormir, tocando levemente o cabelo dela, afastando uma mecha de seu rosto. Seus olhos brilharam com uma suavidade rara, algo que ele não sabia que possuía até conhecê-la.
— Você me fez querer permanecer — ele sussurrou, mais para si mesmo, mas com a intenção de que ela escutasse no fundo do coração. — Não apenas existir, mas viver. Não só lutar, mas aprender a viver com você. Aqui. Com você.
Ela não respondeu, mas ele soubera que, de algum jeito, ela ouviu. As palavras estavam gravadas no silêncio que preenchia a sala, na suavidade com que ela repousava contra ele.
E ele fechou os olhos também, não para dormir, mas para descansar. Para encontrar um lugar em sua alma que ele nunca soubera que existia até aquela noite.
A chuva continuava lá fora.
Mas ali dentro...
Era só paz.
Era só amor.
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Baki Imagines
FanfictionImagines e alguns headcanons sobre os personagens de baki. ° não recomendado para menores de idade. Respostando: 30/09
