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[Nome]

A ligação caiu, e eu fiquei ali, parada no meio da sala. O celular ainda na minha mão, a tela escurecendo aos poucos, como se quisesse me arrancar da realidade. Mas era tarde demais. A voz de Hanayama ainda ecoava na minha mente. "Volte para Tóquio, agora." Não soava apenas como uma ordem. Parecia uma sentença. Fria. Inegociável.

Do lado de fora da janela, o céu começava a escurecer, tingido por tons alaranjados e violetas típicos do entardecer brasileiro. As janelas estavam abertas, e a brisa quente trazia o cheiro de terra úmida, misturado ao som distante de vozes na rua. Mas nada daquilo me alcançava de verdade. Era como se eu estivesse presa dentro de uma bolha de tensão.

Apertei o celular com força, os dedos trêmulos e suados. Meu coração batia tão alto que parecia querer rasgar o peito. Eu não queria voltar. Não agora. Não quando, finalmente, a vida aqui começava a fazer sentido. O pequeno apartamento de dois quartos, com suas paredes pintadas de branco e móveis simples, era o mais perto de paz que eu já tinha conhecido. Ainda cheirava a novo e liberdade.

Mas mesmo assim... ele me encontrou.

Caminhei devagar até a varanda, tentando puxar o ar com calma. A vista dali dava para uma rua de paralelepípedos, com crianças brincando e vizinhos conversando nas calçadas. Havia vida ali. Uma vida que eu queria para meu filho. Uma vida longe da Yakuza.

A lembrança de Hanayama, de sua presença esmagadora, de seu olhar pesado e voz grave, me apertava o estômago. Eu sabia do que ele era capaz. Sabia que ele não fazia ameaças vazias. Sabia que, se quisesse, ele atravessaria o mundo só para me arrancar daqui com as próprias mãos.

Ouvi a porta do quarto se abrir devagar atrás de mim. Me virei e vi ele — meu namorado — caminhando sonolento pela sala, com os cabelos bagunçados e uma expressão confusa.

— Está tudo bem? — ele perguntou, preocupado, notando o meu olhar perdido.

Engoli em seco. Minhas mãos tremiam ainda mais agora.

— Não — minha voz saiu baixa, fraca. — Hanayama ligou.

Ele franziu a testa, parando perto de mim.

— Hanayama?

Assenti, olhando para o chão como se procurasse forças ali.

— O chefe da Yakuza. Ele quer que eu volte para Tóquio.

Houve um silêncio tenso entre nós. A sala parecia menor de repente, como se as paredes tivessem se aproximado, sufocando o ar.

— Você vai? — ele perguntou, com cautela.

Balancei a cabeça lentamente. — Não posso. Não agora. Não com o meu filho.

Dizer “meu filho” em voz alta tornou tudo ainda mais real. Mais pesado. O nó na minha garganta cresceu, sufocante.

— Depois de tudo o que passei para fugir daquela vida, eu não posso simplesmente voltar. Eu não vou deixar que o filho dele cresça sob aquela sombra.

Ele se aproximou e pegou minha mão, com cuidado.

— Eu estou com você. Não importa o que aconteça.

Fechei os olhos por um momento. Aquele gesto simples me deu um breve alívio. Mas não era o suficiente. Não era só sobre apoio. Era sobre o que estava por vir. Sobre o tipo de homem que nos esperava do outro lado do oceano.

— Isso não é só sobre nós — sussurrei. — É sobre ele. Sobre o que ele representa.

E eu sabia que a calmaria não duraria muito. A ligação de hoje era só o começo. Porque Hanayama... ele não aceitava não como resposta.

Narrador

O telefone ainda estava em sua mão, mas a chamada já havia terminado fazia minutos. A tela preta refletia o rosto sério de Kaoru Hanayama, imóvel, os olhos fixos como se ainda pudesse ver [nome] do outro lado da linha.

A sala onde ele estava era ampla, silenciosa. Um contraste gritante com a tempestade que girava dentro dele. As paredes eram adornadas com pinturas tradicionais japonesas — heranças de sua mãe — e o aroma sutil de incenso ainda pairava no ar. Um arranjo meticuloso de chá repousava sobre a mesa baixa à sua frente, intocado.

Mas ele não via nada disso.

Estava sentado no centro daquele ambiente de serenidade forçada, como uma estátua viva. A luz do fim de tarde atravessava as janelas de papel e desenhava sombras em seu rosto marcado. Seus ombros largos e o terno branco que vestia contrastavam com sua expressão sombria, realçando sua presença imponente.

[Nome] havia fugido. Para o outro lado do mundo. Grávida.

A verdade era que ele nunca a esquecera, nunca deixou de saber onde ela estava — mesmo que tivesse respeitado o silêncio por um tempo. Mas aquele tempo tinha acabado.

Para Hanayama, sentimentos não se expressavam em palavras fáceis. Ele não era um homem de longos discursos ou gestos dramáticos. Era um homem de decisões. E quando decidia, o mundo ao redor precisava se adaptar, não o contrário.

O silêncio foi quebrado apenas pelo som do telefone sendo discado novamente. Ele levou o aparelho ao ouvido com lentidão, e quando a voz de Kisaki surgiu do outro lado da linha, já aflita, ele foi direto.

— Ela continua no Brasil, senhor. Com outro homem. Achamos que está escondida no interior...

— Eu vou — interrompeu Hanayama, a voz tão grave quanto o silêncio que o precedeu. — Eu mesmo.

Kisaki silenciou por um instante. A frase carregava um peso absoluto. Hanayama não pedia. Hanayama anunciava. E quando ele anunciava, não havia espaço para dúvida ou debate.

— Entendido, chefe.

O telefone foi desligado. Hanayama o colocou devagar sobre a mesa, e então se levantou. O terno branco que usava, impecavelmente alinhado, realçava sua figura imponente. Seus passos eram pesados, firmes. Cada movimento parecia parte de um ritual silencioso.

Ele já sabia o que faria. Já visualizava o caminho. O Brasil não era longe demais. Nenhum lugar era.

Ela era dele. E o filho que ela carregava também.

Não se tratava apenas de posse. Se tratava de honra, de legado. De proteger o que considerava seu. Ainda que, para isso, precisasse atravessar continentes e enfrentar o próprio passado.

Kaoru Hanayama não aceitava ser deixado para trás. Nunca aceitou.

E agora, ele estava indo buscá-la.

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K— Você tinha razão Olly, eu não sei finalizar capítulos sem um suspense.

Baki ImaginesOnde histórias criam vida. Descubra agora