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O silêncio no apartamento 302 era diferente do silêncio do estúdio de Yoongi. No estúdio, o silêncio era uma tela em branco, cheia de potencial, mas também de pressão. Ali, era um silêncio de exaustão, quebrado apenas pela respiração suave de Mariana e pelo zumbido distante da cidade.
Yoongi se recostou na poltrona, sentindo o peso do dia, da semana, da vida. Ele era Min Yoongi, o rapper, o produtor, o ídolo que movia multidões e vendia milhões de álbuns. Sua vida era uma sucessão vertiginosa de voos, shows, reuniões e noites sem dormir, todas dedicadas à criação de algo belo e significativo. Ele havia trocado a paz pela paixão, a privacidade pela fama.
E, no entanto, ali estava ele, sentado no escuro, observando uma fã que não o reconhecia, mas que o havia elogiado por sua sabedoria e honestidade. A ironia era um veneno doce. Ele havia passado anos construindo uma persona pública, uma armadura de genialidade e frieza, e bastou uma noite, um bar escuro e uma garota bêbada, para que ele fosse reduzido a apenas "Min", o cara que não gostava de idiotas.
Ele era um homem de contrastes. Sua música era crua e honesta, mas sua vida era uma performance cuidadosamente coreografada. Ele ansiava por autenticidade, mas vivia em um mundo de ilusões. Aquele apartamento, com seu cheiro de café e livros, era um vislumbre de uma vida que ele havia sacrificado.
Ele olhou para o pôster na parede. O Suga da foto era vibrante, cheio de energia, os olhos maquiados e o cabelo colorido. Era uma imagem de poder e sucesso. O Yoongi sentado na poltrona era apenas um homem cansado, com a barba por fazer e a alma pesada.
Ele se perguntou sobre Mariana. Ela havia vindo de tão longe, cheia de esperança, apenas para ter seu coração quebrado por um homem que não a merecia. A dor dela era palpável, e Yoongi a entendia. A dor da desilusão, do investimento emocional que não deu retorno. Era a mesma dor que ele canalizava em suas letras, a mesma que o fazia trabalhar até o amanhecer.
Ele se levantou silenciosamente e caminhou até a janela. Seul, lá embaixo, era um mar de luzes, uma metrópole que nunca dormia. Ele se sentia desconectado de tudo aquilo. Ele era uma estrela no céu daquela cidade, mas estava preso em uma órbita solitária.
Ele voltou para a sala e pegou o livro didático que estava na mesa de centro. Era um livro de Economia Internacional, em coreano. Mariana era inteligente. Ela era corajosa. Ela estava ali para estudar, para crescer, e não para ser um brinquedo exótico para um babaca qualquer. Caminhou até a estante de livros. Eram livros de estudo, todos em coreano, com anotações em português nas margens. Ela estava se esforçando. Ela estava lutando para construir uma vida ali. A coragem dela era inegável.
Ele se sentou novamente, folheando o livro sem realmente ler. O que ele estava fazendo ali? Ele deveria estar em casa, dormindo. Mas havia algo na fragilidade de Mariana que o prendia. Era a chance de ser um ser humano normal, de fazer uma boa ação sem o peso da fama. Era um alívio.