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Eu sempre soube que o amor com Yoongi seria diferente. Não era o tipo de romance avassalador e barulhento que se vê nos filmes, mas sim uma melodia suave e constante, construída em silêncios confortáveis, olhares cúmplices e um apoio inabalável. Nossa rotina, para muitos, poderia parecer monótona, mas para nós, era a sinfonia perfeita que embalava nossos dias. E eu era a sortuda que tinha o privilégio de viver essa canção, cada nota e cada pausa ao lado dele.
Minhas manhãs geralmente começavam com o cheiro de café fresco e a visão de Yoongi já imerso em alguma partitura ou batida, mesmo antes do sol se decidir a iluminar Seul por completo. Ele é um gênio capaz de transformar sentimentos em acordes e palavras em poesia. Eu, por outro lado, encontrava minha paixão em ajudar pequenas almas a florescer como psicóloga em um orfanato. Mundos aparentemente distintos, o vibrante e por vezes caótico universo da música e o delicado e esperançoso ambiente de um lar para crianças, mas que se entrelaçavam de maneiras que só nós compreendíamos, formando algo único e resistente.
Era quase um ritual sagrado para nós. Depois do meu café e de organizar minhas anotações para o dia, eu o acompanhava até a Hybe. Não todos os dias, claro, pois nossas agendas eram por vezes implacáveis, mas sempre que minha rotina permitia e ele pedia, com aquele jeito meio tímido, meio manhoso, que só eu conhecia e que me derretia por completo. O caminho até lá era sempre um momento nosso, uma bolha de intimidade no meio da agitação da cidade. Mãos dadas, conversas sobre o que sonhamos na noite anterior, planos para o jantar, ou simplesmente o silêncio preenchido pela presença um do outro, uma comunicação sem palavras que valia mais que mil declarações. Eu adorava vê-lo em seu elemento. O estúdio, para mim, era um santuário, um templo da criatividade. As paredes acolchoavam o som, os equipamentos piscavam em um ritmo hipnotizante, e o ar era denso com a energia e a paixão que emanavam dele.
Eu me sentava em um dos sofás macios, estrategicamente posicionado para que eu pudesse observá-lo sem atrapalhar, com um livro ou meu tablet, enquanto ele se perdia em suas composições. Observá-lo era um prazer particular, quase uma forma de meditação. A forma como seus dedos longos e ágeis dançavam sobre o teclado do piano ou do computador, a concentração profunda em seu rosto, a maneira como ele murmurava letras ou melodias para si mesmo, testando cada sílaba, cada nota. Era ali que eu via o Yoongi mais puro, o artista despido de qualquer persona pública. E, de vez em quando, ele se virava para mim, um sorriso pequeno e cansado nos lábios, os olhos brilhando com uma mistura de exaustão e satisfação, e eu sabia que era o meu sinal para me aproximar. Eu o abraçava por trás, beijava seu pescoço, sentindo o calor de sua pele, e ele relaxava contra mim, encostando a cabeça na minha.
― O que você acha, Gabi? ― ele perguntava, me fazendo ouvir um trecho recém-criado, a voz carregada de uma expectativa infantil.
E mesmo que eu não entendesse a complexidade técnica por trás dos arranjos e da produção, eu sentia a emoção, a alma em sua música, a história que ele estava tentando contar.