Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
☆☆☆
O cheiro de maresia e o burburinho constante foram as primeiras coisas que me acolheram em Busan. Eu tenho vinte e seis, uma mala abarrotada de sonhos e um visto de estudante que parecia mais um bilhete de loteria premiado. Sair do Brasil e começar uma vida na Coreia do Sul era a realização de um desejo desde a adolescência, um passo ousado que me colocava no epicentro de uma cultura que eu amava. A Universidade Nacional de Busan era o meu destino acadêmico, mas a sobrevivência era a minha disciplina mais urgente.
Os primeiros meses foram uma mistura entre alegria e tristeza. A euforia de estar aqui colidia diariamente com a realidade financeira. O custo de vida e a necessidade de manter as mensalidades em dia transformaram meu pequeno fundo de reserva em uma miragem que se esvaía a cada aluguel pago. Eu precisava de um trabalho, e precisava dele para ontem.
A busca por emprego foi um sofrimento. Meu coreano, embora funcional para as aulas e o dia a dia, não era fluente o suficiente para a maioria dos empregos que exigiam interação constante com o público. Além disso, as restrições do meu visto limitavam o número de horas que eu podia trabalhar, o que afastava muitos empregadores. Eu distribuí currículos em lojas de conveniência, escolas particulares e restaurantes, recebendo em troca apenas olhares negativos ou de pena. A cada "não", o peso da minha decisão de vir para cá aumentava, ameaçando esmagar a garota sonhadora que havia desembarcado no Aeroporto Internacional de Gimhae.
Eu estava prestes a desistir, a considerar seriamente a ideia de voltar para casa, quando o destino, ou talvez apenas a sorte, me guiou até o ZMillennial.
Era uma cafeteria charmosa, aninhada em uma rua lateral tranquila, não muito longe da universidade. Havia um aroma inebriante de café torrado e pão fresco que me puxou para dentro como um ímã. Eu não estava ali para entregar um currículo; eu estava ali para gastar meus últimos wons em um americano e tentar recuperar um pouco da minha sanidade.
Enquanto eu folheava um livro didático, o dono, um senhor de rosto bondoso e sorriso fácil, notou minha expressão de cansaço. Ele se aproximou da minha mesa, não com a formalidade coreana que eu já esperava, mas com uma curiosidade paternal.
― Você é estudante, não é? ― perguntou ele em um coreano suave, com um sotaque de Busan.
Eu assenti, surpresa.
― Sim, senhor. Ayla.
― Ayla. ― ele repetiu, saboreando o nome. ― Você parece preocupada. Está tudo bem?
Aquele simples ato de gentileza quebrou a barreira que eu vinha construindo. Em vez de apenas dizer "sim", eu me peguei desabafando sobre a busca frustrada por emprego. Eu falei sobre meu visto, minhas horas limitadas e minha determinação em ficar.
O Senhor Park, como eu viria a chamá-lo, ouviu tudo com atenção, balançando a cabeça de vez em quando. Quando terminei, ele não me ofereceu palavras vazias de conforto. Em vez disso, ele me fez uma pergunta que mudaria o curso da minha vida.