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Dez anos se passaram desde que eu e Jimin decidimos construir nossa vida fora dos holofotes. Ele deixou os palcos e a fama para estar presente em cada passo da nossa família. E, mesmo sem cantar mais, ainda é visto com muito respeito por todos aqui na Coreia. Claro, ele havia deixado seu legado.
Eu, por minha vez, mantive minha carreira: sou vice-presidente de uma grande empresa de engenharia em Seul, um trabalho que exige dedicação, planejamento e muitas horas de atenção. Mas, ao longo desses anos, sempre fui eu quem preencheu os espaços quando Jimin ainda tinha compromissos ou ensaios mais demorados. Por isso, o vínculo com nossa filha, Park Yuna, se tornou ainda mais forte. Ela é a minha companheira diária, minha alegria maior.
A nossa Yuna é a mistura mais bonita que poderia existir: carrega os cabelos ondulados e o nariz arredondadinho que herdou de mim, além da pele um pouco mais bronzeada, diferente da maioria das crianças daqui. Mas basta olhar para seus olhos amendoados, sua boca delicada e aquelas bochechas rechonchudas que parecem sempre prontas para sorrir, para ver que é a cara do pai. É como se tivessem unido duas culturas em um único ser. Metade Brasil, metade Coreia, toda nossa.
Naquela tarde, eu estava em uma reunião importante, analisando projetos e ouvindo propostas, quando o celular vibrou sobre a mesa. O número era da escola de Yuna, e o tom da voz do outro lado da linha foi imediato. Era uma ligação urgente. Meu coração deu um salto no peito.
― Sr. Chang, eu preciso resolver uma coisa. ― falei, apenas.
Sem pensar duas vezes, pedi licença, peguei minha bolsa e saí às pressas, deixando todos surpresos com a minha pressa.
Quando cheguei à sala da direção, a visão me cortou a alma. Yuna estava encolhida em um canto do sofá, os joelhos juntos ao peito, os braços envolvendo a cabeça. Seus cabelos ondulados estavam completamente molhados e grudados na pele, e o uniforme estava coberto por uma substância pegajosa e fedorenta, como cola ou tinta misturada com água. Ela não levantou o rosto, não disse nada. Apenas permanecia ali, imóvel.
― O que aconteceu aqui? ― perguntei, com a voz já firme, sentindo a raiva começar a crescer dentro de mim.
Meus olhos foram para a diretora.
― Srta. Park, primeiramente, preciso pedir para que fique calma...
A diretora começou a explicar com palavras vagas, dizendo que "houve uma brincadeira de mau gosto" entre algumas alunas. Mas eu conhecia a expressão da minha filha, e conhecia também os relatos que já tinha ouvido antes. Não era brincadeira. Era perseguição. E aquelanão havia sido a primeira vez.
― Mau gosto? ― levantei o tom, me aproximando. ― Isso não é brincadeira, é agressão! Não é a primeira vez que isso acontece com ela, e vocês continuam tratando como algo sem importância? Onde estão as medidas de proteção? Eu e meu marido gastamos milhões nessa instituição para isso? Que tipo de educadores vocês são?!