"A cama que ainda era deles"

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Sob a Montanha 

Dias atuais...

     A primeira coisa que Morgana percebeu foi o silêncio errado.

     Não havia o riso baixo da filha ecoando pelos corredores da masmorra, nem a presença quente que sempre a acompanhava, mesmo quando Archie tentava parecer distante. Havia apenas... quietude.

     E Feyre.

     Curada.

     Dormia profundamente na cela, o corpo limpo, a perna fechada como se nunca tivesse sido dilacerada. Viva. Respirando. Inteira.

     A realização veio como um peso no peito.

     Hyacinthus não estava ali.

     Era apenas a humana.

     Morgana fechou os olhos por um instante longo demais. Depois virou-se, o manto ondulando como sombra líquida, e começou a subir os degraus da prisão. Cada passo ecoava contra a pedra antiga, cada batida lembrando-lhe onde estavam. O que eram. O que haviam perdido.

     E o que ainda precisavam salvar.

     O quarto dela e de Rhys ficava no nível superior, longe das masmorras, mas nunca longe o suficiente do fedor de poder podre de Amarantha. Quando empurrou a porta, a magia antiga respondeu imediatamente, reconhecendo-a.

     Rhysand ergueu a cabeça no mesmo instante.

     Ele estava de costas, vestindo a túnica negra com movimentos automáticos, cansados. Mas Morgana sentiu o arrepio percorrer-lhe a espinha quando a presença dele a reconheceu antes mesmo do som.

     Os acordos vibraram.

     Antigos. Profundos. Vivos.

     — O que você fez? — ele perguntou, sem se virar.

     A voz era calma demais. Isso sempre a assustava mais.

     — Um ato desesperado — respondeu Morgana, fechando a porta atrás de si. — Para que possamos sair daqui.

     Rhys finalmente se virou. Os olhos violetas analisaram-na inteira, demorando-se no pulso, onde a nova tatuagem ainda parecia recém-nascida. Magia antiga. Solene. Um pacto que ele não havia autorizado... mas compreendia.

     — Feyre? — ele murmurou.

     — Viva. Curada. — Morgana cruzou o quarto. — E agora parte do jogo.

     Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo.

     — Amarantha vai sentir.

     — Ela já sente — Morgana respondeu. — Ela sempre sente quando algo foge do controle.

     Rhys riu baixo, sem humor.

     — Sempre odiou isso.

     Ele se aproximou, parando a poucos passos dela. Não a tocou. Não fazia isso havia vinte anos.

     — Você está bem? — perguntou.

     Morgana sustentou o olhar.

     — Estou de pé. Isso é o máximo que posso prometer aqui.

     Antes que ele pudesse responder, a porta se abriu sem cerimônia.

     — Tenho convites — anunciou Archie, entrando com um sorriso torto e dois pergaminhos nas mãos. — E uma noite infernal pela frente.

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