Capítulo 23 - Espinhos

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"Não se preocupe, não vou deixar mais nada de ruim te acontecer"







Meu mundo agora era reduzido a vozes estranhas, choro e gritos. Manter meus olhos abertos não era necessário, me encontrava no breu. Não havia rastro nenhum de luz e eu não fazia ideia de quanto tempo estava ali. 


Meu corpo estava encostado em uma das paredes, meu braços ao redor dos meus joelhos. Tinha alguém que insistia em me chamar mas ele parece ter ido embora assim como os gritos. O único som a me fazer companhia era os pingos de água caindo sobre uma superfície já úmida em algum lugar a direita desse breu. 


Eu sentia sede, minha garganta doía mais que os machucados espalhados pelo meu corpo. Tento mais uma vez encontrar forças para me rastejar até onde a água encontra o chão, só a imaginação de como seria sentir a água molhando meus lábios, língua, descendo pela minha garganta e fazendo a sensação de queimação passar me da forças. 



Percebo o barulho das gotas ficar mais alto, minha boca salivava. Meu cotovelos estavam em ardendo, provavelmente em carne viva por arrastar meu corpo por esse chão áspero. Estava quase lá, faltava pouco para matar a minha sede quando escuto uma voz. Era sempre difícil de compreender o que elas falavam mas conseguia sentir sua intenção. Essa era a voz me que causava arrepios, a qual eu tentava fugir desde que vim parar aqui. Tendo me arrastar mais rápido até a água, talvez depois de bebe-la me dê mais força para fugir. 


Era tarde demais, sua gargalhada estava chegando perto. Ele tinha uma vantagem, ele conseguia andar. A cada passo seu meu corpo ficava mais fraco, eu sentia a dor antes mesmo de ela acontecer. 






" Está tudo bem, confie em mim."





Eu estava perto mas antes que pudesse me mover novamente sinto aquela coisa pontiaguda em minhas costas fazendo meu rosto se chocar contra o chão. Sinto alguns espinhos estrarem na minha carne, minhas costas ardiam. Pelo menos dessa vez eu já estava próxima do chão, o impacto não era tão grande. 


Com o tempo aprendi que gritar era inútil, ninguém parecia escutar e, se escutavam fingiam que não. A única certeza que eu tinha era que Jin também estava aqui, eu escutava sua voz do lado oposto da água mas nunca tive forças para chegar até ele. Será que também estava tão machucado para chegar até mim? Ou será que ele também está...? Não, o Jin não faria isso comigo, faria?



Sua gargalhada da lugar a uma voz macabra, meu nome sempre em seus lábios fazendo meu corpo arrepiar e querer fugir como uma barata foge da luz. Mas assim que tento me levantar seu pé encontra minhas costas afundando os espinhos ainda mais, não consigo segurar o protesto de dor. Sua risada aumentava conforme o nível da minha dor, aquilo tudo era horrível mas eu já estava me acostumando com aquela tortura frequente. 



Isso não tornava mais suportável. Enquanto seu pé me segurava no chão seus braços encaminhavam os espinhos contra meu corpo. Perdi a força que me permitia gritar, meu corpo inteiro estava dormente e me impressiono em não estar em pedaços agora. Mas como eu podia ter certeza que não estava se mal enxergava a mim? Quando pensei já estar a beira da morte ele parou, seu pé deixou minhas costas e, mesmo se eu quisesse fugir agora, seria impossível.



Sinto meu corpo sendo arrastado para algum lugar, ainda não podia enxergar nada. Senti uma superfície macia me acolher, mantive os olhos fechados para poupar o esforço de abri-los e não enxergar nada. A dor foi sumindo do meu corpo aos poucos, existia uma alívio passando por minhas veias, aquilo era bom mas sabia que não duraria muito tempo. 



Eu estava certa. Sem nenhum aviso, como de costume, sinto algo entrar em meu braço, talvez uma agulha. Instantes depois meu corpo arde como chamas correndo por meu sangue. Em seguida perco a sensibilidades das pernas, braços e é quando os escuto. Aquilo era impossível, mas podia escutar meus pais. Foi ai que notei o quão mal estava. 








• • •






Acordei assustada com a claridade que passava por minhas pálpebras, aquilo era novo. Estava em um quarto branco com moveis brancos. Do meu lado esquerdo havia uma escrivaninha, do lado direito um sofá de dois lugares. Olhei para as minhas pernas e ambas enfeixadas até as coxas, dava para ver um pouco de sangue aqui ou ali. Não sei como sai de um lugar completamente escuro para um totalmente branco, mas precisava sair dali mesmo que pareça impossível com a situação das minhas pernas.


Olhei para os lados procurando a minha saída, planejando como fugir quando me deparo com algo muito mais intrigante do que um quarto sem vida: não havia saída. Não havia portas e nem janelas, apenas o silêncio. Era impossível não ter porta já que eu entrei ali de alguma maneira, mas nada fazia sentido. 




Coloco minha perna direita para fora da cama, em seguida coloco a esquerda. Posso sentir meu coração acelerar com a alta probabilidade desse plano dar errado. Respiro fundo e apoio minha mão na escrivaninha ao lado da cama, faço o máximo de força que consigo para conseguir me manter em pé. Uma dor percorre meu corpo, minhas pernas protestam. Consegui. Próximo passo: me mover. Com muito esforço consigo colocar uma das pernas pra frente, mas na segunda tentativa eu me desequilibro e levo comigo o vaso apoiado na escrivaninha. O vaso acaba chegando no chão antes de mim, minhas mãos na tentativa de reduzir a queda se apoiam no chão agora lotado de cacos de vidro deixando cortes longos e fundos em minha pele. 




Tentei desesperadamente voltar para a cama na esperança que ninguém tivesse me escutado cair, mas escuto um barulho ecoar pelo quarto. Eram barulhos de ferro e correntes sendo arrastados pelo chão, o mesmo som que escutava no escuro. Estavam distantes mas eu sabia que não iam demorar muito para me encontrar novamente. Olho novamente para os lados na esperança de ver alguma saída mas tudo, além do vaso que quebrou em minhas mãos, estava do mesmo jeito. Foi quando tive uma ideia tola que não havia salvo ninguém em nenhum dos filmes de terror que assisti na minha vida, mas o que eu tinha a perder?



Me arrastei para baixo da cama evitando fazer qualquer barulho que me entregasse, mesmo que os cacos de vidro se arrastando entre minhas pernas e o chão parecessem me acusar. Ao mesmo tempo em que consigo esconder todo meu corpo embaixo da cama escuto o barulho de uma porta se abrir, eu sabia que esse lugar tinha que ter uma porta. Fecho os olhos, seguro a respiração para evitar o barulho enquanto escuto as correntes encontrarem os cacos de vidro ensanguentados no chão, tentei me encolher o máximo que consegui.




E mais uma vez eu perco. Sinto minha perna sendo puxada de uma só vez, um grito sai pela minha garganta automaticamente. Metade do meu corpo pra fora da cama e a única coisa que consigo enxergar é a sua calça branca rasgada na parte dos joelhos. Mais uma puxada e eu estava visível, ele joga minha perna no chão fazendo meus ossos voltarem a se partir. 



O olhei mas ele estava de costas pra mim, a cabeça abaixada mexendo em algo que não conseguia enxergar. Olhei para o lado oposto e vi que a porta ainda estava aberta, eu precisava tentar. Me arrastei usando apenas meus braços, minhas pernas já não me respondiam e se eu não enxergasse agora poderia duvidar que elas estavam ali. Estava quase ultrapassando a porta quando sinto uma pancada muito forte na minha cabeça, o suficiente para me deixar inconsciente. 







" Durma bem meu amor. "







Danger- JinOnde histórias criam vida. Descubra agora