Sétimo Filho

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Renato era meu melhor amigo, nos conhecíamos desde o pré escolar. Nossa amizade era verdadeira, a gente sempre dizia que seria para toda a eternidade. Andávamos sempre juntos, éramos como carne e unha.

Renato era o sétimo filho homem de Jonas e Maria. Jonas era um famoso marceneiro na cidade, tinha sua própria marcenaria nos fundos de sua casa. Maria era uma dona de casa muito gentil, sempre sorridente. Eram uma família humilde, mas que graças ao esforço de Jonas e Maria, nunca passaram fome.

Renato sempre ajudava seu pai na marcenaria, estava inclusive aprendendo a fazer alguns móveis. Tinha futuro para aquilo. Mas o sonho de Renato era ser advogado. Dizia sempre que não suportava injustiças, e que iria defender os pobres em causas jurídicas.

Era nosso último ano escolar, já planejávamos fazer faculdade e tudo mais, e se possível ambos fazerem na mesma. Não éramos gênios, mas tínhamos boas notas que creio eu que seria possível ingressar numa faculdade federal. Mas de toda forma o colegial iria deixar saudades, foram tantas amizades, brigas e histórias engraçadas que iriamos recordar para toda nossa vida.

Nossa cidade era bem pequena, não tinha quase nenhum tipo de lazer. Única diversão para nós jovens eram os encontros na pracinha nos finais de semana. Bebíamos, contávamos causos, e logicamente tinha as garotas. Não éramos galãs mas as vezes a gente as conquistava, não tínhamos dinheiro mas tínhamos a famosa lábia. Mas ainda era monótono.

Uma das poucas qualidades que tinha que se destacar de Mesquita era a tranquilidade. Raramente se ouvia falar de algum assassinato. Roubos e demais crimes nem se quer existiam, ou seja, podia dormir com a casa toda aberta que nada aconteceria. Havia as discussões normalmente de qualquer sociedade, mas tudo era resolvido da melhor maneira possível. A noite se via velhinhos caminhando tranquilamente pelas ruas, crianças brincando e casaizinhos namorando sossegadamente. Mas essa tranquilidade estaria por acabar.

Em meados de Outubro daquele mesmo ano, vários fazendeiros estavam notando que alguns de seus animais haviam desaparecido. De início pensavam que seria alguma raposa ou jaguatirica. Reforçaram seus currais e galinheiros e evitaram chamar a policia. Para eles chamar autoridades naquele momento seria perda de tempo, pois achavam que seria um simples predador que os visitara.

Os dias iam se passando e eu começara a perceber algumas diferenças em Renato. Ele já não era de falar muito, mas estava falando menos ainda que o habitual. Não ia mais para a pracinha, sempre inventava outro compromisso qualquer, estávamos se vendo praticamente apenas na escola, e nos falando pouco. Eu até que tentava puxar algum assunto, mas percebia que Renato não estava dando a mínima para o que eu falava.

A aparência física de Renato também estava mudando. Estava pálido, tinha olheiras e o mais impressionante, estava surgindo bastantes pelos em seu corpo, que depois ele passou a cobrir com um moletom (mesmo no calor). Talvez seria a idade adulta chegando, mas sei que algo estava errado com Renato, e eu precisava pergunta-lo, era meu melhor amigo.

No intervalo de uma sexta feira eu o chamei para conservar e o levei para um canto. Perguntei se estava tudo bem e ele dissera que sim, mas eu sabia que não estava. Sobre o seu sumiço de nossas atividades e olheiras, ele dissera que estava trabalhando até tarde com seu pai porque havia muitos móveis para terminar na marcenaria, havia muitos pedidos ultimamente. Fiz o sinal de entender e não o fiz mais perguntas. Terminamos nosso lanche e voltamos para a classe. Jurava por deus que Renato estava escondendo algo de mim.

Na cidade continuava o desaparecimento de animais. Um certo agricultor já de idade dissera que havia visto a silhueta do ser predador. Dissera que se parecia com lobo mas que era bípede semelhante a um humano e tinha olhos vermelhos como fogo. Disse ainda que tentou acerta-lo com um tiro mas que a criatura fugira. A história se espalhou pela cidade, mas quase ninguém de início acreditara no velho. Passaram a acreditar no pobre velho apenas quando outras pessoas também avistaram a criatura. E em uma dessas aparições que descobriram que estavam tratando com algo de outro mundo.

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