Amanhã terei minha liberdade. Depois de tanto tempo nesse inferno, finalmente eu saírei desse maldito presídio. Não sei se minha pena foi justa, mas não me arrependo nem um pouco do crime que cometi.
Eu morava em um bairro de classe média de Belo Horizonte junto de minha esposa. Era um bairro até tranquilo para uma das maiores cidades do país. Era um local de vizinhança amigável, onde raramente se ouvia falar de roubos ou qualquer outra espécie de crime.
Sempre fui um cara de bem, não tinha inimizades com nenhum ser que se possa imaginar. Eu não fumava e nem bebia, não era de sair para festas e afins; sendo sempre caseiro. Eu era um sujeito careta como alguns dizem.
Eu trabalhava em um escritório de contabilidade, ganhava um salário não muito alto, mas que dava para ter uma vida até razoavelmente bem ao lado da minha querida esposa Carla. Não passávamos nenhum tipo de necessidades.
Minha esposa era uma mulher adorável, nós nos conhecemos quando eu estava passando por um momento bem dificil em minha vida. Eu estava desempregado e sem nenhum tostão furado no bolso, porém ela viu algo especial em mim. Esteve comigo desde a fase miserável até a fase da fartura.
Eu a admirava muito, raramente brigavamos, e quando fazíamos isso, resolviamos da melhor maneira possível. Creio que nunca vou amar ninguém da mesma forma como a amei. Eu era bastante carinhoso, gostava de beijar, abraçar, entre outros gestos de um homem apaixonado para com sua esposa. Eu era feliz ao lado de Carla.
Infelizmente, tive uma terrível falha com ela, eu era estéril. Nunca pude dar-lhe um filho. Eu sentia que isso a chateava. Ela queria de todas as maneiras em ter um filho; era seu sonho. Então resolvemos que em breve adoraríamos um.
O tempo passou, e estávamos prestes a ir ao orfanato que ficava próximo do centro para realizar a adoção, porém algo aconteceu que marcaria nossas vidas para sempre. Como se fosse um presente divino ou uma maldição de um ser infernal, chegara uma criança batendo na porta de nossa casa em uma tarde.
Era um sábado, e eu estava de folga ouvindo um jogo do Cruzeiro pela grande Radio Itatiaia. Não tinha mais saco para ir aos estádios, portando o radinho era minha companhia. Minha esposa preparava sossegadamente o jantar. O Cruzeiro estava brigando pelo título do campeonato naquele ano, e eu estava muito empolgado com aquilo. Eu era muito fã daquela equipe. No intervalo do jogo, ouço a campainha tocar. Minha desgraça começaria a partir daquele momento.
Recebi a visita de um garoto, tinha mais ou menos uns sete anos de idade. Estava muito mal vestido e bem magro. Ele dissera que estava bastante faminto e me pedira algo para comer. Minha esposa ao escutar a voz do garoto, veio correndo para vê-lo, seus olhos estavam brilhando ao ver aquela pobre criatura. Minha esposa lhe dera um pão com mortadela e um suco, e começou a fazer perguntas para o garoto. Perguntara sobre vários detalhes de sua curta vida. O garotinho dissera que seu nome era Bruno, e que era um órfão. Sua mãe havia morrido em seu parto. Seu pai, um alcoólatra desgraçado o abandonara desde seus 3 anos de idade. Sem parentes próximos para lhe acolher, ele virara um andarilho, mendigando de porta em porta atrás de alimento ou praticando pequenos furtos para sobreviver naquela gigantesca cidade.
Minha esposa, que tinha um bom coração, comovida com a história do garoto me chamara para um canto para conversar sobre aquilo. Dissera que iria adota-lo como nosso filho. Eu infelizmente aceitara, Digo infelizmente, pois no fundo algo me dizia que aquilo iria destruir nossas vidas, mas no fim eu tive que aceitar, não queria magoa-la, e também fui um fracasso em não poder dar-lhe o tão sonhado filho.
O garoto aceitara a proposta de morar conosco. Vi uma alegria no rosto de Carla como nunca havia visto antes. Confesso que também fiquei bastante feliz, mas por ela. Talvez eu que estava enganado, talvez seria apenas um garoto normal, talvez eu até poderia leva-lo para pescar ou ir ao Mineirão nos jogos do Cruzeiro, coisa que havia muito tempo que eu não fazia. Mas com o passar do tempo, algo provaria que eu estava certo desde o início.
O garoto era tímido, não era de falar muito. Mas era compreensível, o pobre diabo havia enfrentado muitas coisas difíceis. Naquele mesmo dia, minha esposa o banhara, e pedira nossa vizinha um par de roupas emprestadas de seu filho caçula para Bruno. As lojas de BH fechavam mais cedo aos sábados, e seria impossível Carla fazer compras para o garoto. A vizinha emprestou, e Carla o vestiu. Bruno, agora bem vestido, nada se parecia com o garoto sujo e fétido de outrora. E assim se passou aquele final de semana, feliz e esperançoso.
Na segunda feira, consegui pegar uma licença do trabalho e fui com minha esposa para tentarmos registrar Bruno como nosso filho. Primeiramente fomos a policia e ao conselho tutelar, teríamos que saber se havia alguma coisa que nos impedia de adotar o garoto de rua. Para a alegria de Carla, não houve burocracia alguma. O garoto poderia morar conosco.
Os dias foram se passando e a timidez de Bruno continuava. Vivia isolado, sempre solitário pelos cantos da casa. Carla e eu compramos vários brinquedos para o garotinho, mas ele não demonstrara nenhum interesse.
Certo tempo depois, Carla o matriculara na escola do bairro. Bruno não sabia ler ou escrever, queríamos lhe dar a melhor educação possível. Carla também o matriculara principalmente no intuito de Bruno fazer amiguinhos, pois era muito solitário.
Poucas semanas se passaram e vieram inúmeras reclamações de professores. Diziam que Bruno era bastante agressivo com seus coleguinhas, e que não demonstrava interesse algum para com as aulas. Carla fora obrigada a chama-lo para conversar, precisava aconselhar Bruno, mas Bruno não a dera atenção, demonstrando mais uma vez sua frieza. O arrependimento de ter aceitado Bruno em minha casa, já começava a bater.
Como dito antes, Bruno não demonstrava afeto com ninguém. Nem conosco seus pais adotivos, e nem com animais. Lembro-me de um dia, em que Bruno assassinou violentamente o gato da vizinha. Bruno decepara a cabeça do pobre animal com uma faca que pegara escondido de nossa cozinha. Carla ficou em choque ao ver toda aquela cena. Não imaginaria que Bruno mataria um pobre animalzinho. Bruno o matara simplesmente porque o felino havia o arranhado levemente seu braço. Confesso que ao saber, eu queria lhe dar umas boas palmadas, mas Carla com seu bom coração não deixara eu praticar tal ato. Mas eu sentia que tínhamos adotado um monstro.
Meses foram passando, e Bruno continuava do mesmo jeito. O ápice de sua crueldade acontecera quando torturara o filho de 4 anos de Roberta, nossa vizinha de longa data. A pobre criancinha quase fora morta no fundo de nosso quintal pelas diabólicas mãos de Bruno. Bruno o chamara para brincar, e o espancou violentamente, por sorte, Carla chegara no momento e salvara a pobre criancinha. O garotinho teve graves hematomas, e algumas costelas quebradas. Aquilo fora o estopim, nem o grandioso coração de Carla, não suportava mais aquilo. Com muita raiva, Carla esbofeteou o rosto de Bruno. Ele não chorou, mas dissera que a mataria. E assim o fizera.
Naquela mesma tarde, quando cheguei do trabalho, vi a cena que até hoje me causa pesadelos. Vi Carla deitada em uma poça de sangue, e Bruno com a faca na mão, também ensangüentada. Meu mundo desabara com aquela cena, a mulher da minha vida estava morta, a mulher que insistira tanto em adotar aquela criatura, fora morta pela mão da mesma. Com muito ódio, nem pensei em ouvir a explicação do desgraçado. Peguei meu revólver 38 e disparei três vezes contra a cabeça do pequeno psicopata. Bruno morrera na mesma hora.
Meu mundo havia desabado, havia perdido a única mulher que amei verdadeiramente em minha vida, e nem o alívio da morte de Bruno, me fez ficar bem. Confesso que tentei me matar, mas infelizmente, não tive coragem.
Diante daquela confusão toda, vários vizinhos ouviram o barulho dos disparos, e chamaram a polícia. Não demorou muito, e chegaram em minha casa, e logo se depararam com o corpo da minha esposa todo ensanguentado, e os malditos, revólver e faca, pertos de mim. Eu tentei explicar que ela havia sido morta por Bruno, e que eu o matei logo em seguida para vingar a morte de Carla. Mas não havia Bruno. Carla fora morta com 5 facadas e 3 tiros.
Fui preso e condenado por 30 anos pelo assassinato de minha esposa. Desses 30, passei a maioria na ala psiquiátrica do presídio. Para a polícia, Bruno nunca existira, para a escola em que o matriculei também não, e tampouco algum vizinho havia visto essa criança em nossa casa, assim como Roberta, que também não tinha filhos. Pra eles Bruno nunca existiu, mas eu sei que ele sempre esteve lá.
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Contos De Terror
TerrorColetânea que reunirá alguns pequenos contos de suspense e terror. Aqui você encontrará histórias sobre vampiros; lobisomens; demônios; fantasmas e etc. Você irá se sentir em uma pequena cidade do interior Brasileiro, daquelas bem carregadas de lend...
