Subconsciência

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"Primeiro, o herói sabia que era uma missão que o levaria à morte. O que só o tornava mais heroico. Segundo, os dragões eram criaturas gigantescas, que poderiam engolir um mamute inteiro sem mastigar. Então, o herói precisaria ser engolido sem ser queimado, e rasgaria as entranhas da criatura por dentro, até perfurar seu coração. Ele morreria, claro, mas o dragão também."

As vozes eram um eco distante em sua mente.

"Essa história me parece tão fascinante quanto na primeira vez que me contou."

Will sentiu seu peito formigando. Era uma sensação horrível.

"Você me disse: camiseta interessante, se me lembro bem. Foi quando eu te contei essa história pela primeira vez."

Um emaranhado caleidoscópio de sons e imagens giravam diante e em volta de Will. Ele não sabia onde ficava o lado de cima, ou o lado de baixo; nem mesmo onde ficavam qualquer lado ao seu redor. Por mais que ele olhasse, não via a si mesmo. Onde estava seu corpo?

"E eu me lembro que enquanto você me falava de um assunto que não tinha nada de interessante, eu só conseguia olhar pros seus olhos sinceros enquanto tagarelava sobre algo que te fascinava. E eu vi nos seus olhos, pela primeira vez, o interior do homem com quem eu queria passar o resto da minha vida."

A voz de Eve o atravessou. Will seguiu o som e viu milhares de coisas que pareciam gotas de um liquido viscoso vibrando. Quis estender a mão, mas não tinha mãos.

"Eu te amo, doutor Caster."

Will queria gritar por Eve. Sua mente gritava o nome dela. Mas não tinha boca por onde sua voz deveria sair.

Eu te amo, doutor Caster. Ouviu de novo enquanto a voz dela ia ficando cada vez mais longe.

Will agonizou enquanto suas lembranças se desfragmentavam em milhões de pequenos pedaços e então evaporavam. O caleidoscópio se quebrava aqui e ali, e aos poucos tudo se tornava em uma escuridão densa, fria e apavorante.

Will não queria ficar ali.

Então sentiu uma presença se aproximando dele. De todos os lados.

"Matéria escura e gravidade, você disse, doutor."

Aquela voz veio com um eco duradouro e agudo, como se o som tomasse a forma de garras arranhando uma lousa.

"Quando a humanidade converge, ela se consome. Não está criando um mundo melhor, está apertando o botão do armagedom."

A forma do lugar onde Will estava de repente explodiu e tudo ficou de um tom branco resplandecente, do tipo que fazia os olhos lacrimejarem, se Will tivesse olhos.

"Não - Will quis dizer -, eu não quero destruir. Eu quero salvar!"

Então Will sentiu aquela presença gelada eriçar sua nuca imaginária fazendo-o sentir calafrios intensos. Will sentia que se pudesse virar para trás, poderia ver quem estava ali com ele.

"Não está criando um mundo melhor, está apertando o botão do armagedom."

Will não pôde responder novamente antes que ouvisse o disparo que veio em seguida.

Sentiu algo abaixo dele repuxa-lo, como se uma mão entrasse dentro de sua barriga e se remexesse lá dentro. Quis gritar de agonia, mas não podia. Estava desesperado. E sozinho.

Depois disso sentiu como se o mundo o puxasse para baixo. Com uma força que era quase impossível resistir. Will pensou ter ouvido um som que parecia uma turbina, vinda de baixo. Julgou que era uma hélice esperando para destroça-lo.

O sono que sentiu foi imenso. Uma vontade enorme de simplesmente se entregar e adormecer. Seria tão fácil.

"Eu te amo, doutor Caster."

Will sentiu, de repente, a presença de Eve ali com ele. Não podia vê-la. Estava tudo escuro novamente. Queria poder ver seu rosto mais uma vez.

"Não desista, amor. Não posso ficar aqui sem você pra me proteger."

Will sentiu aflição por Eve. Queria dizer que podia ouvi-la. Queria abraça-la, beija-la, conforta-la e dizer que tudo ficaria bem. Mas não sabia como. Não tinha como se mexer, nem encontrar uma saída. Nem como romper aquela terrível escuridão.

Seu tempo ali pareceu ter durado uma eternidade. As vezes a escuridão se rompia sozinha e ele pensava ver algo além dela. Mas durava apenas uma fração de segundo. Uma luz forte e incandescente surgia diante de si de repente e ele queria poder ser capaz de não vê-la. Mas não durava muito mais. A escuridão engolia tudo novamente.

"Ela fez de mim mais humano do que eu jamais teria me tornado sozinho - pensou Will -. Com ela eu descobri um senso de propósito que os números nunca me deram. Eu passei a acreditar que o amor não é meramente uma resposta neural a estímulos externos com um propósito evolucionário. O amor é o ápice da condição humana. Não é algo que nasce dentro da gente. É mais do que isso. É palpável, é substancial, é físico e ao mesmo tempo transcende a física, como um portal para uma condição de existência que está acima de tudo, que eu não posso explicar, mas posso sentir. O amor transcende. E eu sei que aonde eu estiver, e seja como for, eu vou amá-la."

Will sentiu, de repente, que sua mente se esticava e tomava forma. Sentiu um formigamento que o debilitava completamente. Segundos depois, sentiu que estava novamente em seu corpo. Seus dedos se mexeram, e sua garganta estava horrivelmente seca. Puxou o ar com força, respirando profundamente e então abriu os olhos piscando. Parecia que tinha areia neles. Will quis tossir, mas não conseguiu. Um segundo depois o rosto de Eve se materializou na sua frente.

Transcendence (Fanfiction History)Onde histórias criam vida. Descubra agora