Esbarrão

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Collin me levou até o ponto e me pôs no ônibus.
Sentada, olhando pela janela meu dia passou em flashs. Calebe encharcado de água, eu indo correndo buscá-lo na escola. Collin chorando, desolado.
Quando entrei em casa minha mãe estava com uma expressão de alerta no rosto, e com razão já eram 9 horas da noite e eu não tinha avisado.
"Oi mãe" eu disse de cabeça baixa enquanto passava pela porta.
"Aonde você estava minha filha? Porque não avisou. Eu fiquei preocupada." Ele disse tentando controlar o tom de voz.
" Eu estava na casa do Collin, ele teve problemas eu tive que ajudar."
" Na casa do Collin? Até essa hora? Me explique." Ela disse num tom bem sério, então achei melhor ser honesta e dizer toda a verdade.
Eu contei tudo, desde o sorvete, o dia de ontem, como ele foi atencioso comigo, sobre como ele estava estranho na aula, Calebe me ligando, eu cuidando dele, Collin chegando, Collin desmoronando.
Terminei de contar com lágrimas nos olhos e minha mãe me abraçou.
" Nossa, mas que história. Que triste filha, fico mal por ele. Collin parece ser um bom rapaz. Que difícil, deve ser difícil para ele todos os dias"
"Sim, mãe. Realmente parece, e ele faz tudo sozinho."
"Eu quero conhecê-lo" ela disse tão rápido, que quase não entendi.
"Quero conhecê-lo. Sábado, eu faço um almoço e você o convida e ele pode trazer Calebe, ele parece ser uma graça." Ela disse com um sorrisinho cúmplice.
"Mas mãe, vai ser meio estranho né? Chamar ele aqui, tipo a minha mãe quer te conhecer?" Ele vai achar estranho, e vai ficar jogando piadinhas. Não quero.
"É... Bom, então chame Lara também. Quero conhecer seus novos amigos. Só diga isso. Quero todos aqui no sábado. Agora vou dormir, estou exausta" ela disse já indo para o quarto, conversa encerrada.
Vou ter que convidá-lo. Pelo menos Lara vai estar aqui e Calebe também, não vai ser tão ruim.
Consegui acordar no horário e me arrumar com calma. Já estou com uma plano traçado, vou falar com a Lara primeiro e depois vamos juntas falar com Collin.
Estava andando destruída, quando esbarrei em uma garota. Nunca a vi por aqui, deve ser nova.
Alta, gordinha e com longos cabelos encaracolados. O tipo de garota que chama atenção de todos.
Ela parecia meio assustada e perdida, então falei com ela:
"Oi, foi mal o esbarrão sou meio destraida. Nunca te vi por aqui, é seu primeiro dia?"
" Ah... sim. É meu primeiro dia, eu estou meio perdida. Você pode me ajudar a encontrar a sala 3B?" Sua voz era mansa mas forte. Leve e marcante.
" Ah claro, é minha sala. Vem comigo, estou indo para lá." Eu disse, enquanto a conduzia pelos corredores.
"A que bom, eu estava meio nervosa em entrar no meio do ano. Mas pelo menos já conheço alguém e... falando nisso, qual é o seu nome?"
"Úrsula. É o seu?"
"Maya." Ele disse no mesmo momento que chegamos na frente da sala.
"Então Maya, é uma turma até calma. Só se certifique de sentar no lugar certo..." Eu disse rindo.
"Como assim?!"
"Ah nada, vamos"
Lara estava sentada na cadeira ao lado da minha e abriu um sorriso enorme ao me ver, e quando viu Maya, eu poderia dizer que nunca vi seus olhos brilharem tanto....
"Oii" ela disse quando nos aproximamos.
"Oi, Lara essa é Maya. Maya essa é a Lara." Eu disse gesticulando.
"Prazer" Maya disse estendendo a mão, que logo foi envolta pela mão de Maya.
Um aperto de mãos que durou bastante tempo, um olhar que se sustentou por mais tempo ainda...
"Ah agora sim, a Lara está feliz. Um casal sapato hahaha" Uma voz vinda lá de trás, essa voz. Luciana.
Lara soltou a mão de Maya correndo e ficou vermelha, eu tive pena.
Quando eu ia abrir minha boca para rebater. Maya começou a falar:
"O que você disse garota?!" Num tom alto, firme e desafiador.
"Hahaha, a sapato fala. Tem que compensar, já que a outra é muda né gente." Risadas gerais.
"Qual é o seu problema garota?" Disse maya, se aproximando de Luciana. Ela não parecia ter medo, eu estava impressionada.
"Ah garota você acha isso normal? Porque eu não acho e nem vou agir como se fosse." Luciana só diz merda, que nojo dessa garota.
"Ninguém te perguntou se é normal ou não, e sua opinião não importa se você não faz parte do relacionamento da pessoa. Qualquer forma de amor é valida e certa. Só não é certo uma pessoa mal amada, atacar os outros a troco de nada. Então a menos que peçam sua opinião, finja ter um pouco de educação e pare de se meter na vida dos outros. E vá em busca de amor, porque a falta de amor é o que torna as pessoas amarguradas e venenosas igual a você." Maya disse tudo de uma vez só, sem vacilar. Sem gritar, mas com uma voz firme e intimidadora.
A classe estava toda em silêncio, e a Luciana. Os olhos dela estavam em chamas. Ela estava desarmada, não esperava aquilo, ninguém nunca batia de frente com ela. Pela primeira vez Luciana parecia sem palavras. Uma cena deliciosa de se ver.
"Maya!" Disse Lara com um sorriso no rosto, um sorriso aberto de pura admiração e êxtase.
"O que?" Ela perguntou, como se tivesse acabado de entrar na sala e não como se tivesse acabado de detonar com a Luciana.
A aula passou rápido, Lara sentou próxima a Maya e elas conversaram bastante. Pareciam se dar bem, fico feliz, Maya parece ser uma menina legal.
"Ei, Maya. O que você acha de fazermos um tour pela escola. Assim você aprende a andar sozinha e podemos ir tomar sorvete, esse calor está insuportável." Eu disse me aproximando delas.
"Ah eu acho ótimo. Essa escola parece um labirinto, minha antiga escola era bem menor que essa. E o sorvete, nem precisa perguntar." Ela disse enquanto guardava o material.
Conversamos bastante com a maya e quanto mais falávamos. Mais eu a achava legal. Ela gosta de músicas alternativas e algumas mpb, ela fazia as próprias pulseiras que usava. Disse que gostava de cozinhar e poderia passar horas fazendo contas matemáticas. Porque ela achava divertido. Divertido? Eu dei risada com a ideia de alguém passando a tarde fazendo contas e com um sorriso no rosto.
Estávamos escolhendo nossos sabores quando Lara disse:
" O que foi aquilo? Você esculachando a Luciana, foi de mais" Lara disse com uma admiração na voz, que era palpável.
"Eu estou acostumada. Por ser gay, as pessoas ficam o tempo todo jogando piadinhas. Tem vezes que eu ignoro, porque ficar debatendo o tempo todo cansa. Mas tem certas coisas que não dá para ignorar né." Maya disse, quando ela disse a palavra gay eu e Lara trocamos um olhar.
"O que foi, você não conhecem ninguém gay? Porque a cara que fizeram, foi como se nem soubessem que existisse."Maya disse ofendida.
"Não é isso, é que..." Eu disse, mas acho que Lara deveria contar, é a história dela afinal.
"E que Luciana já fez uma brincadeira de mal gosto comigo e..."
E assim tomamos nosso sorvete, ouvindo sobre a história da Lara. Do que Luciana fez a Lara. Maya ficou indignada e queria ir na secretaria fazer uma denuncia por bullyng. Mas sabendo que não ia dar em nada, deixou pra lá. Preferimos focar em outras coisas, coisas boas.
Maya nos chamou para passar a tarde na casa dela. Foi muito, muito divertido.
Dançamos músicas infantis, fizemos pipoca, queimamos pipoca e Maya fez um bolo maravilhoso. Até levei um pedaço para minha mãe.
Na hora de se despedir, Maya deu um forte abraço em Lara e um beijo estalado na bochecha.
Parecia que já se conheciam a séculos. Aparentemente o episódio do banheiro, fez Lara e Maya entrarem numa frequência própria. Uma sintonia que dava gosto de ver.
Estou feliz por ter conhecido Maya, estou feliz por ser amiga de Lara.
Estou feliz por Maya e Lara terem se conhecido, e por terem essa conexão tão forte tão rápido.
Por um esbarrão, a conheci.
quantas pequenas coisas acontecem nas nossas vidas que nos levam para caminhos diferentes.
É bizarro.
O dia passou tão rápido que esqueci de falar com a Lara sobre o almoço no fim de semana, quem sabe eu também chame a Maya. Tenho que falar com o Collin.
Amanhã, quem sabe...

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