Sozinho

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Olá, bitters. Esse capítulo vai ser todinho do Collin, aproveitem.
Boa leitura 🖤.
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Alguns dias antes...
Agora que finalmente fiz as pazes com a Úrsula, podemos fazer o tal trabalho. Eu não pensei que ela fosse me perdoar tão fácil, eu fui muito grosso com ela. Quando a vi chorando, me senti um monstro. Ia me desculpar no mesmo momento, mas ela virou as costas e saiu correndo. No meio de tudo, aquela pulseira realmente parecia ser muito importante para ela.
Combinamos de fazer o trabalho naquele mesmo dia. Por acaso um professor faltou e tivemos os últimos dois tempos vagos. Então fomos para casa dela.
Estávamos no ônibus, ela sentada na minha frente sozinha e eu no banco de trás. Ela parecia mergulha num livro, mergulhada tão profundamente que nem percebeu quando um grupo de caras mal encarados entrou no ônibus. O maior e com certeza mais mal encarado, estava encarando a Úrsula com malícia. Parecia com pressa para girar a catraca e sentar logo do lado dela. Coisa boa ele não poderia querer fazer.
Pulei pro lado dela, ao mesmo tempo que o cara chegou ao lado do nosso banco. Ele me encarou, como se eu tivesse roubado uma presa que ele estava na caça a muito tempo. Senti nojo. Encarei o chão e fechei as mãos com força, para conter o impulso de levantar e socar aquele babaca.
Respirei fundo e quando fui olhar para lado, Úrsula me encarava com um sorriso estranho e distante. Porque ela estava sorrindo pra mim daquele jeito? Ela é idiota? Tanto faz.
A fachada da casa dela era muito bonita. Parece uma daquelas casas que você vê nas capas revista chique por assinatura. Grande jardim, janelas por toda parte e cores claras e discretas.
"Eu tenho que tirar os sapatos ou?" Tinha algumas pantufas no canto da porta, a casa parecia ser muito bem organizada. Fiquei meio perdido.
" Não, não precisa. Só se você quiser." Ela disse tirando os sapatos, abrindo a janela ligando o ventilador.
" Você é calorenta né?" Nem estava tão quente assim, porque esse desespero o todo em refrescar o lugar.
" Não, sou não. Aqui que está muito quente. Vamos sentar e começar isso logo" Ela disse fazendo uma careta, como se eu tivesse implicado com ela. sentamos na mesa, conseguimos fazer bastante coisa em pouco tempo. Só tinhamos que treinar a apresentação. Úrsula estava com um olhar cansado, e não parecia estar bem.
"Ei, chatinha. Você tá legal? Ta meio pálida, porque não damos uma pausa e você vai lavar esse rosto?" Ela revirou os olhos e foi na direção de uma porta. Deveria ser o banheiro.
Fui a cozinha beber água, e percebi que estava com fome. Já era 12:00 e não aviamos comido nada. Decidi fazer alguma coisa.Na geladeira tinha: cenoura, cebola, batata e uns pedaços de frango. Acho que dá pra fazer um ensopado.
Quando estava quase pronto, Úrsula apareceu vestindo um moletom gigantesco e meias que aparentavam ser bem grossas. Agora ela está com frio? Mas ela não estava sem morrendo de calor? Eu não consigo acompanhar a lógica dessa garota.
"Ei, o que você tá fazendo?" Ela disse enquanto se aproximava e pegava impulso para sentar no balcão, ao meu lado.
"Nosso almoço, de nada." Só estava fazendo, porque tava com fome mesmo.
"Você é de fato, é muito abusado. Collin Blake." Ela disse e no final deu uma tossida forte mas contida. Ela tentou fazer uma cara de brava o que se tornou uma careta. Foi ridículo, tive que rir disso.
" Quando você comer essa maravilha, não vai reclamar eu tenho certeza" Ninguém nunca reclamou da minha comida, e se ela reclamar pego todo o refogado e levo embora comigo.
"Pode ser. Estou com tanta fome que qualquer coisa vai parecer maravilhosa agora." Ela disse num tom de desdém, que garota abusada.
" Agora você está com frio?" Eu disse enquanto deslizava meus olhos da meia para o moletom.
"Mas está frio aqui. Não está?" Ela disse levantando para fechar as janelas.
As janelas que ela abriu agora pouco, alegando estar muito quente. Mas não estava quente. E não está frio agora. Tem alguma coisa de errado com ela.
" Não, não está. Vem cá, garota." Eu disse indo na direção dela.
" Você não manda em mim." Ela disse enquanto virava a cara e apertava o paço. Fui mais rápido, e peguei ela na altura das coxas e a coloquei sentada no balcão. Que garota boba, correndo de mim. Parece uma criança, não tenho paciência para isso.
"Ei, garoto. Você é muito abusado." Ela disse tentando me empurrar, coitada. Acha que é mais forte que eu.
"Para de birra e vê se fica parada. pra eu poder sentir sua temperatura." Passei a mão por dentro do moletom dele, e encostei meus dedos de leve no seu pescoço. Que estava de fato, pelando. Percebi, que ela me encarava enquanto eu fazia isso.
"Você está com febre, merda. Tem algum remédio aqui?"  Eu disse enquanto abria as gavetas.
"Acho que não, eu tô com sono e..."
"Acho melhor você comer, vou ligar pra farmácia e pedir um remédio." Na geladeira tinha o número de uma farmácia, que logo eu comecei a discar.
"Não tô com fome Collin e você não manda em mim, que saco." Mas essa garota é um pé no saco mesmo, consegue me dar mais trabalho que o Calebe, só não largo ela aqui e vou embora, porque se ela morrer de febre, vou ter que fazer esse trabalho todo sozinho e não tenho tempo pra isso.
"Úrsula, você está fraca. Tem que sentar e comer, o remédio vai chegar você vai tomar e depois descansar. Por favor me obedeça." Disse num tom firme. Cansei dessa garota, relutando contra tudo que eu digo.
Então ela se sentou e comeu tudo, o remédio não demorou a chegar. Mandei ela sentar no sofá enquanto eu limpava a cozinha. Ela estava vendo desenho. Desenho? O mesmo que o calebe assiste, de fato uma criança.
Quando voltei, ela estava dormindo encolhida no sofá. Peguei a manta do sofá ao lado e a cobri. Ela já estava com uma aparência melhor, tranquila e descansada. Parecia em paz. Engraçado vê-la assim, ela sempre está agitada e me incomodando.
Me apressei ainda tinha que ir trabalhar, deixei um bilhete bati a porta e fui embora.
...
No dia seguinte, cheguei na escola um pouco atrasado. Dei uma olhada rápida pra Úrsula, e o rosto dela era o significado de "animação" como se uma coisa muito boa fosse acontecer a qualquer momento.
Procurei ela durante o intervalo para falarmos sobre o trabalho, só que ela sumiu. Tanto faz, no próximo tempo eu falo. Mas ela não apareceu no próximo tempo, nem no ultimo. Que estranho ela não parece ser o tipo de pessoa que falta do nada.
Quando estava saindo da escola, encontrei Úrsula encostada no muro. Ela estava com uma cara péssima, como se alguém a tivesse torturado olhando seus pais se matando. Será que ela piorou? Mas ela parecia tão bem disposta mais cedo. Me aproximei e parei na frente dela, que encarava o chão.
" Você sumiu nos últimos dois tempos, onde você estava?"
"Em lugar nenhum." Ele disse encarando os próprios pés. Tá, tem alguma coisa de errado. Ela não é o tipo de garota que fala de cabeça baixa, ela olha no fundo dos nossos olhos e diz o que quer dizer sem nem medir antes. Para ela estar daquele jeito, algo de muito sério aconteceu.
" Olha, a sua pulseira está concertada. Ela fica bem mais bonita assim, desculpa de novo" eu disse tentando conseguir a atenção dela.
"Tantos faz" ela disse enquanto chutava uma pedra e fez cara de tédio. Tanto faz?! A uns dias essa garota estava chorona por essa pulseira.
"Ei" Eu disse enquanto levantava o rosto dela com a ponta dos dedos,, e encarando seus olhos. Pareciam  vazios e sem vida.
"Está tudo bem?" Óbvio que não estava, que pergunta idiota.
"Tô, cadê a Lara?" Ela disse se desvencilhando de mim e olhando em volta
"Ela saiu mais cedo. Acho que a mãe dela adoeceu. Mas eu quero saber de você. Você está pálida, o remédio não fez efeito? Se alimentou? Dormiu bem?" Eu perguntei tudo de uma vez só, e me arrependi em seguida.
"Para de me encher garoto, só me deixa em paz!" Ela gritou e tentou se afastar. Mas eu bloqueia a passagem com meu corpo, a fazendo recuar.
"Não até você me responder. Você está bem?" Então como se algo se partisse dentro dela, lágrimas começaram a rolar para fora. Fiquei meio perdido.
"Ei, garota. Vem aqui." Os ombros dela tremiam então a puxei mais para perto e a abracei forte. Lentamente suas lágrimas  foram  molhando  minha camisa. Ficamos assim por um bom tempo, eu com a mão nas costas dela  e os cabelos dela roçando na ponta do meu nariz. Exalavam um cheiro de melancia. pouco a pouco, sua respiração foi normalizando. Então tomei certa distância. O que as pessoas deveriam estar pensando? Nós dois abraçados na porta da escola, concerteza não pensariam boa coisa. Tanto faz, ninguém tem nada a ver com a minha vida.
Sequei o rosto dela com as minhas mãos, ela já estava ridícula daquele jeito.
"Melhor agora?" Espero que sim, espero que sim. Não sei lidar com essas coisas.
"Um pouco, eu acho" Ela disse se ajeitando.
"Quer falar sobre isso?" Eu perguntei e me arrependi em seguida.
"Agora não, eu não quero pensar sobre isso. Mas vou pra casa e vou pensar nisso o dia todo. E..." ela estava fazendo a cara de choro de novo, melhor eu falar alguma coisa.
"Vem, eu tenho um remédio pra você." Tive uma ideia genial.
Andamos até o final da rua, entramos em um beco e chegamos lá. vimos a velha plaquinha escrito "sorvete".
"Remédio? Collin" Ela disse num tom de ironia.
"Você não sabia? O melhor remédio pra tristeza é sorvete de chocolate, é comprovado cientificamente."Okay, me senti meio ridículo nessa hora.
Enquanto tomávamos sorvete, percebi o olhar meio vago que ela estava então comecei a fazer piadinhas, bem ruins, bem ruins mesmo. Só pra distrair ela um pouco.
Ainda bem que ela tem um humor fácil, porque riu de todas as minhas piadas até ficar sem fôlego.
Assim que chegamos ao ponto, percebi sua expressão súbita de tristeza.
"Eu tenho que ir, já passou da minha hora" eu disse arrumando a mochila nos  ombros.
"Você sempre está correndo, porque?" Ela perguntou intrometida. Ela não cansa de se meter na minha vida não? Essa garota.
"Quer descobrir? Vem passar o dia comigo" eu disse de brincadeira e já virando pra ir embora.
"Tá" O que? Não acredito. Ela realmente quer vir. Ah não.
"Tem certeza?Então temos que ir rápido. Vem,  o idiota" Desista, desista.
Eu comecei a correr e logo, ela estava correndo atrás de mim. Ela não tem nada melhor pra fazer não? Não lembro da última vez que tive uma tarde livre.
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“Collin!” Assim que entramos em casa Calebe veio correndo na minha direção. De cabelo bagunçado e pijama amassado, deve ter acordado agora pouco. Ele realmente não acorda na hora que eu mando.
“Oi, amigão. Tá com fome?” Eu disse bagunçando seus cabelos. Pelo horário ela já deveria estar com fome.
“ Um pouco, vovó me deu uns biscoitos. Ei quem é essa? Ela é bonita.” biscoitos antes do almoço, de novo. Ele parece finalmente perceber a presença da Úrsula. Que parecia meio acuada no canto.
“Oi, eu sou a Úrsula.” Ela disse estendendo a mão para ele.
“Porque seu cabelo é tão pequeno? Ele caiu?” Ele perguntou chegando mais perto do rosto dela, pra ver melhor.
“Porque eu gosto dele assim. É tão fácil. As vezes cabelo grande é complicado né Caleb?” ela parecia realmente acreditar naquilo, já eu não acho difícil não.
“A eu acho um saco quando o Collin passa o pente no meu cabelo. E eu já tive uns amigos, que machucaram minha cabeça. Eles eram menor que minha unha do mindinho!” Ele disse mostrando a mão pra ela. Uma cena bem engraçada de se ver.
“E eles deixaram o Collin doidinho!” Ele disse soltando uma gargalhada, que ela acompanhou. O papo está muito bom, mas, vamos ao que interessa.
“Falando nisso. O senhor já tomou banho?”
“Bom...eu… lavei meu rosto” ele disse correndo pela casa.
“Já pro chuveiro, vou levar sua roupa. Anda, você já está atrasado.” Eu disse enquanto levava Calebe  de cabeça pra baixo para o banheiro.
Botei ele no chuveiro e voltei pra cozinha.
“Tenho que esquentar essa comida em tempo recorde!” eu disse colocando o pote do Calebe no microondas.
“Você que fez?” Úrsula perguntou enquanto chegava mais perto e sentava no balcão.
“Sim, eu faço o almoço todo dia de manhã e deixo nos potes. Quando chego da escola é só esquentar e….” percebi que uma parte da coxa dela estava exposta, por causa do impulso que ela pegou para subir no balcão a barra da saia dela subiu. Hoje ela estava de saia, de saia ela fica tão...
“E?”ela disse enquanto arrumava a saia. Merda, ela percebeu que eu estava olhando.
“ Esquentar e comer.” senti meu rosto queimar, virei para pia, pra que ela não percebesse.
“Você pode dar almoço ao Calebe? Eu tenho que me arrumar para o trabalho. Mais uma vez atrasado e eu vou ser cortado.” seria ótimo se ela me ajudasse, um ótimo adianto de vida.
“Claro, posso sim. Eu sou meio culpado pelo seu atraso e por ter encharcado sua camisa, eu nunca fiz isso. Você deve estar achando que eu sou uma chorona e… e eu não sou...” Ela disse, abaixando a cabeça e encarando os pés. Pensei que ela fosse começar a chorar de novo, mas porque ela chora tanto a final? Não descobri ainda.
Cheguei perto dela e levantei seu rosto  devagar e disse:
“Ei, isso não importa tá bom".
Ela levantou a cabeça e sorriu. Um sorriso cheio de gratidão.
“Obrigada” Ela me abraçou e senti seu corpo relaxar entre meus braços. Nós afastamos devagar, estávamos tão próximos. Eu podia sentir a sua respiração saindo pelos lábios entre abertos.Aqueles lábios carnudos...
Quando a porta abriu abruptamente e num impulso me afastei rápido dela, rápido de mais. Como se tivesse cometido um crime. Quase cometido...
“Eu tô com fomeee” Calebe disse da porta do banheiro.
Nós demos uma risada cúmplice. E ela foi buscar Calebe no banheiro, fui ao quarto pegar minha roupa.
“Então, vamos comer. Fiquei sabendo que a comida do seu irmão é ótima".
No caminho pro banheiro e disse um "obrigado" sem som para Úrsula. Que ela respondeu com um "de  nada" inaudível. Vendo de longe ela parecia feliz por estar realizando uma tarefa.
Entrei no banheiro, e deixei que água esfriasse meu corpo. Estava quente, não sei porque...
“ Tchau Úrsula. Você é bem legal, vai lá em casa pra brincar comigo algum dia.” Ele disse a Úrsula quando já estávamos na frente de sua escola. Ele pareceu ter gostado da Úrsula de fato.
“Claro. Vou sim, é só marcar. Tchau Calebe" ela disse dando um beijo estalado na bochecha dele.
“Vou contar pra todo mundo, que eu ganhei um beijo de uma garota bonita.” Ele disse todo bobo. A esse meu irmão. Uma figura.
“Ta bom. Mas, vai estudar também. Daqui a pouco eu já vou estar aqui. Para te buscar. Eu juro.” eu disse abraçando ele.
“Eu sei. Até mais mano.” ele disse enquanto desaparecia dentro da escola que parecia ser gigante.
“Ele é adorável” Úrsula disse com um sorriso de mãe babona no rosto. Engraçado vê-la desse jeito.
“Eu sei. Ele é.” e tenho muito orgulho dele.
“Vamos, vou te deixar no ponto.”
Chegando no ponto.
“Collin, vai pro seu trabalho. Não quero que se atrase por minha culpa.”
“É acho melhor eu ir mesmo, senão vou me atrasar, não posso me dar esse luxo.”
“Obrigada”ela disse, pela vigésima vez no dia. Já está enchendo meu saco.
“Você não precisa me agradecer o tempo todo sabia?”
“Tá, vou parar. E que você tornou meu dia ótimo, só queria que você soubesse que sou grata por isso. E por ontem também. Muito obrigada.” ela disse com uma sinceridade que era palpável.
“ Por nada, qualquer um faria o que eu fiz. Agora tchau, garota.” eu disse e fui andando rápido para não me atrasar.
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No dia seguinte, o dia na escola foi normal.
Meu dia não começou muito bem, mas vou fazer de tudo para melhora-lo...
Cheguei no trabalho na hora certa, há tempos isso não acontecia. Mesmo assim, Luiz me chamou na sala dele. Ele é tipo o manda chuva do restaurante.
" Chegou no horário pra variar é?" A voz daquele cara me irrita.
" Sim" eu disse seco e louca pra sair daquela sala.
"Que bom, mas não vai sair cedo hoje. Vai ficar até às 20:00. Vamos ter um jantar especial, e preciso de mais pessoal." O que? É claro que eu não posso, eu tenho Calebe.
" Não posso. Tenho que buscar meu irmão na escola." Eu disse tentando conter minha raiva, porque ele sabia disso.
" Ou você fica ou nem precisa voltar amanhã. " Eu preciso desse emprego, as contas não param de chegar. Mas Caleb? O que vou fazer com ele.
" Posso contar com você, Collin?"
" Pode." Eu disse já saindo da sala.
Pensa Colin, pensa.
Já sei vou ligar pra escola e pedir para professora levar ele pra casa da vizinha. Pronto, agora é só pegar meu celular.
Merda! Está descarregado. Eu não sei o que fazer eu...
" Collin, as pessoas estão chegando. Anda logo!"
E assim começou o meu turno mais infernal de trabalho, eu não parava de pensar em Calebe por um minuto. Mas na pior das hipóteses, a professora levou ele pra casa. Ele está bem, eu dizia pra mim mesmo. Tentando me acalmar.
Assim que fui liberado, corri para chegar o mais rápido possível em casa.
Quando entrei, ouvi a tv da sala ligada. Desenho? Calebe? Corri pra lá. E quando cheguei lá me deparei com a seguinte cena:
Úrsula dormindo com uma blusa minha, e Calebe deitado sobre ela enquanto um desenho rolava na televisão.
Fiquei zonzo por alguns segundos sem saber o que fazer, então desliguei a televisão.
Ela abriu os olhos lentamente, levantou devagar e pôs a cabeça de Calebe em uma almofada.
Andamos até a cozinha. Eu disse:
"Oi” e percebi como minha voz estava pesada, arrasta e quase rouca.
“Tudo bem? Eu estava preocupada, o Calebe me ligou, então busquei ele na escola. Ele já jantou, e acabamos dormindo” ela disse se aproximando.
Então ela simplesmente largou tudo o que estava fazendo e veio cuidar do Calebe. Porque ela fez isso? Porque alguém faria isso? Porque alguém faria isso por mim? Logo ela, que mal que conhece, nem somos amigos ...
“Obrigada” eu disse de forma mecânica.
“Ei, tá tudo bem?”
“Eu só… eu…” como alguém que me conhece a semanas faz  isso tudo por mim. E alguém que me viu nascer, não lembra quem eu sou? E as lágrimas jorraram para fora de mim. Como uma represa, eu segurava a muito tempo. Meu peito doía e eu não conseguia respirar. Então ela me abraçou, seu corpo quente e macio contra o meu. Que então pouco tempo eu já conhecia bem, e seu cheiro invadiu minhas narinas.
“Vai ficar tudo bem.” ele disse baixinho na minha orelha. E pela primeira vez eu realmente acredito nisso.
Depois de uns minutos, eu me acalmei. E comecei a contar o porque de não ter chegado a tempo de pegar Calebe, chingando muito meu chefe enquanto contava.
"Ata, entendi. Mas, eu tenho certeza que alguma parte do seu dia você esqueceu de me contar. A parte que fez você desmoronar. O que ouve Collin?" Droga, ela é esperta.
"É...meu avô...ele tem Alzheimer... E hoje pela manhã quando fui levar seu café...ele...ele... simplesmente não me reconheceu." Eu disse gaguejando. Suas mãos se entrelaçaram as minhas, com força. Me encorajando para dizer mais.
"Ele não lembrava quem eu era. Disse que ia chamar a polícia, porque alguém invadiu a casa dele. Eu demorei minutos pra explicar, mostrar fotos e ele finalmente lembrou."
" Ela já está mal a um tempo, mas ultimamente tem piorado. Ontem ele esqueceu de tomar o remédio, hoje esquece de mim." e senti uma lágrima solitária rolar pelo meu rosto. Úrsula secou com delicadeza.
"Ei, você poderia ter me falado. Pode me falar qualquer coisa, você me ajuda em tudo. Deixe que eu retribua."ela pareceu um pouco ofendida por ser deixada de fora disso.
" Eu não quero arrastar ninguém para os meus problemas. E olha você passou o dia todo aqui, cuidando do Calebe. Não devia ter feito isso, você tem sua vida e..." Ela me cortou, me segurando pelos ombros e dizendo.
"Para, eu tô aqui. Eu tô aqui por você, com você. Para de recusar ajuda. Ta tudo bem, Calebe melhorou meu dia." Ela disse com um sorriso que parecia de fato satisfeito. Olhei para o relógio da cozinha, 20:10.
" Úrsula, são oito horas da noite! Você tem que ir pra casa." Eu disse me desesperando.
"A droga, minha mãe já deve estar chegando. Eu tenho que ir." Ela disse correndo para trocar de roupa.
Voltou calçou os sapatos, jogou a mochila nos ombros.
"Estou indo" fui levá-la no ponto.
Quando o ônibus se aproximava, ela disse:
" Vai ficar tudo bem, você não está sozinho" Úrsula disse olhando no fundo dos meus olhos. Me deu um beijo estalado na bochecha e entrou no ônibus.
Chegando em casa, pus Calebe na cama. Tomei um banho e vi a minha blusa que  Úrsula tinha usado num canto do banheiro.
Aproximei do nariz, e logo seu aroma estava impregnado nas minhas narinas.
"Você não está sozinho" ela disse, realmente não estou mais, ela se intrometeu na minha vida. Mas às vezes o que precisamos é isso, que alguém se mete onde não é chamado e que nós olho por mais que meio segundo e aí sim veja quem somos de fato. E eu acho, que Úrsula me vê por completo.

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