Capítulo 5 - Noêmia

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  NOÊMIA

Rio de Janeiro

Na ânsia de descobrir mais sobre Joseph, eu havia cometido um erro terrível: não ocultei meu IP e acabei indo parar no site de uma Agência Internacional de Segurança, órgão que eu nunca soube que existia. Imediatamente, a tela do meu computador escureceu e a navegação foi interrompida, com um alerta. Eu sabia que estava encrencada, mas não esperava que viessem parar na minha porta tão cedo. De qualquer forma, eu pretendia esclarecer tudo bem rápido, para que pudesse concentrar nas buscas por Joe e já havia repetido a história na minha cabeça dezenas de vezes, enquanto preparava um café para os dois agentes, que eu havia acomodado no escritório da Maria. Observei-os à distância. Eram dois jovens negros, muito bonitos e bastante parecidos, provavelmente irmãos. Embora tentassem disfarçar, eu havia percebido um sotaque americano – e depois de anos trabalhando em um hostel, poderia arriscar sem medo esse tipo de conclusão.

O mais velho, na faixa de uns 30 anos, que havia se apresentado como Christian, tinha o corpo mais bem definido, como um soldado muito bem treinado,  além de uma postura altiva e segura. Os olhos duros e firmes me diziam que seria mais insuscetível às minhas tentativas de comoção. Já o outro, Lucas, estava na casa dos seus 25 anos, parecia mais tenso e desconfortável. Ao contrário do irmão, que mantinha o cabelo raspado e as roupas sérias, Lucas tinha a aparência mais relaxada e moderna. Logo, concluí que deveria focar em contar minha história para o mais novo, fixar meus olhos nos dele e tentar sensibilizá-lo. Nem eu mesma sabia quando eu havia me tornado tão perceptiva e não tinha ideia se iria funcionar, mas minha intuição me dizia para adotar essa estratégia. Eu me aproximei com a bandeja e me sentei na frente dos dois, esperando que eles iniciassem a conversa.

— Noêmia, como eu disse, somos do Departamento Especial de Segurança dos Estados Unidos da América —Christian me mostrou a identificação — e verificamos que nessa madrugada um IP com essa localização invadiu um de nossos sistemas.

A identificação que ele apresentou era idêntica à que Joseph havia me mostrado no dia do Massacre. Christian falava pausadamente, com uma calma irritante. Eu tentava a todo custo manter algum tipo de controle da situação.

—  Sim. Foi um engano. Como você percebeu pelo  cartaz, meu filho foi sequestrado. Eu estava tentando obter algum tipo de informação. Vocês não podem condenar uma mãe desesperada.

— Nós não iremos prendê-la por isso, senhorita. Mas nosso trabalho é coisa séria. Estamos falando de segurança pública. Eu sei que você está mentindo e só o que estou exigindo é a verdade.

— E como você pode cobrar uma verdade, se também está mentindo? – protestei, para espanto do meu interlocutor, que não esperava. – Que eu me lembre, eu entrei em um site da Agência Internacional de Segurança e você me apresenta uma identificação do Governo dos Estados Unidos. Ou sua identificação é falsa, ou você está espionando em nome de seu país, o que nos coloca na mesma condição. Não tente me intimidar.

— Você é bastante inteligente, acho que eu a subestimei. Só não tão esperta. Você só precisa saber que um telefonema meu e essa conversa será realizada nos Estados Unidos, em um clima não tão amistoso. No entanto, nós podemos resolver tudo pacificamente, basta me dizer tudo o que você sabe sobre Joseph Smith. Ele é o pai do seu filho, estou certo?

— Está certo sim. Ele é o pai do meu filho. Ele ficou hospedado aqui no hostel, tenho toda a papelada do registro, posso te mostrar agora mesmo, se quiser. Nós tivemos um relacionamento breve e eu tive notícias de que ele estava morto antes mesmo do meu filho nascer. Isso é tudo o que eu sei. Eu estava justamente procurando mais informações ontem à noite, mas pelo visto a informação veio até mim. Talvez agora você possa me dizer mais sobre o pai do meu filho.

— Ainda não. Você disse que ficou sabendo que ele morreu. De onde veio essa informação? Você tem algum contato com alguém ligado a ele?

Eu me ajeitei na cadeira. A última coisa que eu pretendia era mencionar que estava presente no dia,  então precisaria articular uma mentira, sem que eu caísse em minha própria armadilha. Felizmente, o telefone de Christian começou a tocar insistentemente. Ele verificou o visor do telefone e pediu licença para atender, do lado de fora. Ficamos apenas eu e Lucas, que até então não havia falado nada.

— Lucas, certo? Vocês são irmãos? — perguntei.

— Somos.

— Você me parece menos assustador do que seu irmão, eu juro para você que não sei de mais nada. Há anos eu não escuto falar no Joseph. Eu só quero encontrar meu filho e estou perdendo meu tempo aqui com vocês. Minha intenção ao pesquisar por ele era só saber se ele tinha algum parente vivo e pedir ajuda, porque eu estou desesperada.

Percebi que minha tentativa estava sendo bem sucedida e o semblante de Lucas era bem mais compassivo. Continuei encarando, até que ele olhou para trás e avistou o irmão ainda no telefone. Então, ele se aproximou e cochichou:

— Eu não deveria dizer isso, mas estou vendo seu desespero. Eu não tenho ideia de onde seu filho possa estar, mas eu acho que você deveria procurar saber melhor sobre a morte do Joseph. É possível que...

—Vamos, Lucas. Acabamos por aqui. Temos que voltar imediatamente à Washington — Christian nos interrompeu, voltando visivelmente irritado. — Noêmia, da próxima vez que invadir um de nossos sistemas, não seremos tão complacentes. Estamos de olho.

— Espero que a senhorita encontre seu filho — Lucas disse, antes de se retirar.   — Obrigado pelo café, estava ótimo.

Senti o olhar penetrante do irmão mais jovem, como se ele estivesse tentando me transmitir algum tipo de mensagem. Tão logo eles se retiraram, fui até onde estavam sentados e, sem surpresa, encontrei um cartão com um endereço repousando no pires.

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O próximo capítulo será postado em breve *-*

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