Acordei assustado quando meu pai abriu a porta do quarto. Ele me olhou e sorriu, me perguntando se eu estava assutado, eu queria dizer que sim e contar todos os motivos, mas invés disso, sorri e balancei a cabeça negando enquanto o ouvia me dizer que já eram dez da manhã e eu precisava o ajudar limpar a garagem antes de ir para escola.
A Ana foi embora quando eram quase duas da manhã. Ver a ruiva chorar me partiu o coração, eu precisava conversar com o Hugo, entender isso tudo, mas ele não me dava nenhuma abertura. Na verdade, estava sem falar comigo, quando era eu quem tinha que ficar com raiva, agora sou eu quem estou sendo perseguído por um traficante.
Quase terminando a faxina na garagem, um carro preto estacionou e meu coração gelou, eu ia levar um tiro nesse exato momento e na frente do meu pai. Mas quem desceu do carro usava uma botinha preta, shorts e uma regata vermelha. Ela sorriu ao me ver.
- Izzy.. - Falei meio aliviado, por que essa garota é louca. Meu pai a olhou, e depois me olhou. - Pai essa é minha amiga, Izzy.. Ela estuda na Avenues.
- Ah, Oi. - Ela se aproximou e apertou a mão dele, que a propósito estava toda suja de poeira. - Sou pai do Richard, me chamo Hélio.
- Izzy Yale. - Ela sorriu mais uma vez. - Gostei do seu nome.. - Ela comentou enquanto pegava uma peça suja que estava na minha frente. - Posso roubar o Richard um instante?
- Sim, claro. - Meu pai sorriu. - Pode leva-lo na verdade, estamos terminando e sei que ele tem que ir pra escola.
- O Senhor vai?! - Izzy perguntou animada.
- Não... - Eu disse enquanto ela me estendeu a mão para que eu levantasse. - Ele não gosta muito de jogo. - Ela sorriu uma última vez para meu pai e me deu a peça.
- Vamos lá?
(...)
Depois que tomei banho, saí do banheiro apenas de shorts, enquanto a loira mexia no meu computador. Ela se virou na cadeira e sorriu me encarando.
- Belo físico.. - Ela mordeu os lábios, essa menina é perigosa. - MAS! - Ela saiu da cadeira falando alto demais. - Acho que posso resolver seu problema.
- S-sério..? - Eu a encarei e ela se aproximou.
- Jonny me deve algumas coisas.. - Ela começou dizendo. - Eu posso esquecer por acaso, se ele esquecer sua existência.
- Acha que consegue fazer isso? - Ela deu de ombros.
(...)
Chegando na escola, Izzy foi para a arquibancada e eu para o vestuário. Nunca tinha jogado de verdade com esses caras, e por isso meu estômago chegava à revirar de ansiedade e medo. Queria me desligar dos problemas e focar somente no futebol, mas era impossível.
Entramos em campo, e a torcida se animou, enquanto as belas líderes de torcida dançavam mais que animadas. Por algum motivo eles acreditavam e nós. Independentes se éramos legais, ou babacas como o Yago, eles acreditavam em nós.
O jogo começou e eu não estava diferente, corria rápido, sempre corri. Enquanto os passes de bola aconteciam, eu começava a me divertir, queria esquecer os problemas mesmo que fosse impossível, só por alguns minutos. Ian me deu um toque preciso, e eu chutei a bola, por um vacilo do goleiro o primeiro gol foi nosso e a euforia foi sensacional. 1x0.
O primeiro tempo acabou, e ainda estávamos em vantagem. O Ian era um líder nato, sabia exatamente onde nos posicionar e dessa vez, Yago estava disposto à passar a bola. Bebemos água, respiramos e o apito do árbitro nos convidava à entrar em cena, mais uma vez. Corri os olhos pela arquibancada, a Izzy segurava um pompom de líder de torcida ao lado da Pietra, e sorria enquanto se divertia. Corri meus olhos pelo outro lado da arquibancada, e vi uma morena que conhecia muito bem, enxergaria ela em qualquer lugar, era a Luly. Ela sorriu, acenou e falou algo que eu não entendi.
- Acorda Blake! - Yago me deu um empurrão leve. - Deixa pra admirar as líderes de torcida mais tarde, quando vencermos.
Ele estava certo, pela primeira vez em meses. Eu precisava de foco. Os garotos do Sant' Men se esforçavam a medida que o tempo corria à favor dos Fires, o desespero era visível, mas eu ainda era o mais rápido e os chutes do Ian, eram tão precisos que mais parecia que no gramado tinham réguas, e a bola seguia as linhas retas. O Yago conseguiu tomar a bola de um garoto loiro chamado Enzo, o número dez. Correu o mais rápido que pôde, e olhou para os lados, provavelmente não queria passar para mim, mas eu era a única opção. Quando a bola chegou aos meus pés, corri com todo fôlego que tinha, e driblei os dois brutamontes como pude, até sentir uma mão pesada segurar minha blusa, e me puxar para trás, me fazendo cair e perder a bola do meu controle.
- Filho da puta.. - Cuspi no gramado, enquanto Theo estendia a mão para que eu me levantasse.
- Tudo bem.. - Ian chegou mais perto. O apito do árbitro soou, e a indignação do outro time foi notória, a felicidade da torcida explodiu. Era hora de bater uma falta, a primeira e possivelmente última do jogo. - Você consegue. - Ian me encarou firme e eu balancei a cabeça expressando meu "sim".
- Vamos lá Richard... - Yago segurou meu ombro. - Claro que você consegue. - E pela segunda vez hoje, ele não falou merda e se fosse em outras circunstâncias, se eu não estivesse tão focado, teria o elogiado.
Éramos eu, a bola, a distância, os oponentes, e o goleiro. Eu contra todos. Eu no meio dessa confusão. Quando foi autorizado, respirei fundo enquanto a jogada ensaiada era feita, e eu sabia o que eu tinha que fazer, era minha hora. Corri nada mais que três passos, e coloquei toda minha força naquele chute, era tudo ou nada, ousei fechar os olhos depois dessa jogada e senti os braços dos meus companheiros me abraçando. O barulho da torcida invadindo tudo. Tínhamos vencido. 2x0 para os Fires.
(...)
- Você sempre jogou bem.. - A voz da Luly me despertou e eu me virei sorrindo.
- Não sabia que vinha.. - Ela deu de ombros. Provavelmente também não sabia, mas era sempre bom ter ela por perto.
- Você.. - Ela parou de falar e encarou alguma coisa que estava atrás de mim. Sentindo o cheiro doce, sabia exatamente quem era. - Sara..? - Que ótimo, as duas se conhecem. - O que você está fazendo aqui?
- Vim ver o jogo do meu namorado. - Izzy passou o braço pelos meus ombros e agora eu era o alvo do olhar de matar da Luly.
- Que ótimo. - Ela disse alto. - Parabéns para os dois.. - A morena me olhou uma última vez com toda indignação possível e foi embora, me deixando sozinho e mais uma vez com uma interrogação imensa na cabeça.
- Que porra foi essa? - Me virei encarando a loira que suspirou e revirou os olhos.
- Agora minha vida é te dar explicações.
(...)
- Luísa era a barmen antes de mim.. E tem raivinha por que perdeu o lugar. - Ela disse simplesmente enquanto dirigia.
- E você não fez nada? - A olhei e ela me encarou.
- Por que acha que eu fiz algo?
- Por que é você. - Ela sorriu e em seguida mordeu os lábios.
- Eu confesso.. - Ela deu de ombros. - Roubei umas coisas e coloquei na bolsa dela.
- Puta que.. - Eu a encarei, incrédulo. - Como pode admitir uma coisa dessas?
- Oque? Eu queria o emprego.
- Por que?
- Por que sim. - Ela riu uma última vez diante do meu rosto, numa expressão que nem se quer consigo descrever.
- Izzy.. Você sabia quem era a Luísa.. Você montou todo aquele plano diabólico, sabia que era ela..
- Sim.. - Ela me olhou. - Ela não deveria ter feito aquilo com você. - Eu desisto de entender, essa garota é louca.
- Onde estamos indo? Acho que não consigo olhar na sua cara mais tempo... E por que porra disse que eu era seu namorado? Por acaso o SEU NAMORADO já quer me matar por eu ter quase matado ele, e agora mais isso?
- Relaxa.. - Ela estacionou o carro. Enquanto pegava a peruca preta no banco de trás. - Estamos indo ver o Jonny.
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A Face do Disfarce
Teen FictionRichard Blake, é um garoto de dezesseis anos que passa em um programa do governo e ganha uma bolsa estudantil em uma das melhores escolas da cidade. Nessa nova escola, conhecerá Izzy Yale "a garota perfeita", linda, educada e ingênua e descobrirá qu...
