Eu e Jacob só paramos de correr quando chegamosa a um parque com diversas coisas para crianças se entreterem. Havia árvores floridas e coloridas por todo o lado. Eu sentei-me numa espécie de banco com cordas a sopurtá-lo. Jacob sentou-se ao meu lado, num brinquedo igual.
Respirei fundo. O meu coração continuava acelerado. Olhei para o chão de alcatrão negro. Comecei a tremer um pouco com o frio. O casaco que tinha tirado não me proporcionava calor, porque estava molhado. O olhar que me fixava percebeu o que se passava e tirou a sua camisa. Olhei para ele surpreendida. Peguei na peça e corri para trás de uma árvore. Apesar de estar meio escondida - a árvore não era assim tão grossa - eu sabia que Jacob continuava a fixar-me.
Tirei o casaco e senti um arrepio a percorrer-me o corpo, desde a ponta dos desdos até ao mais ínfimo fio de cabelo. Vesti a camisa de Jacob. Estava quente de ele a ter usado primeiro, e isso aconchegou-me. A peça colou-se ao meu corpo húmido como uma lapa a uma rocha.
Saí do esconderijo e percebi que Jacob tinha ficado sem nada a tapar a parte de cima do seu corpo. Olhei para ele com atenção. Ele fez um sinal para eu me voltar a sentar no banco. Eu aproximei-me, mas não me sentei no sítio apontado. Pus-me à sua frente e sussurei:
- Obrigada.
- Já percebi que não gostas que te deiam ordens - disse ele com ar divertido e um sorriso tentador.
Então o meu olhar desceu. Fui desde os seus olhos claros, passei pelo seu nariz perfeito, coberto de sardas, que só pronunciavam a sua beleza de tritão, e parei na sua boca pequena. Aproximei-me devagarinho, não sabia o que me estava a dar. Senti o seu hálito fresco na minha cara. E então aconteceu o imprevisto. Os meus lábios tocaram os seus, muito levemente. Ele permaneceu imóvel como uma estátua, apenas os seus olhos se tinham fechado, como era de esperar.
Pensei em Toby e larguei-o rapidamente.
- Foi bom, mas prefiro rapazes! - deixou ele escapar.
Olhei para ele, divertida. Pensei que se seguiria o momento de desconforto e constrangimento, mas com ele isso não era necessário, afinal nós não gostavamos um do outro dessa maneira.
Um sorriso pronunciou-se na minha face.
- Obrigada - disse eu outra vez.
- Estás a ver se a cena se repete? Olha que que não volto a cair nessa doçura de voz, nem nesse teu rostinho perfeitinho - disse ele animado.
Soltei uma gargalhada verdadeira.
- Também não volto a cair nesses teus olhinhos fofos nem nesse teu corpo definido.
Ele lançou-me um olhar convencido e depois deu balanço no seu banco e começou a andar para trás e para a frente, como os mais pequenos costumavam fazer nos baloiços do meu Reino.
Ficamos a conversar e a balançar-nos até chegar a noite. Depois ele despediu-se e foi-se embora pelo meio das árvores verdes. Prometi-lhe que depois devolvia a camisa e acenei como despedida, até o seu corpo se tranformar numa sombra, e a sua silhueta se transformar numa mera memória.
Levantei-me também e andei para casa. Eu não sabia o caminho, mas consegui encontrar o pequeno prédio onde se encontrava o compartimento de Lilian, depois de umas voltas.
Rodei a chave, que Lilian guardava num vaso da entrada, e girei a fechadura até dar o click que eu já me habituara a ouvir. Ainda estava um pouco abalada pelo que me tinha acontecido; as memórias do sucedido giravam na minha cabeça, juntas com imagens e vozes.
Quando entrei, não estava ninguém. Sentei-me no sofá com o saco de roupa que Clarissa me tinha emprestado, onde eu tinha guardado o seu fato de treino. Lembrei-me de que tinha de o entregar. Quando estava a dobrar as calças cinzentas, um papel caiu do bolso, ao mesmo tempo que Lilian batia a porta, sinal de que chegara. Olhei para ela! Ela estava preocupadíssima.
- Aline!!! Onde é que te tinhas metido? Estavamos todos preocupados e à tua procura pela praia e por todo o lado! Estavamos quase para chamar a polícia! Onde raio te meteste depois da tua queda? - perguntou agitada, com uma mistura de querer abraçar-me aliviada e de querer bater-me por ter causado tanta preocupação.
Olhei-a calmamente e respondi que tinha ido arejar as ideias e que me tinha perdido. Ela respondeu que o Toby ainda tinha ficado à minha procura na praia. Que estava muito preocupado. E que ele tinha pedido para eu lhe ligar quando pudesse. Rapidamente olhei para o papel onde ele tinha apontado um número, e que me tinha acabado de cair ao chão. Ela pousou uma maquineta retângular e espelhada na mesinha de centro e disse me, antes de se retirar para o banho:
- Liga-lhe. Ele não merece que lhe faças isso. Não voltes a desaparecer.
Peguei na pequena máquina com teclas de letras e números e marquei a sequência escrita no papel caído no chão, que ficara esquecido no bolso de umas calças.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Aline, Destino Imprevisível
FantasyOBRA COMPLETA! Aline é uma sereia. Cabelo platinado, olhos verdes, orelhas bicudas e uma cauda azul. Ela é escolhida para ir numa missão com vários riscos, na terra. Tem de encontrar o Coração do Mar, que fora roubado ao Rei dos oceanos, pelo se...
