Capítulo número 2

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O rapaz aproximou-se um pouco mais e eu desci da rocha, para a água que ali já me dava pelos ombros, ocultando a maior parte do meu corpo.

Observei-o intensamente, avaliando o quanto os aspectos físicos me permitiam. Tinha um olhar sedutor e curioso. Cabelos sedosos e escuros. Os olhos eram castanhos esverdeados e prescrutavam-me com uma atenção que me incomodava. Tinha um corpo bem definido e aparentava ter dezassete anos. A sua voz grave voltou a soar, pareciam mais notas musicais do que palavras, de tão melodiosa que era.

- Como te chamas? - perguntou ele com calma.

A voz falhou-me. O meu nome verdadeiro era muito complicado de pronunciar, e não existia sequer no mundo humano. Por isso, inventei o primeiro nome que me veio a cabeça.

- Aline - foi só o que respondi, muito baixo, não tinha a certeza de que ele ouvira. Sentia o constrangimento a emanar de mim.

Ele olhou-me ainda mais fixamente, mas eu não desviei o olhar. Não ia dar parte fraca.

Ele perguntou-me a razão de eu estar na praia, a uma hora tão tardia e nua. Reforçou esta última parte, olhando o meu reflexo. Felizmente, a água não era muito transparente, pelo que não deixou tranparecer vestigios do meu corpo oculto.

Eu não respondi. Não estava preparada para aquela pergunta. Ele transmitiu um olhar de quem espera pela resposta, fosse que tempo fosse. Então eu desviei a minha atenção para a minha mão, as minhas unhas, agora curtas. Ele compreendeu que eu não ia responder e disse:

- O meu nome é Toby.

Voltei a olhar para ele.

- Podemos conversar na costa? Está a ficar muito frio aqui! - disse ele descontraído.

Hesitei. Ele percebeu as minhas razões. Eu não ia sem roupa para a costa! Ele logo se ofereceu para ir buscar uma camisola. Pediu me para esperar ali e saíu da água quase a correr. Entregou-ma e deixou-me andar para um lugar com menos profundidade, onde se virou de costas e eu me vesti. A camisola era larga e chegava-me até aos joelhos. Cheirava bem, a um tipo de cheiro que eu não estava habituada e que me surpreendeu pela positiva.

Caminhamos até à costa juntos. Conseguia sentir o seu olhar a colidir com os meus cabelos platinados, quase brancos. O que nenhum de nós podia ver era que me sentia a corar.

Não estava ninguém na praia, para alem de nós. As dunas e a própria costa escarpada escondiam-nos dos olhares das pessoas que passavam na rua.

- Então e o que fazes tu aqui? - perguntei, quebrando o silêncio.

- Eu vim surfar.

Automaticamente olhei na direção que ele apontava e vi uma toalha estendida e uma prancha, pintada com desenhos aleatórios.

A minha vontade era perguntar o significado da estranha palavra "surfar", mas contive-me.

Ele voltou a fazer mais uma pergunta:

- As tuas roupas? Onde moras para poder levar-te a casa?

Eu encolhi os ombros.

- Já percebi tudo!

Olhei-o desconfiada.

- Tu fugiste de casa e não queres voltar tão cedo. Estou certo?

Pensei um pouco antes de responder. Não lhe podia dizer que não tinha casa na terra. Por isso concordei com o que ele disse, assentindo com a cabeça em sinal de afirmação.

Sentamo-nos na areia seca, fina e clara. Era, sem sombra de dúvida mais confortável do que a rocha. Olhei para o mar. A água brilhava intensamente, graças ao sol, que já ia bastante baixo.

E este foi o primeiro pôr-do-sol que assisti na companhia de Toby.

Aline, Destino Imprevisível Histórias para pegar e não largar. Descubra agora