Capítulo número 1

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As correntes de água passavam por mim suavemente, e eu conseguia destinguir quais a quentes, que vinham do Sul e as frias que direcionavam do Norte.

A minha velocidade sobrenatural atingia valores inacreditavelmente altos. Eu passava pelos animais e seus refúgios e abalava-os com a rapidez com que me dirigia, algas agitadas, corais arrancados e pequenos cardumes dispersavam. Gostava de nadar em profundidade. Era costume desviar-me dos seres marinhos, mas a missão para a qual me tinham enviado era de máxima urgência, por isso tentava não dar muita importância a pormenores.

Cheguei até ao lugar máximo que já alguma vez me tinha aventurado a nadar. Hesitei uns segundos antes de continuar, para prolongar o momento e depois continuei, sempre com grande intensidade.

Rapidamente reconheci que estava perto da terra humana. A água era mais amena e havia menos aglomerado de peixes, mais pequenos e ingênuos, a percorrer as águas, agora mais claras e mais baixas.

Cheguei até perto de um enorme rochedo, que estava dentro de água e comi uma alga, que, por sorte, não se tinha soltado da minha mão, pois eu agarrei-a com a violência, com as garras a cravar a sua superfície. Segundo o grande ancião do Reino, que aconselhava o governante da melhor maneira de exercer a sua tarefa, esta alga permitia-me ganhar pernas humanas e, mais tarde, voltar à minha cauda comprida de sereia, as vezes que eu quisesse. Bastava, para ser humana, sair da água, e para voltar à minha realidade, ficar durante um minuto debaixo de água, o que, para a maioria dos humanos é quase impossível.

Saltei, aos tropeções para cima do pedregulho que assumava à tona e sentei-me, sentido o desconforto da pedra fria e molhada, como saí da água, um clarão de luz invadiu aquele local. A minha cauda azul desapareceu, dando lugar a duas pernas carnudas. As conchas que estavam a esconder os meus peitos desapareceram igualmente. Estava na forma humana! Era estranha a sensação de poder mexer as pernas e os pés em duas direções diferentes! Era uma coisa nova!

O meu corpo tornou-se rígido, com o frio. Esta sensação era agora tão real! A minha pele branca estava agora arrepiada, enquanto os dentes batiam bruscamente uns contra os outros.

Apesar disso, continuei imóvel, a prescrutar o mar. Nao fazia ideia de como era a visão dos oceanos, visto de cima! Agora podia ver que era extenso e muito azul! O barulho das ondas que vinham dar à costa era relaxante.

Comecei a pensar na minha sorte e no meu azar. No meu reino predominava certamente o caos e a aflição! Parecia que ainda conseguia ouvir as cornetas a anunciar que o Coração do Mar tinha sido roubado!
"O Rei está no descanso eterno! O Rei está no descanso eterno!" - diziam eles, sem fé que o Coração do Mar se pudesse recuperar. Na verdade, nem eu estava confiante, até ser chamada para a missão! Ter de enfrentar o meio - irmão do Rei para recuperar uma das duas coisas que o mantinha vivo?! Era uma missão suicida! Mas se não fosse eu, quem poderia ir?! O Rei só confiaria no meu pai para uma missão com este grau de importância, e como ele está adoentado, confiar-me-ia a mim o trabalho, concerteza!

A verdade é que se eu não recuperasse rapidamente o amuleto, o Rei nunca mais acordaria do "sono eterno" e o Reino podia entrar em desgraça!

"Agora também não tenho escolha! Ja cheguei aqui, tenho de continuar!" - concluía eu.

Até que uma voz interrompeu os meus pensamentos. Antes de olhar para trás, para ver o que se passava, observei o céu por breves momentos. Estava numa tonalidade arroxeada e avermelhada! Apercebi-me então de que tinha ficado durante horas absorta nos meus pensamentos.

Virei-me apressadamente para trás, para ver de onde vinha aquela voz. Um rapaz vinha na minha direção, cortando caminho pela água. Quando se apercebeu que eu estava nua, parou a alguns metros de distância, o suficiente para poder perceber as curvas do meu corpo molhado e despido.

Aline, Destino Imprevisível Histórias para pegar e não largar. Descubra agora