OBRA COMPLETA!
Aline é uma sereia. Cabelo platinado, olhos verdes, orelhas bicudas e uma cauda azul.
Ela é escolhida para ir numa missão com vários riscos, na terra. Tem de encontrar o Coração do Mar, que fora roubado ao Rei dos oceanos, pelo se...
Jacob. Um tritão misterioso que dissera ser convocado para me acompanhar ao longe, na missão, mas acabou por me ajudar.
Saí da água e fui apressadamente até à clareira onde tinha deixado Toby para trás. Ele ja lá não estava. Senti a minha pulsação acelerar.
Corri para a beira da escola. Não tinha aulas naquele dia, porque Lilian também não tinha.
Sentei-me no banco de madeira, perto dos portões. Por esta altura, deviam estar a acabar de sair das salas.
Entrei apressada na escola, sem ligar às reclamações do porteiro, para passar o cartão na máquina.
Ao pé de um dos edifícios amedrontadores, Jacob falava com Lucas. Interrompi a conversa e arrastei comigo o platinado.
- O que estás a fazer?! - pergunta ele em tom curioso.
- Quem és tu? - perguntei diretamente, com os olhos arregalados e a testa franzida.
O seu olhar desviou-se para o chão, com o choque, com a surpresa.
- Receava este momento. Mas não podia contar nada - fez uma pausa, para um breve olhar e depois - E ainda não posso.
Larguei o seu braço, com medo de lhe espetar as unhas, com a raiva.
- Porque me mentiste? Eu confiei em ti! - ele baixou mais a cabeça - E pensei que confiavas em mim - ele encarou-me com as palavras entaladas e o lábio inferior a tremer - mas estava enganada! - terminei, lançando a última seta, espetando a última faca, a mais destruidora, com o poder da desilusão.
Virei costas e atravessei o portão da escola insuportável a correr. Não era só a raiva mortífera que matava quem se atravessasse no meu caminho, mas a sensação de perda era tão instável, que parecia que três bombas atômicas estavam prestes a explodir se eu não me acalmasse.
Corri por muito tempo, a pensar nas coisas, nas pessoas, nas mentiras. O meu sistema de cansaço parecia que não funcionava mais. Quando parei, sentia-me aliviada. Apetecia-me fugir de tudo.
Vi a Lilian, ao fundo da rua, e mudei a direção do meu trajeto. Precisa de estar sozinha. Livre de pessoas a perguntar se eu estava bem, porque a minha resposta sincera seria um redondo NÃO. Livre de mentiras que me faziam repensar no que é que tinha errado para não confiarem em mim. Livre do meu amor impossível, que nunca devia ter acontecido. Quando reparei onde estava, observando o mar embaçado pelas minhas lágrimas, que queriam ser expelidas e choradas, sentei-me no meio da areia. Senti as pedrinhas pequenas e infinitas, nos meus dedos, e desejei ser como elas, sem preocupações, sempre paradas, sem vida.
Quando a primeira gota de água cristalina escorreu pela minha face, sabia que um mar delas ainda estavam para vir para fora. Senti os meus olhos a arder, provavelmente vermelhos. Pousei a cabeça na areia. Tudo o que me restava era voltar para casa, e fingir que tudo aquilo nunca acontecera. Mas como podia? Como podia deixar Toby? Como podia ir embora sem uma explicação de Jacob. Como podia ir embora e deixar aquela vida horrível, mas ao mesmo tempo desejada para trás?
Então, uma coisa branca roça o ar, a uns centímetros da minha cara molhada. Sentei-me apressadamente. Estava um papel dobrado em bico meio enterrado no chão, ao meu lado. Abri-o e era uma carta. Fiz um esforço por perceber aquela letra.
" Tens razão. Não confiei em ti, e tu não devias ter confiado em mim. Sou um impostor, que se aproveitou do acaso de te encontrar." - parei de ler. Aquela carta, apesar de não estar assinada, só podia ser do Jacob - "Agora que descobriste que não sou quem realmente digo ser, espero que compreendas a razão da minha partida" - partida? Será que ele ia embora? - "Na verdade, eu já vivo em terra à anos. Fui expulso do Reino por infedelifade. Quando te encontrei e investiguei a tua história, aproveitei-me. Espero que me possas perdoar, apesar de nunca vir a saber a resposta. Adeus, Ziackhardiäniavski." - estremeci ao ler o meu verdadeiro nome.
A areia parecia que se movia por baixo do meu corpo, e uma vaga de calor e tonturas invadiram-me. Caí, a seco e com força, para o lado. Sentia os olhos a revirarem-se nas órbitas, apesar de as pálpebras estarem fechadas.
Quando voltei à minha consciência, outra vez, Lilian batia-me ao de leve na face e segurava-me a cabeça no colo, entre as mãos. A minha visão foi focando, enquanto me passava pela cabeça que tinha de contar a Lilian que era uma sereia, antes de ir embora. Dei um pulo e depressa me levantei.
- Vai com calma, senão ainda voltas a cair e eu não vou estar ao lado para te amortecer! - falou Lilian com um sorriso rasgado, porém preocupado.
- Tenho de te mostrar uma coisa! - disse eu, dirigindo-me para a beira da areia molhada.
Ela franze o sobrolho, com uma careta que me faz rir. Não seria justo eu abandonar aquele lugar sem me despedir em condições.
- Então o que é?
- Anda comigo! - digo, incitando-a a seguir-me, com um gesto.
Quando a água já nos dava pela cintura, fi-la prometer que tudo o que visse tinha que manter em segredo. Quando ela assentiu com a cabeça, eu mergulhei e permaneci debaixo de água durante o tempo suficiente para a habitual luz erradiar da minha pele - ou escamas - e a cauda azul aparecer.
Lilian não conseguia acreditar no que via. A sua boca abria e fechava, como se um grito de espanto estivesse entalado. Ela só tinha olhos para o meu cabelo, ainda mais brilhante do que o normal, e para a minha longa cauda reluzente.
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Olhei para a sua cara de surpresa e coloquei um dedo à frente da boca, pronunciando: