Passaram-se umas longas dezenas de minutos até eu ter voltado a olhar para ele.
Reparei em pormenores que não me tinham saltado à vista antes. O seu queixo perfeito, saliente, os seus olhos brilhantes e lúcidos, o seu cabelo a esvoaçar com a brisa, levando o seu perfume encantador até mim.
Até que ele olhou-me, retribuindo a curiosidade que eu tranbordava no momento.
- Porque ficaste aqui, comigo? - perguntei.
- Eu não sei bem. Algo me disse que devia ficar.
A sua mão levantou-se da perna onde estava apoiada; hesitou, a medo da minha reação, e depois avançou e colocou uma madeixa do meu cabelo claro por trás da minha orelha.
Ele ficou especado, a olhar para a lateral do meu rosto. Então apercebi-me que ele reparara nas minhas orelhas bicudas. Eram como se fosse sereia ainda. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, eu levantei-me rapidamente e disse, com pouca convicção, que era de genética.
Esquecendo o assunto, ele levantou-se, também, e pousou a sua delicada e reconfortante mão no meu ombro, afirmando que não tinha de ter vergonha disso, que era um aspeto que me diferenciava das outras pessoas, e que ele gostava do incomum. Fiquei vermelha, tinha a certeza disso, sentia leves picadas no rosto, e um calor insopurtavelmente agradável a invadir-me e a percorrer-me o corpo a que ainda me estava a habituar.
- Onde vais ficar enquanto não voltares para casa?
Ele surpreendeu-me com a pergunta, e mais uma vez eu não tinha resposta.
- Tens planos para esta noite? - voltou a reformular a pergunta.
Acenei negativamente com a cabeça.
- Eu e uns amigos vamos a um encontro, numa clareira aqui perto, para conversar e petiscar qualquer coisa. Tu queres vir? - perguntou, com incerteza na voz. Seria incerteza da minha resposta ou da resposta dos outros em relação a este convite?!
Antes de responder definitivamente, reparei no seu olhar suplicante. Cada segundo que passava sem eu dar a resposta fazia com que os batimentos do seu coração aceleracem para o dobro.
- Pode ser. Não ia fazer nada mesmo! - era uma oportunidade de me integrar, afinal era isso que o meu pai gostaria que fizesse. Se as pessoas me conhecessem, não iam achar tão estranho as minhas escapadelas à procura do amuleto do Coração do Mar.
Não valia a pena perguntar o que era uma clareira. Iria descubrir em breve!
Toby falava agora entusiasticamente e mais aliviado.
Enquanto nos dirigíamos para uma máquina comprida e azul escura, perguntei-lhe a sua idade. Ele respondeu distraidamente que tinha dezoito anos. Falhei por pouco.
Esperei que ele abrisse uma porta e repeti o que ele fez, mas do outro lado. Sentei-me como ele e atei um fio preto e resistente por cima de mim, imitando os seus movimentos ágeis.
- Tu não és daqui, pois não? - perguntou ele, interrompendo uma musica que alguém que eu não conseguia ver cantava.
- Porque achas isso? - foi a única coisa que me lembrei de responder.
- Arnoia é uma cidade pequena e eu nunca te tinha visto por cá!
- Tens razão! Eu e os meus pais chegamos aqui ontem - menti.
- Entao não gostas mesmo desta cidade! Se no segundo dia já foges de casa!
Encolhi os ombros, como sempre fazia quando não tinha mais resposta.
Chegamos, minutos depois, à tal da clareira. Era um pequeno círculo de terra batida, com troncos a fazer de bancos e uma fogueira no centro, que cortava a escuridão da noite, que decidira aparecer.
Eu tinha de ter cuidado com o fogo, já os meus pais diziam. Lembrei-me da voz doce da minha mãe, da sua cauda que eu admirava, do seu carácter. Tudo agora me deixava com saudades de casa, naquele mundo novo e desconhecido que eu tinha pela frente. Sempre me disseram que as sereias tinham de ter cuidado com o fogo, que causava, quando em contacto com a nossa pele, efeitos catastróficos. Dantes não percebia o porquê de tanta preocupação, se na água nós não podíamos ser atingidos pelo fogo, mas agora tudo era mais claro.
Saímos da máquina estranha, que, num curto espaço de tempo nos tinha levado a um lugar diferente da praia, sem termos de mexer a cauda! Aliás, as pernas!
Olhei os amigos de Toby. Tinham um ar afável e ao mesmo tempo surpreendido, por verem Toby chegar com uma desconhecida.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Aline, Destino Imprevisível
FantasyOBRA COMPLETA! Aline é uma sereia. Cabelo platinado, olhos verdes, orelhas bicudas e uma cauda azul. Ela é escolhida para ir numa missão com vários riscos, na terra. Tem de encontrar o Coração do Mar, que fora roubado ao Rei dos oceanos, pelo se...
