Dois

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Aquela luzinha a fitar-me. Faltaria muito? Bufei.

Cotovelos na bancada; as minhas bochechas descansadas nas palmas das minhas mãos.

O meu olhar não se desviou até que a luzinha se desligou. A comida já terminara a sua sauna.

Coloquei a massa agora quente sobre a mesa. (Daquelas massas que se compram no supermercado com almondegas e basta aquecer para se comer)

A minha mãe sorriu para a comida. Compreendi-a, também eu estava faminta.

Devorei a minha massa com almondegas tão rápido quanto o meu maxilar permitia. A minha mãe bateu na mesa.

Sentindo a vibração desta olhei para a origem. "Não comas assim tão depressa." ela gesto ou.

Rolei os olhos e sorri o melhor que pude assentindo. Não tinha propriamente cinco anos.

O silêncio tomou conta do jantar. Eu não os culpava; com esta fome ninguém queria pousar os talheres para falar aqui com a surda.

Tranquei-me no meu quarto quando terminei, sabia que a minha mãe se ocuparia de arrumar a loiça do jantar.

Hoje era sábado, e a primeira vez que entrei nesta casa ocorrera à quatro dias. E em todos estes dias ela dispensava-me da cozinha. Logo, hoje não podia culpar-me por me esquivar por vontade própria.

Liguei o computador. Uma maçã mordida, como símbolo da Apple apresentou-se.

Após uns sete minutos que um computador infelizmente demora a atualizar, abri a minha pasta de ficheiros.

'Imagens.' A minha mente relembrou.

Desde que cheguei a Berkeley, e Paul tinha revelado o que seria o meu quarto dali em diante; eu só me tinha isolado. Podia-se dizer que ninguém me via.

Mas, descobri a minha paixão por fotografia no dia em que me mudei para cá.

Paul estava a arrumar umas fotografias que se esquecera de retirar do meu armário agora cheio de roupa minha. O brilho nos meus olhos foi de tal maneira enorme, que Paul emprestou-me a sua maquina fotográfica por tempo indeterminado.

Reservei o meu dia de hoje, sábado, para tirar fotografias e foi exatamente o que fiz.

Com a máquina prendida no meu pescoço, corri alguns quarteirões encontrando um parque agradável. E mais; fantástico para fotografar.

Consegui imagens de crianças a trocarem sorrisos, adultos a discutirem a gravidade dos estados em que os seus filhos se encontravam, até mesmo aves que se metiam no caminho.

Sorri para as imagens tiradas no computador. Até que tinha jeito.

Este momento de troca de olhares com as pessoas das fotografias não durou muito.

Um par de mãos pousou-se pelos meus ombros obrigando-me a girar o meu pescoço para ver quem seria; mesmo que eu já o soubesse.

A minha mãe sorriu. O seu olhar no ecrã do iMac.

"Foste tu que tiras-te?" Perguntou-me.

O meu olhar encontrou o dela. Assenti amaldiçoando a minha sorte. Porque não sai com aqueles olhos?

"Tens talento," disse-o tão lentamente que não foi preciso linguagem gestual para que eu percebesse. 

Finalmente encontrávamo-nos sozinhas em semanas. Mesmo vivendo sozinha com ela, os nossos destinos mal se encontravam. Desde que conheceu Paul, que pareço não importar.

Eu percebo. Ambas sofremos demasiado; não podia culpar a sua maneira de procurar conforto.

Eu própria gostava de encontrar aquele carinho algures. Em qualquer lado.

Breathe || H.SOnde histórias criam vida. Descubra agora