Capítulo 2

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Eu já me inspirei no céu azul,
Nas ondas do mar

Já me inspirei na minha tristeza,
Na minha alegria

Mas nada se compara à você
E cada passo que dá no palco

Seu corpo em sincronia com a música
Era tudo que eu precisava e não sabia

Agora posso voltar a ser um mísero poeta
porém, um poeta com a alma e o coração cheio.

Durante a minha vida toda, eu fui criticado por pessoas, coloquei o medo na minha cabeça e fechei-me dentro de uma gaiola como um pássaro, mas toda vez que eu danço, é como se eu saísse de dentro dela e voasse livremente como todo pássaro deve ser: livre.
Começou com mamãe e papai, eles disseram-me que homem não dança balé, apenas mulheres e se recusaram a pagar as minhas tão sonhadas aulas de dança. Quando titia descobriu, ela arrumou minhas malas e eu fui morar com ela. Titia cuidou de mim como ninguém jamais cuidaria e pagou minhas aulas de balé, dando-me uma chance de realizar meu sonho, mesmo que ele me dê dor de cabeça de tempos e tempos. Na escola, as crianças não gostavam de mim, e tudo bem, porque nas aulas de balé eu conheci Aurora, e Aurora me mostrou Larry, e então formamos um trio de amizade. Os melhores amigos que alguém poderia ter. Éramos os tipos de adolescentes que saiam juntos e comprávamos um milkshake para cada um, no caso, três, e até os dias de hoje ainda fazemos isso.
Um dia, eu cresci mais, e descobri minha sexualidade. Contei para Larry, Aurora e titia. Eles me aceitaram. Nunca namorei com outro homem, mas a mídia pensa que namoro com Aurora, porque tenho medo, e esse foi um jeito que arranjamos de esconder a verdade. Porém, Larry e Aurora se apaixonaram, e eles disseram que não dava mais para continuar com aquela mentira, que eu deveria dizer para todos que eu era gay. Fiquei com medo. O mundo já diz que eu deveria largar a profissão de balé que demorei para conseguir porque eu sou um homem, e se ele souber que nem hétero eu sou? Meus amigos compreenderam e a mentira continua até os dias de hoje. Larry e Aurora porém estão namorando, mas tudo as escondidas. Por conta disso, muitas revistas e sites de fofocas dizem que Aurora está me traindo com Larry, o que em partes é verdade.
Eu realizei meu sonho, mas até hoje sou criticado cada vez que piso no palco para dançar e o medo continua em minha cabeça, martelando ali. Por isso, as únicas vezes que me sinto bem é quando danço, então eu danço até as sapatilhas machucarem meus pés, mas agora lendo essa poesia, as coisas parecem mais diferentes, porque alguém admira meu trabalho, mesmo que eu seja um homem.
Sequei algumas lágrimas teimosas que insistiam em cair e virei-me para Larry, que estava abraçado à Aurora e elogiando ela de diversos apelidos, dizendo como ela arrasou dançando no palco.

Larry — interrompi os dois. — Não foi você quem escreveu isso, certo?

Certo.

Imaginei, você não é bom para esse tipo de coisa e a sua letra nem é tão bonita assim.

Ei! — ele fechou a cara, me fazendo rir. — Lois Cruz esteve aqui hoje.

Lois o que? — perguntei, tentando puxar algo do fundo do meu cérebro. Aquele nome parecia familiar.
Um pequeno "o" se formou na boca de Aurora, antes dela pergunta surpresa:

Lois Cruz não é seu poeta favorito?

Sim! Sim! — Larry sorriu como nunca antes. — Ele até me deu um autógrafo!

Claro, Larry sempre falou sobre Lois Cruz. Ele gosta de dizer que Cruz é o Shakespeare do século XXI.

Isso ainda não responde minha pergunta — eu balancei o papel em minhas mãos. — Quem escreveu isso?

Você não é tão lerdo assim, né? — ele bufou. — Lois Cruz quem escreveu. Inclusive, o que ele escreveu aí?

Um poema.

Faz sentindo, ele disse que queria inspiração para o novo livro, e quando você entrou no palco os olhos dele brilharam! — riu. — Nunca pesquisei nada, mas talvez Lois Cruz seja gay.

Eu senti minhas bochechas arderem e meu coração bater forte.
Preciso dar um jeito de conhecer esse Lois Cruz.

Você acha?

Antes que Larry pudesse responder algo, eu fui cercado por braços gordos.

Meu menino! — minha tia exclamou, deixando um beijo demorado na minha cabeça. — Você estava lindo! Estou tão orgulhosa!

Tia, você diz isso todo show.

Porque é a verdade — ela se afastou. — Você sabe, só estou tentando...

Não ser o que meus pais foram — completei. — Eu sei disso.

A abracei outra vez e agradeci.

Você quer jantar em casa hoje para comemorar? Pode chamar Larry e Aurora se quiser.

Hoje não.

Por quê?

Porque ele vai estar muito ocupado pesquisando sobre Lois Cruz, tia. — Larry disse ao fundo, e eu quis mata-ló, pois é exatamente isso que eu pretendo fazer.

Quem é Lois Cruz? — minhas bochechas arderem de novo. — Deus! Você está apaixonado?

O que? Não!

Mas você está todo vermelhinho! — apertou minhas bochechas. — Que graça! Eu quero conhecer esse tal de Lois.

Tchau tia — retirei suas mãos do meu rosto. — Tchau Larry, tchau Aurora.

Todos me responderam um "tchau" e eu sai do teatro, avistando meu carro vermelho na rua, apenas me esperando para ir para casa. Entrei dentro dele e batuquei meus dedos nervoso no volante e comecei a olhar em volta, talvez procurando por Lois Cruz, mesmo sem saber como é a sua aparência.
Ele poderia ter ficado e entregado o poema pessoalmente, em vez de mandar o idiota do Larry.
Retirei meu celular do bolso e joguei seu nome no Google e descobri sua aparência. Lois Cruz não tem só mãos abençoadas que escrevem bem, mas tudo nele parece que foi feito pelos deuses.
Joguei o celular no banco do lado e só depois de um tempo com a minha cabeça perdida na poesia que eu liguei o carro e parti para minha casa.

Dança do amorOnde histórias criam vida. Descubra agora