Querida quarentena,

Surtar dia sim, dia não, já é uma vitória no isolamento. Ainda assim, estou longe de me sentir vitoriosa em todos os sentidos.

Agora consigo ver quem eu sou.

E dói.

Dói porque é fácil focar em outra pessoa, num relacionamento, num ciúme ou até num sonho a dois, para me distrair de mim mesma. Porque é triste esperar que o mundo me dê algo tão básico quanto o amor, quando eu não sou capaz de dá-lo a mim mesma. Porque amar a mim mesma é um caminho longo, e eu vivi procurando atalhos e, de fato, avançando muito pouco.

"Foram anos demais assim, Jé..."

"Ai, miga, mas todo dia é uma chance pra mudar, sabe? E todo aquele blá-blá-blá coach/motivacional/budista e tal."

"Talvez... Mas não sinto que sou forte o bastante pra mudar."

"Bia, você não é as suas falhas. Isso é só uma parte de você."

Na minha opinião, é uma parte bem grande - grande o bastante para enfraquecer qualquer outra qualidade que eu tenha. Não respondo isso pra Jé para não soar como uma pobre coitada pessimista, mas parece que ela sente meus pensamentos não importa a distância que esteja entre nós.

Mesmo sem nenhuma resposta minha, ela continua:

"Você só tá vendo metade da história, miga. Pra mim, você também foi uma guerreira. E tenho certeza de que a tua mãe concordaria comigo."

Pera, o que minha mãe tem a ver com isso?

Querida QuarentenaOnde histórias criam vida. Descubra agora