Querida quarentena,

Você está trazendo à tona todos os nossos altos e baixos. Eu já aprendi isso ao tomar o mesmo café todos dias, mas percebendo que ele tem um gosto a cada manhã. Ontem ele tinha um toque de doçura com canela e coragem; hoje ele tem notas de amargor com pureza e incerteza.

Tem coisas que nem açúcar conseguiria adoçar.

Nossa conversa é educada, porém, crua e lenta. Meros conhecidos se cumprimentando no elevador e tateando possíveis assuntos para conversar. É, está difícil manter os mais velhos em casa. Sim, é angustiante não saber se a empresa vai demitir 57% ou 80% dos funcionários. Claro, vamos sair mais fortes de tudo isso. Blá. Blá. Blá.

"O que você quer?", ele finalmente envia.

Parece que o elevador chegou no meu andar e as portas não vão abrir até eu expor minhas intenções de uma vez. Não tenho escapatória, sei disso. Eu mesma me coloquei nessa posição, mas minha mente ainda procura a saída de emergência. Mesmo sem nenhum contato visual, sinto que é a primeira vez que alguém vai enxergar de verdade. 

Respiro fundo. 

Torço para o amargor do café ganhar alguma doçura na sinceridade das minhas palavras.

"Você se faz as perguntas erradas, Bia."

Querida QuarentenaOnde histórias criam vida. Descubra agora