Capítulo 7: Dois Meses de Casado, Uma Eternidade de Saudades

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Miguel

Dois meses. Dois meses desde que me casei com Suellen, e a falta de Cat ainda apertava. É difícil acreditar que estou casado, mas Suellen é uma mulher boa, de coração enorme, e enfermeira no mesmo hospital que eu. Ela entende minha profissão, meus horários confusos. E tem trinta e quatro anos, não é uma criança.

Você deve estar se perguntando como já estou casado, sendo que faz apenas sete meses que Cat se declarou e partiu. Bem, Suellen sempre foi apaixonada por mim, mas eu nunca lhe dei muita atenção. Depois que Cat se declarou, e eu decidi que não poderia ficar com uma "criança", quis esquecê-la. Em menos de uma semana, comecei a namorar Su. Cinco meses depois, nos casamos. E estamos felizes. Lógico, ainda sinto muito a falta da minha menina, da minha "criança", mas vou aprender a viver sem ela. Eu preciso. A essa hora, ela já deve ter encontrado alguém da idade dela, alguém que a faça feliz.

Não sou o homem certo para aquela garota. Sou muito velho, não conseguiria acompanhá-la caso ela quisesse se aventurar pelo mundo. Meu trabalho não me permitiria, e ela precisa viver e aproveitar ao máximo sua vida. Afinal, é jovem, tem muito o que viver. O pior é saber que nem mesmo a mãe dela se importou em ligar ou mandar uma mensagem para saber como a filha está. E eu só sei porque ainda converso com a mãe dela, sempre na esperança de que elas tenham se falado e eu tivesse notícias da Cat. Mas isso nunca acontece. Acho que chegou a hora de viver minha vida com a mulher que me ama e que eu vou aprender a amar também. Eu vou conseguir esquecer a Cat, é o necessário.

Saí dos meus pensamentos com a voz de Suellen.

"Oi, meu amor", ela disse, se aproximando. "Vem, senta aqui no meu colo. Me conta o que está passando nessa sua cabecinha."

"Ah, Su," respondi, buscando uma desculpa. "Só estava pensando no que vamos fazer hoje, já que estamos fazendo dois meses de casados. O que você quer fazer?"

"Ah, amor, o que você acha de irmos ao shopping para almoçar? E à noite, podemos ir no mesmo restaurante que te pedi em casamento. O que você acha?"

"Achei perfeito, mor. Vou só me arrumar e nós vamos. Obrigada, você é perfeita. Amo você."

"Eu também te amo", respondi, sentindo o peso das palavras que pronunciei.

E assim, ela foi se arrumar. Fiquei ali, parado, pensando que, mesmo que eu dissesse "eu te amo" para Suellen, eu não a amava. Mas eu precisava passar a amá-la. Ela me amava, e isso era o que importava. Eu deveria retribuir tudo que ela tem feito por mim, era o mínimo que eu poderia fazer. Fiquei ali por mais meia hora, apenas pensando no que faria dali para frente e em como seguiria minha vida. Depois, me levantei e fui me arrumar, antes que me atrasasse para o almoço e acabasse magoando a Su. Minha esposa. Era isso que eu tinha que aceitar e viver o resto da minha vida. Ela era minha esposa, e me amava.

Quebra de Tempo

Passaram-se alguns dias. Eu estava até me sentindo melhor, convencido de que estava começando a me apaixonar por Su. Afinal, era isso que eu deveria fazer. Eu escolhi casar com ela, e passaria meus dias ao seu lado. Ela era a mulher para mim, eu acreditava nisso.

Naquele dia no restaurante, ela me disse algo que não saiu da minha cabeça. Ela me confessou que sabia que eu não a amava, mas que ela me amava muito. Por isso, ela decidiu que me ensinaria a amá-la. Ela era feliz comigo, mas se eu não quisesse ficar com ela, deveria dizer, porque assim ela iria embora e abriria mão desse amor que sentia por mim.

Foi um choque. Eu nem imaginava que ela sabia que eu não a amava. Mas eu nunca pensei em abandoná-la. Pelo contrário, eu queria ficar com ela por saber todas as suas qualidades e por ser a pessoa mais amável e bondosa que eu conhecia. Ela tinha um coração tão grande que trabalhava na ala de oncologia infantil, um lugar repleto de tristeza e dor. Mas ela ia lá todos os dias e fazia qualquer coisa pelas crianças, até mesmo se fantasiar de palhaço, só para ver um sorriso no rosto delas. Isso me cativou tanto nela que comecei a gostar dela. Só não sou apaixonado, porque meu coração ainda tem uma dona.

Mas eu vou entregá-lo para Su. Ela me ama, e sei que retribuirá esse amor. Para que eu possa seguir minha vida, devo parar de pensar na Cat. E para isso, vou jogar a carta de despedida dela fora. Não preciso guardá-la, senão nunca vou esquecê-la.

Aproveitei que estava sozinho em casa. Peguei a carta e, com as mãos trêmulas, coloquei fogo nela, jogando-a na pia da cozinha. Chorei vendo-a queimar, e junto com ela, eu estava dando fim, queimando, meu amor pela Cat. Doeu tanto que caí no chão em prantos. Sim, doeu queimar a carta do meu amor. Para mim, agora era nossa real despedida, onde eu a estava deixando ir, até mesmo do meu coração, que era o seu lugar, sua moradia e sua eterna casa.

Como diz a música de Giulia Be, "Não Era Amor":

"Agora você está em guerra sozinho e ela está em paz... se estiver doendo você vai aguentar, mão na consciência precisando pensar, e vê se pensa duas vezes antes de quebrar um coração..."

E eu realmente estou na guerra sozinho, enquanto ela está em paz. Essa música me descreve perfeitamente neste momento. Chorei por mais de uma hora no chão gelado da cozinha.

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