Capítulo 4: Recomeços e um Novo Horizonte

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O toque suave e persistente de uma mão me despertou. Era a aeromoça, seus lábios se movendo para me dizer que o avião havia pousado. Um ano. Um ano havia se passado desde que cheguei ao Brasil, um ano desde o primeiro olhar trocado com Miguel, e dolorosos seis meses desde a declaração que mudou tudo.

Levantei-me, pegando minha bolsa e minha mala de mão, sentindo a leveza de um novo começo. Ao descer do avião, a visão do meu pai, parado com uma placa com meu nome, preencheu meus olhos com uma alegria há muito tempo adormecida. Finalmente, eu estava em casa. No meu lugar. Um ano sem vê-lo, mas agora ele estava ali, me esperando. O Miguel tinha ficado para trás, mas era o melhor que eu podia ter feito. Ele não me amava e merecia ser feliz. E eu também merecia, mesmo que não fosse ao lado dele.

Corri para seus braços, a saudade apertando meu peito. Como era bom sentir o abraço dele, tão seguro e acolhedor. "Pai, eu estava morrendo de saudade! Você tem o melhor abraço do mundo", sussurrei, as lágrimas voltando a rolar. Chorei em seus braços, contando tudo. Falei do Miguel, da minha declaração, da sua rejeição. Dos seis meses em que tentei, em vão, me aproximar, ser ao menos sua amiga, e de como ele me ignorou. "Por isso decidi vir embora", expliquei, "para viver de novo na Itália, ao seu lado."

Ele me apertou mais forte, um conforto que só um pai pode dar. "Vai ficar tudo bem, filha. Eu estou aqui, e vou cuidar de você como sempre fiz." Ele me chamou de "minha Ana", um apelido carinhoso de infância, e me disse para encontrar meu verdadeiro amor. Suas palavras me embalaram, e eu prometi a mim mesma que seguiria em frente.

Meu pai me levou para casa. Mal cheguei, descansei um pouco e comecei a arrumar meu quarto. Eu precisava esquecer o Miguel, esquecer aquela viagem louca de um ano. A decepção com minha mãe ainda pairava: ela não havia mandado sequer uma mensagem. Nem um "sentirei sua falta", nem um "adeus". Eu havia deixado uma carta, explicando tudo, dizendo que sentiria a falta dela. Contei ao meu pai sobre as cartas, a ela e a Miguel, e a esperança boba de que um deles, qualquer um, me enviasse uma mensagem ou ligasse. Mas nada. Ninguém.

Meu pai, vendo meu abatimento, sugeriu que eu fosse deitar e descansar, a viagem havia sido longa. Amanhã, tudo pareceria melhor, os problemas seriam resolvidos. Concordei e me deitei. Mas o sono demorou a chegar. Meus pensamentos voltaram a girar em torno do último ano, da minha primeira declaração de amor, da reação dele, da humilhação, da mágoa. A dor era tão profunda que, mesmo que Miguel me mandasse uma mensagem, pedindo perdão, dizendo que me amava, a mágoa era grande demais para perdoar. Com os olhos marejados, finalmente adormeci.

A manhã seguinte trouxe uma surpresa. Meu pai veio me acordar com um sorriso, dizendo que tinha algo para mim. Desci curiosa, sem imaginar o que me esperava. No centro da sala, uma caixa. E dentro dela, um cachorrinho! A criatura mais linda do mundo: cinza, com olhos verdes hipnotizantes. Um buldogue francês. Ele era perfeito. "Sky", decidi. Sky, como o céu, que eu tanto amava.

Passei o dia brincando e me divertindo com Sky. Ele era incrivelmente engraçado, e até meu pai se rendeu às suas travessuras, rindo alto. Logo, meu pai precisou ir para a empresa. Ele estava ausente fazia um tempo, e eu percebi o quanto aquilo o abatia. Decidi ir junto. Aproveitaria para comprar algumas coisas para o Sky. Afinal, ele precisaria de tudo, não é mesmo?

Pedi alguns minutos para me arrumar. Subi, tomei um banho rápido, troquei de roupa, penteei meu cabelo e passei uma maquiagem leve. Desci pronta. Meu pai dirigia, já que eu ainda não tinha habilitação. Havia acabado de completar dezoito, mas este ano eu tiraria minha carteira o mais rápido possível.

Na empresa, fui recebida com abraços e beijos. Todos perguntavam sobre o Brasil, sobre as praias, sobre minha mãe. Respondi a tudo com um sorriso, afinal, ninguém precisava saber a bagunça que meus sentimentos estavam. Subi para a presidência, onde meu pai estava sentado à sua mesa de madeira escura, concentrado em algo, pensativo.

"O que aconteceu, pai?", perguntei.

Ele me explicou que teria que passar pelo menos seis meses na Rússia, resolvendo problemas na filial de lá. Perguntei se ele não preferia que eu fosse no lugar dele. Ele já estava cansado, e eu não me importaria de viajar novamente. Ele concordou, mas com uma condição: eu precisava tirar minha habilitação antes de ir, pois lá, eu teria que dirigir, e não haveria tempo para esperar por motoristas. Ele já providenciaria tudo. Eu já sabia dirigir, só precisava da carteira.

Depois de um dia agitado no escritório, voltamos para casa. Sky me recebeu com lambidas eufóricas. Beijei e abracei meu bebezinho fofo, arrumando sua caminha ao lado da minha.

Na manhã seguinte, fui direto para a autoescola. Meu pai havia agendado o teste para hoje. Dentro de uma semana, eu estaria viajando para a Rússia. Seriam seis meses, depois eu poderia voltar para a Itália. Eu não gostava muito da ideia de ficar em outro país, uma nova cultura, um novo lugar. Mas eu precisava. Ao fazer o teste, vi que passei! Eu consegui! Finalmente, minha habilitação estava garantida.

Feliz, contei a novidade ao meu pai, que ficou radiante. Sky, como sempre, me encheu de carinho. Comecei a arrumar as malas. A Rússia era um lugar frio e diferente da Itália. Precisaria de roupas quentes e sociais, afinal, eu seria praticamente a presidente da filial lá.

Decidi ir ao shopping comprar umas roupas e sapatos novos. Aproveitei para ir ao salão: fazer as unhas, dar um jeito no cabelo e comprar maquiagens novas. Avisei meu pai que estava indo e pedi para o motorista me levar. Ao chegar, dispensei o motorista. Ele podia ir para casa.

Entrei e fui direto para minha loja favorita de roupas. Comprei muitas peças de frio, roupas sociais. Depois, fui para a loja de sapatos: botas, saltos, todos os tipos que pudesse usar no frio e no calor. Em seguida, bolsas: grandes, pequenas, para festa, maiores, e mais duas malas, porque as que eu tinha não aguentariam tanta roupa.

Após quase três horas andando, decidi comer algo na praça de alimentação. Escolhi uma lanchonete de lanches naturais e pedi um sanduíche de peito de peru com queijo. Depois, fui arrumar meu cabelo. Estava tão comprido que batia abaixo da minha bunda. Decidi cortá-lo até a cintura e tirar as pontas. Meu cabelo, que era castanho claro, quase loiro, agora ficaria bem loiro, quase platinado.

Depois de quase duas horas no salão, era hora de ir para casa. Liguei para o motorista do meu pai e pedi para ele me buscar na porta do shopping. Ele chegou, me ajudou a colocar as sacolas no porta-malas e elogiou meu novo visual. Agradeci, entrei no carro e esperei que ele terminasse de guardar as compras. Finalmente, em casa, tomei um banho e fui me deitar. Estava exausta. Logo adormeci, com Sky ao meu lado.

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