O PLANO

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Não houve sonhos com Sara esta noite. Não houve casa azul, nem panquecas, nem o filho que nunca tivemos. Houve apenas o preto absoluto de um sono sem descanso, interrompido pelos gritos abafados de milhares de mortos a quinhentos metros de nós.

Acordei com o gosto de bile na boca e a voz estridente de Antoni perfurando meu cérebro.

— ...e eu estou dizendo, Claire, que a ética é uma construção social que não se aplica ao fim do mundo! — Antoni gesticulava, andando de um lado para o outro no acostamento da Linha Vermelha, protegido pela carcaça do SUV.

— Você é um sociopata, Antoni! — Claire retrucava, limpando os óculos com a barra da camisa suja. — Você torturava pessoas por prazer e chamava de ciência!

— E você pagava as contas! — ele riu. — Admita, chérie, nós éramos um casal poderoso. A mente e o dinheiro. Bonnie e Clyde da neurociência.

— Cale a boca! — Claire gritou.

Levantei-me, sentindo cada músculo doer. O sol já estava alto, cozinhando o asfalto e intensificando o cheiro podre que vinha da muralha de contêineres do Galeão. Jason ainda dormia sentado, a cabeça pendurada. Maze limpava as unhas com uma faca. Lorena e Baldir observavam a discussão do casal de cientistas como se fosse um jogo de tênis macabro.

Eu precisava de um plano. O "estamos indo bem" tinha morrido no momento em que vimos aquele oceano de zumbis bloqueando a entrada.

Olhei para a horda. Eram tantos que pareciam um organismo único, uma massa de carne cinzenta ondulando contra o metal. Não podíamos atirar. Não podíamos atropelar.

E então, olhando para um zumbi solitário que se arrastava perto do manguezal, com as tripas penduradas para fora, uma ideia insana floresceu na minha mente exausta. Uma ideia suja. Repugnante. Perfeita.

— Acho que tenho um plano — minha voz saiu rouca, cortando a discussão de Antoni e Claire. — Mas vocês não vão gostar nada dele.

Todos se viraram para mim. Havia um brilho febril nos meus olhos, eu sentia. A insanidade estava batendo na porta, e eu resolvi deixá-la entrar.

— Estamos sem tempo — continuei, apontando para o aeroporto. — Se não chegarmos logo, o pássaro voa sem a gente. Nossa única chance é atravessar aquele mar de gente morta. E para fazer isso, precisamos deixar de ser gente.

Expliquei o plano. O silêncio que se seguiu foi de puro horror.

— Você só pode ser louco... — Claire sussurrou, dando um passo para trás, cobrindo a boca. — Isso é contaminação biológica direta! O risco de infecção por mucosa, por ferida aberta... Alec, você quer nos cobrir de... de restos mortais?!

— Camuflagem olfativa — corrigi, frio. — Eles se guiam pelo cheiro. Se cheirarmos como eles, somos invisíveis.

— Eu gostei! — Baldir levantou a mão, com um sorriso maníaco. — É como uma festa a fantasia, só que o tema é "açougue"! Puta que pariu, genial!

— Não é como se tivéssemos outra escolha — Jason disse, acordando e se espreguiçando, a lealdade dele falando mais alto que o nojo. — E, além do mais, eu confio no Alec. Se ele diz que funciona, a gente faz funcionar.

Olhei para Maze. Ela estava calada, afiando a faca na sola da bota. — Maze?

Ela levantou o olhar. — O que? Se quer saber o que acho do seu plano, eu acho uma merda. Mas é uma merda tática viável. Não é a primeira vez que vou ter que me sujar para sobreviver. O ponto é: precisamos chegar naquela muralha. Se tivermos que nos vestir de carne podre para isso, que seja.

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