Deschamps, V

27 9 5
                                    

Batalha de Poitiers, 19 de Setembro de 1356


"A maldade sempre nos leva junto com ela no final. Sejam atos ou acontecimentos. Resta pra você escolher se nessa grande carroça você vai alimenta-lo com mais maldade ou se vai ser um amenizador da dor da partida."


 Mesmo em face da morte, Caleb sorria ao se lembrar das palavras a tanto tempo ditas por sua mãe e junto com elas as várias coisas que tinha aprendido com o tempo e as dores.
 Por trás da sua mente vaga ouvia uma voz que lhe parecia familiar, sentia que já havia entrado em transe e que aquilo era produto da sua mente quase morta, até que lhe apareceu um rosto.
— Vamos Caleb, seu saco de estrume! Desgraçado, você não pode morrer aqui. — aquela voz que estava tão distante apesar do rosto estar tão próximo.
 Era o Faure. Sua boca suja era inegavelmente característica.
 Ele gritava e o Caleb mais uma vez, vagava.



_________________________



Três anos antes de Poitiers.


 Após a morte do Hills, Caleb passou seis meses ajudando sua tia Gabrielle com os negócios e finanças dele enquanto ela lhe ensinava coisas sobre a medicina da época, principalmente a costurar feridas abertas. Caleb estava decidido a ir como médico do exército e assim o fez com o passar dos seis meses. Durante o pouco tempo que ficou com sua irmã Anna lhe deu todo afeto e amor que tinha, a ensinando e cuidando ao máximo. Não sabia em quanto tempo acabaria os conflitos com a Inglaterra e principalmente, se um dia voltaria de lá.
 No dia da sua partida poucas coisas Caleb levou, não era um garoto de muitas vaidades e seus pertences eram somente o necessário, mas uma lembrança antiga se fazia muito bem-vinda quando o foi entregue.
 Abraçou sua tia e essa lhe deu as últimas instruções sobre o que fazer e como agir. Hills falava muito do exército e ela aprendeu coisas com ele. O pediu que tomasse cuidado com a bebida e com as mulheres, e que não se juntasse com pessoas ruins. Lhe beijou a testa e olhou nos olhos.
— Muito obrigado, Caleb. Você é um filho pra mim e eu devo muito ao que fez por mim e por seu tio. Seus pais se orgulhariam.
 Caleb lhe deu um sorriso triste. Achava que estar indo agora à batalha faria com que deixassem de se orgulhar.
 Ainda assim agradeceu e a abraçou.
 Um pouco atrás estava sua irmã, cabisbaixa e irritada, não aceitara que seu irmão iria lhe deixar. Seus olhos marejados ainda não tinham derramado lagrimas até que Caleb chegou perto dela e a abraçou.
 Se derramou em lagrimas no ombro do seu irmão enquanto o apertava firme.
— Me promete que nunca vai se esquecer de mim? De nós? Que vai voltar? Por favor, volte... E que nesse tempo lá não vai esquecer tudo que nos foi ensinado e... que vai se tornar um homem mal. Não seja mal, Caleb, por favor... — de cabeça baixa, Anna citava essas palavras como se fossem facas afiadas prontas a perfurar a realidade.
— Não vou me esquecer, Anna. Logo estarei aqui, o mesmo Caleb. — ele lhe dizia essas palavras, mas não com a mesma confiança de sempre.
Anna enxuga as lagrimas e lhe entrega uma pequena recordação. Uma roda de uma pequena carroça.
— Você se lembra? Me contou essa historia muitas vezes... Como a mamãe dizia? — parou por um segundo então repetiram juntos — Não deixar a maldade nos transformar.
Caleb pegou a roda da mão dela e foi como retornar ao passado. E isso lhe fortaleceu pro futuro.
Um abraço demorado se seguiu. E então ele se foi.
Anna ficara abraçada a Gabrielle no portão, temendo a partida como se soubesse que não teria fim.
Caleb as deixou e seguiu seu caminho para se tornar um dos homens de João II, rei da França.

A Morte escreve Vida Onde histórias criam vida. Descubra agora