1971
Pra tão pouco tempo o Martinez se adaptou bem a como as coisas funcionavam na Bad Maus. A jaqueta lhe caiu muito bem no corpo. Mesmo sendo um dos quatro porto riquenhos daquela gangue, era sempre amigavelmente recebido, devido ao jeito simples que lidava com as coisas. Os outros eram os irmãos Rocco que não eram nada amigáveis e gostavam de tirar com a cara dos outros. E o Julian Grande, que convenhamos, ninguém diria que ele era de uma gangue de tão retraído. Tudo muito bem na Mad Maus. Nada muito bem em casa. Não demorou muito até os boatos de que ele estava na gangue chegassem a mãe dele. Uns 8 dias após a decisão de entrar na Mad Maus eles tiveram mais uma conversa, uma das que se estenderam e se tornaram uma discussão. Se tornaria algo recorrente entre eles além do clima pesado. Descobri neles o peso de um clima de desconfiança. Essa foi a primeira vez que o Martinez viu a mãe perder o controle sobre as lagrimas, que a viu chorar, não por ele, mas por culpa dele. E ele já esperava aquilo, sabia que aquele furacão cairia em cima dele e que demoraria pra voltar ao normal. Ele ainda acreditava que voltaria, mas será mesmo? Após isso ficaram alguns dias sem trocar nenhuma palavra. Nem um bom dia e quase nenhuma troca de olhares. A Flávia era o único ponto de fusão entre eles e era o único motivo para palavras serem ditas dentro de casa. Ela tinha ficado muito desapontada com o irmão por tudo que ele causou a mãe mas ainda assim não tinha o deixado. E a Carmen também não tinha, do jeito dela. Ele ainda morava na casa dela. Ela ainda preparava seu prato na mesa. Ainda arrumava suas roupas sujas e seu quarto desarrumado. Era seu filho e nunca deixaria de ser. Martinez não deixou de notar isso. Sabia de tudo que tinha feito e de tudo que fazia. E jurava um dia poder compensar o que causou. Tudo que fazia. Isso é parte importante. No pouco tempo que passou ele é parte dominante em muitas coisas dentro da Mad Maus. A habilidade física e logica dele ajudava muito nos "trabalhos". Os irmãos Rocco que tinham controle dos assaltos pra lá da West Garden Avenue eventualmente o chamava pra ir com eles. Meses depois passou a agir na própria área. Junto com os que estavam com ele da 6th na gangue vendiam maconha em 30% daquela área do Bronx. Nesse meio tempo passou a usar também, "pra se libertar dos demônios". Viu que não seria fácil, mas era um dinheiro bom ele pensava. Que ajudaria as coisas melhorarem nem que fosse um pouco. Naquele ponto do século, o Bronx já ruía em chamas. Havia se iniciado a década dos incêndios e toda área virava cada vez mais um montante de destroços. Se esforçar pra se manter vivo era um caso de extrema dificuldade. Martinez andava nas ruas e via que os detalhes estavam se reduzindo a pedras e cinzas. Três dos prédios da 6th tinham sido incendiados em 5 meses e todos ficavam pensando quando eles seriam os "premiados" da vez. Por cerca de seis a sete vezes eu tinha rumado pelo Bronx recolhendo historias finalizadas devido à chamas, maioria delas de histórias que nem tinham se iniciado direito, histórias que não tinham experiencia alguma na vida e que por isso não conseguiram escapar do fogo. Enquanto coisas queimavam, coisas ainda nasciam. E isso não era necessariamente algo bom. O número de gangues em NY continuavam a crescer, cheias de pessoas buscando sua própria versão de um termo que elas não entendiam: Revolução. Entre essa onda de energia direcionada, algo nasceu como ponto de resistência. Uma das primeiras e que agora buscava ir contra a maré de destruição das gangues, a Guetto Brothers. Ficou conhecida por todos, o que incluía o Martinez. O que eles buscavam fazer intrigava ele. Ele que já tinha se acostumado a tomar o espaço pra viver, via essa gangue fazer trabalho social em vez de destruir. Eles até faziam música! Aquilo fazia ele pensar.— Será essa a melhor maneira de tentar? — falava ele comparando o jeito deles com o seu.Depois desistia de pensar. Já tinha tomado sua decisão, não podia voltar atrás.
Mas podia.Deveria.
___________________
20 de Agosto de 1971
Fim de tarde no Bronx. Depois de uma tarde cansativa com o gestapo Dany "Break" Town resolvendo problemas com alguns membros da Mad Maus, Martinez estava agora com ele e o Julian Grande fumando perto do parque St. Marys. Gestapo. Tinha visto esse nome décadas antes em outra situação, uma mais triste e sangrenta. Tempos depois vi que esse era um tipo de "homenagem". Não sei o que há pra homenagear daquilo, mas humanos tem seus modos de lembrar do passado. Era uma maneira interessante de nomear a polícia das gangues, os homens que controlavam os membros de quebrar as regras.

VOCÊ ESTÁ LENDO
A Morte escreve Vida
Historical FictionEnquanto vivemos, passamos despercebidos por muitas coisas. Momentos, aprendizados. Nos tornarmos ou deixarmos de nos tornar coisas em determinados momentos podem ditar toda uma vida - ou várias delas. Toda vida tem um emaranhado de detalhes. E esse...