Ele tinha planos. Vários deles. Mas o principal, que possibilitaria os outros de serem realizados era sair dali. Ele tinha que levar toda a família pra longe daquele lugar, pra um lugar que os aceitasse. Mas será que ainda existia? Todas as manhãs acordava pensando nisso. Mas aquela manhã não lhe deu tempo. Já acordou em meio a bagunça. Eram cinco e meia da manhã e tinham invadido a loja do Abraham, a primeira da rua. Parece que tinham iniciado aquilo que mais temiam. Muitos desacreditavam que os alemães chegariam ao ponto daquilo, mas quem pensaria em destruir todo um povo por se achar superior? Vestiu uma roupa as pressas e correu pra rua, tinham austríacos e alemães invadindo as primeiras lojas. Viu de longe o Abraham ser arrastado e suas filhas pequenas gritarem pelo pai que foi colocado num dos carros. Um dos alemães o notou e riu olhando pra ele, pareciam tão alterados, mas falavam como oficiais. Logo lhe veio a mente os amigos e a família. Correu pra casa, tinha que tira-los de lá. Eles estavam a menos de 600 metros, então tinham que ser rápidos. Entrou na casa da sua irmã e rapidamente lhe explicou o que estava pra acontecer. Eles estavam semi-preparados, judeus sempre viviam a espreita. Viviam como em meio a lobos famintos. Lea correu e arrumou algumas coisas da sua pequena Valentina. Abbe as amava como se fossem seu próprio ser. Amava mais do que seu próprio ser. Eram a família mais próxima que lhe restava, já que seu pai tinha os deixado já a algum tempo. A pequena Valentina tinha tanto pra ver do mundo. Ele a tinha prometido uma viagem aos Alpes, e ela amava a neve. Seus olhos brilhavam toda vez.— Ao sairmos daqui, vamos planejar viajar, ok? Vamos a um lugar com muita neve meu amor, você não ama neve? — disse ele, pra acalmar sua criança. Estava claramente assustava com a correria do momento. E era necessário, tinham pouco tempo.
Mas havia um problema. — O Marco? Onde ele está? — diz Abbe. Marco era seu cunhado, pai da pequena Valentina.— Ele ia chegar pela manhã, meu Deus, ele já tinha que está aqui. — diz Lea com as mãos na cabeça. Seu marido era seu apoio, não sabia o que faria sem ele. Abbe sai a porta e logo vê Marco, mas não numa situação agradável. Um alemão fora do grupo o tinha visto descer a rua. O segurava contra a parede gritando palavras de ordem e xingamentos racistas. Abbe sem pensar duas vezes correu ao seu encontro, eram uns 100 metros até ele, e uns 300 até o grupo de nazistas invadindo e quebrando os estabelecimentos judeus. Ele só tinha que arrancar o Marco das mãos do alemão e correr. E o fez. Foi rápido mas lhe garantiu um machucado acima do olhos. O alemão parecia bêbado mas ainda assim era um homem forte, e o conseguiu acertar um soco no rosto. Abbe o jogou no chão e esse bateu a cabeça. Caiu desacordado. Eles tinham pouco tempo. Logo o grupo de nazistas veriam o acontecido, então tinham que sair dali. Mas como? O caminhão estava longe, não daria tempo ir buscar, tinham que encontrar outro jeito. Felizmente ainda tinham aqueles que arriscavam o que tinham pra salvar vidas. Dois carros chegaram. Rápido. E um rosto conhecido desceu do carro. Uma velha conhecida, que abraçou Abbe assim que o viu.— Bea? O que faz aqui? Vocês... olhem.. O que está acontecendo?— Rápido Abbe! Não tem muito o que conversar, temos que tirar vocês daqui, entrem com o Dust, vamos procurar um lugar seguro antes que venham pra cá.Beatrice. Abbe tinha ficado sabendo do seu envolvimento com os socialistas. Já tinham até conversado a respeito. Ela odiava Hitler tanto quanto os outros. Mesmo não sendo afetada pelos ataques dele. Mas lá estava ela, os tirando de lá, se pondo em risco. Dando de si. Sem vantagens. Só por bondade. Então saíram, ela e os outros no carro da frente. Ele e sua família com o Dust, seguindo eles. Dust explicou pra ele como sabiam. Disse que aquilo estava acontecendo desde a madrugada na Alemanha. Invasões, destruições, prisões. E até alguns assassinatos. Falou com outras palavras pra que não assustasse a pequena Valentina. Ela não precisava de mais isso. Eles tinham rádios de curto alcance. Então no carro ouviram a voz da Bea.— Vamos ver a ajuda de um velho amigo. Era um lugar conhecido por Abbe, sempre estava lá atrás de entregas. Aloys selecionava as melhores pra ele, e ele estava sempre grato. Tinham em mente de ficar escondidos no armazém. Não era uma rua de lojas judias, então nazistas austro-germânicos não iriam lá. Mas ele tinha um pé atrás. Ele sabia que Aloys ainda não entendia. Que ele nunca se arriscava a chuva. Chegando ao portão de Aloys ele viu do carro o que parecia uma discussão se iniciar. Bea parecia indignada e seu medo parecia ter virado realidade, então desceu do carro. O outro cara confirma seu medo, Alex o nome dele, que Aloys não queria esconde-los no armazém. Nos olhos de Abbe a tristeza de não ter sua dor entendida. Porque pessoas insistiam em deixar aquela coisa acontecer? Em virar as costas quando outros estavam sendo massacrados? Em aceitar a injustiça por temer seus bens. Então tentou uma ultima coisa. Ele temia pela vida de sua irmã e sua pequena sobrinha, então pediu que pelo menos elas ficassem. Meio duvidoso, Aloys aceitou. Pelos menos a vida delas estavam garantidas, agora tinham, ele e Marco que garantir a deles. Pra que se vissem novamente. Lea e Valentina entraram no armazém, então viu uma ultima vez o sorriso da criança. Era lindo, inocente. Não merecia uma vida sofrida. Ele tinha que tirar todos de lá. Ao saírem com o carro, estabeleceram o plano. Bea voltou pra buscar uma pessoa que havia ficado pra trás. Uma das filhas do Abraham tinha conseguido sair a tempo, Cristine. Então todos iam se encontrar na saída de Viena. Ele e Marco seguiriam. E fora de Viena eles se encontrariam no outro dia com Lea e a pequena Valentina. E então poderiam seguir a vida. Ir aos alpes. Longe de nazistas. Somente eles e a neve. Era pouco mais de 11 horas, e estavam perto da saída de Viena. Era um lugar lindo mas já não te trazia alegria e se despediam sem remorso.
Mas nunca é assim fácil.
Tinham dois carros atravessados no inicio da ponte do Danúbio. Os merdas da SS tinham chegado lá cedo pra verem se judeus estavam passando por lá. Abbe vinha rápido, então freou de repente. Foram notados pelos austríacos.— Ei vocês! Venham cá, porque pararam ai? Estão com algum problema?Um silencio os encheu. E imóveis ficaram. Não podiam ficar ali, tinham que sair rápido.Se fossem pegos, era o fim.
Mas
Se não tentassem, não conseguiriam sair de Viena, e não dava pra ficar mais. O Danúbio estava ali, só tinham que pular no rio, somente. Mas era tão arriscado. Enquanto pensavam, um dos austríacos bateu a janela. Eles saíram do carro.— Então... Tudo bem com vocês? Pararam do nada, parecem desconfiados.Eles dizem que está tudo bem. Mas eles fazem perguntas e já estão quase desconfiando que são judeus. Eles não podiam arriscar. E Marco? Parecia mais assustado que Abbe. Afinal eram sua esposa e filha que tinham ficado para trás. Num momento em meio as perguntas, Marco correu. 15 metros da beira da ponte. Mas não deu tempo. Um dos austríacos foi mais rápido e pulou sobre ele. Socou seu rosto com força, uma, duas, três vezes. Até que Abbe foi pra cima. Há sempre alguém com mais adrenalina. Alguém que se exalta. Um garoto dessa vez. Ao ver Abbe correr pra cima do agente que socava Marco, puxou sua arma e disparou pelas costas. O disparo atingiu seu pescoço. Foi fatal. Ele ainda viveu uns segundos, enquanto colocava sangue pela boca. Olhava Marco, praticamente sem esperança jogado no chão, ensanguentado pelos socos. Foi a ultima visão que teve. Seu sangue descendo por entre as madeiras da ponte e caindo no rio. Pensava no quão perto tinha estado. De conseguir escapar daquele inferno. Então teve medo, um medo que se conectou com o de Marco. De não terem conseguido salvar Valentina e Lea. O que seria delas agora? Mas já não tinha tempo pra medos. Então o peguei. Era um bom homem. Mas o Mal não escolhe quem ira maltratar. Em quem ira bater. Ele só faz. E quase sempre recai sobre quem não merece. Assim como dessa vez.
E cabe a mim recolher. Cabe a mim estar lá. E aceitar. Que faz parte da vida - e de mim, da morte, - que aconteça.Mas pelo menos ainda posso escrever.E relatar que de tais acontecimentos se aprendam.Pra que não se repitam.Pelo menos não com tanta atrocidade.Pelo menos não com tanto aceitamento.
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A Morte escreve Vida
Historical FictionEnquanto vivemos, passamos despercebidos por muitas coisas. Momentos, aprendizados. Nos tornarmos ou deixarmos de nos tornar coisas em determinados momentos podem ditar toda uma vida - ou várias delas. Toda vida tem um emaranhado de detalhes. E esse...