Capítulo 5 - Abnegação

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Primeiro lapso de consciência

Dedos sobre superfície macia.

Segundo lapso de consciência

Cabeça queimando.

Terceiro lapso de consciência

Estômago doendo.

Os sentidos de Zayn voltavam gradativamente como um quebra-cabeça sendo remontado depois de ter sido estilhaçado no chão e suas peças voado para longe. Ele sentia como se tivesse batido a cabeça com muita força em alguma superfície metálica, seu cérebro entrando em contato com ferro e sendo intoxicado aos poucos. Seus dedos eram seus únicos pontos de sensibilidade do corpo no momento e ele definitivamente não conseguiria abrir os olhos tão cedo.

O som ambiente de onde estava era bem calmo, apenas alguns passos soando no que parecia ser um corredor, mas tudo soava alto, abrupto demais em seus ouvidos  - sua expressão era de dor, amassando os olhos e a testa fortemente.

Ele se sentia mal. Bem mal.
Uma sensação de prisão interna o continha dentro do próprio corpo devido a falta de controle de qualquer membro. Zayn já havia sentido isso outras vezes, mas não nessa proporção. A única coisa que sabia é que não podia surtar, porque no momento em que ele acessasse a sombra que o preenchia, ela pareceria eterna.

Sua respiração acelera um pouco devido aos seus pensamentos sobre não pensar em surtar. Os bip's da máquina ligada aos seus batimentos cardíacos ganham velocidade e parecem contribuir para o aumento do barulho interno do moreno. Os passos e os bip's o deixavam nervoso, pareciam uma composição para a sonoplastia de seu surto. O barulho da máquina alimentava o seu nervoso e o nervoso alimentava a máquina a fazer mais barulho.

Um ciclo virtuoso para um ápice de histeria.

Zayn começa a sentir a ponta de seus dedos geladas e suadas, percebendo que talvez estivesse suando frio. Seu corpo pesava muito sobre o colchão e a mente parecia estar aberta a um fluxo de movimentos muito intensos, mas curtos, que o aprisionavam dentro daquele pequeno perímetro do inconsciente. Ele sentia-se como uma bigorna maciça caindo infinitamente em um buraco negro.

Ele tenta voltar-se à dor no estômago para remeter seus pensamentos à sensações reais, mas focar na dor só o fez entrar em um estado de consciência pior, mais agitado e ansioso.

Zayn começa a hiperventilar, sua respiração quase queimava a máquina de tantos bip's por segundo. Ele agarra o lençol com as pontas dos dedos, usando da pouca sensibilidade que tinha. Ele já sentia seus olhos queimando, prontos para derramar algumas lágrimas.

O moreno se desespera por perceber que adentrava mais um surto.

E dessa vez, sozinho.

— Eu estou aqui.

Zayn leva um susto violento, segurando a respiração por alguns segundos. Sua consciência corporal voltara parcialmente e seus devaneios histéricos caíram por terra depois da enxurrada de estímulos nervosos que o susto lhe causara. A voz era rouca e havia soado muito grave em seus ouvidos, destoando completamente dos agudos dos bip's e dos passos longínquos do corredor. Ele não se lembrava dessa voz.

Uma mão quente segura um de seus braços firmemente, indicando onde o homem estava.

Zayn queria muito poder abrir os olhos.

- Liam, seu vizinho.

Ah, sim.

A lembrança do músculo rígido de seus ombros sob a pele de sua mão, automaticamente se enrijecendo ainda mais depois de seu toque.

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